terça-feira, 30 de novembro de 2010

O TEMPO EM QUE ERA PECADO TOMAR BANHO

Não estamos falando do período da Semana Santa, quando muitos fiéis católicos não tomavam banho na quarta-feira porque, segundo eles, poderiam ficar "entrevados". Estamos falando de um tempo de transição do paganismo romano para o cristianismo católico.

Os habitantes da velha Roma (Monarquia e começo da República) não eram dados ao asseio corporal. Por tradição tomavam banho completo a cada nove dias, em cujo período lavavam apenas os braços e as pernas. Os banhos quentes teriam sido introduzidos somente nos dois últimos séculos que antecederam o Império (27 a.C.).

Embora os romanos tivessem herdados muitos costumes dos gregos, no campo artístico e no campo educacional eles preferiram manter parte da velha tradição. Assim, eles nunca aceitaram plenamente a música e a dança. Para a antiga moral romana, os dois dons artísticos combinavam mais com o sexo feminino do que com o masculino. O homem que dançava muito precisava fazer muito exercício físico, uma forma de endurecer aquilo que seria amolecido com a dança (o corpo), pregava o romano.

Desta feita, a nudez grega fora, na antiga Roma, uma forma de escândalo, diferentemente da época do Império (principalmente nos três primeiros), quando os banhos nas Termas se tornaram uma clara opção de orgias coletivas.

Quando os romanos haviam perdido a timidez, entrou em cena o cristianismo, notadamente o catolicismo romano do século V em diante.

Com a nova religião - que praticamente sepultou o paganismo -, a utilização da água passou a ser questionada e interpretada como algo mais voltado ao sagrado do que ao prazer. Assim, ela deveria ser utilizada principalmente para beber e para o batismo, esta última uma das alternativas para salvar o cristão.

Adotando tal raciocínio, a higiene pessoal ficou em terceiro plano, de modo que o corpo bem asseado foi visto - imaginem - como uma vaidade pessoal, portanto algo desprezível. A consequência não foi outra senão o fim da tradição dos banhos coletivos e o repúdio à exposição do corpo, até então vistos como um sinônimo de liberdade.

O fim dessa e outras tradições levou, por exemplo, o filósofo Nietzsche a anatematizar o cristianismo no final século 19, fato este que tem gerado, até hoje acirrado debate entre os cristãos (católicos e protestantes) e os simpatizantes do referido filósofo.

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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

CURIOSIDADES SOBRE O TRÂNSITO

O primeiro registro de atropelamento causado por um carro aconteceu em 1880, nos Estados Unidos. Dezessete anos depois o poeta Olavo Bilac bateu seu automóvel em uma árvore e acabou entrando para a história como sendo o primeiro a se acidentar no trânsito brasileiro.

Antes de tais acidentes, em 1769 um francês que conduzia um carro com três rodas (que viajava a uma velocidade máxima de 4 km por hora) bateu em uma árvore na primeira saída. Um ano depois o mesmo motorista causou outro acidente e foi, provavelmente, o primeiro a ser condenado por direção perigosa.

A Inglaterra determina, em 1865, que à frente dos automóveis fosse um homem correndo com uma bandeira vermelha, a fim de alertar os pedestres e cavaleiros que transitavam nas ruas e estradas. A lei teria sido abolida em 1896, depois que aquele país registrou a primeira morte de trânsito.

Em 1909 a Alemanha cria uma lei que autoriza os condutores de automóveis a abandonar o local do acidente sem prestar socorro à vítima, de modo que somente no dia seguinte o atropelador poderia avisar a polícia do acidente.

No Brasil, em 1910, o então presidente da República, Nilo Peçanha, assinou a primeira legislação nacional de trânsito no país, embora existissem poucos carros circulando nas cidades brasileiras. O objetivo principal, na verdade, era incentivar a construção de estradas.

Em 1910, os Estados Unidos passaram a exigir que os motoristas profissionais se submetessem a uma prova antes de receber autorização para dirigir. O feito ocorreu logo depois da produção dos veículos da marca Ford.

A partir de 1966 o Brasil ganha faixas de trânsito nas ruas e um ano depois os carros produzidos nos Estados Unidos ganham cinto de segurança.

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domingo, 28 de novembro de 2010

MULHERES BRASILEIRAS CORTAM O CABELO, SE VESTEM COMO HOMENS E VÃO À GUERRA

Em outra ocasião falamos do esforço empreendido por muitos jovens brasileiros do século 19 com o fim de não serem recrutados para o serviço militar. Diferentemente desses "machões", duas nordestinas fazem o inverso e conseguem chegar à cúpula do serviço militar brasileiro, ainda que por meio da camuflagem. Estamos falando de Maria Quitéria de Jesus e Jovita Feitosa.

A primeira, baiana de Feira de Santana, participou ativamente das batalhas que levaram à independência do Brasil em relação a Portugal no início da década de 20 do século 19.

Embora não fosse permitida a participação de mulheres no serviço militar do país, ela deu um jeitinho brasileiro: cortou os cabelos, vestiu-se como homem e amarrou os seios. Alistou-se com o nome de "Soldado Medeiros".

Descoberta pelo pai, este tentou a todo custo retirá-la das forças armadas, mas com muita insistência dos colegas acabou aceitando. O oficial-comandante aceitou que ela ficasse, mas determinou que a mesma usasse trajes femininos, o que acabou acontecendo.

Lutou e pegou em armas. Seu superior chegou a dizer que ela "apresentou feitos de grande heroísmo, avançando, de uma vez, por dentro de um rio, com água até os peitos, sobre uma barca que batia renhidamente nossas tropas".

O ápice da fama aconteceu quando foi condecorada pelo próprio imperador D. Pedro I, na presença das maiores autoridades do país. Uma inglesa, que testemunhou o evento, afirmou que ela era "iletrada, mas viva, de inteligência clara e percepção aguda ... nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis". Morreu no animato, depois que voltou para a Bahia e se casou com um ex-namorado, o agricultor Gabriel de Brito.

Outro nome é Jovita Feitosa, que nasceu na região dos Inhamuns, entre Ceará e Piauí, por volta de seis anos depois da morte de Maria Quitéria de Jesus. Jovita Feitosa - que dá o nome de uma conhecida rua de Fortaleza, CE - candidatou-se para lutar na Guerra do Paraguai.

Passou a faca no cabelo, trajou-se de homem (usou inclusive um chapéu de vaqueiro) e foi para Teresina, para em seguida partir para o Rio de Janeiro. Largou a costura e o desejo de estudar música em nome do sonho de ver o Brasil vencedor da guerra.

Foi descoberta em uma feira, depois que uma mulher viu suas orelhas furadas e acabou tocando os seios de Jovita. Sem saída, acabou confessando o embuste. Chegou a ser aplaudida pelo público e por altas autoridades do Rio de Janeiro, mas ainda assim teve seu pedido negado.

Decepcionada e triste por não ir à guerra, morreu depois que enfiou um punhal contra o próprio peito.

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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

UM POUCO SOBRE CLÓVIS BEVILÁQUA, O AUTOR DO PRIMEIRO CÓDIGO CIVIL BRASILEIRO

Epitácio Pessoa foi ministro da Justiça no governo de Campos Sales e presidente da República de 1919 a 1922. Foi colega do então professor Clóvis Beviláqua, por quem nutria grande respeito.

Mais de meio século antes do primeiro código civil entrar em vigor, já havia mobilização no sentido de pôr em vigência um código civil no país. Durante quase duas décadas o Congresso Nacional discutiu seu teor, quando ficaram marcados os debates gramaticais, tendo à frente o notório jurista Rui Barbosa.

Convidado por Epitácio Pessoa, o cearense de Viçosa do Ceará, Clóvis Beviláqua, concluiu o projeto em menos de um ano. "Por mais d'um motivo lembrei-me do meu distinto collega. Quer pôr a sua competencia e patriotismo a serviço d'essa nobre causa? Quer ligar o seu nome a essa obra gloriosa? Si acceitar, como espero, o convite que ora lhe faço, melhor será que se resolva a vir para esta capital ...", escreveu Epitácio Pessoa ao cearense.

Membro da Academia Brasileira de Letras, Clóvis não nutriu por ela simpatia, cujo estopim se deu depois que sua esposa - escritora piauiense - sofreu preconceito social na própria Academia, que rejeitou a proposta da candidatura da mesma alegando que a ABL era somente para homens.

Aposentado compulsoriamente por idade, e após reconhecimento internacional, Clóvis Beviláqua dedicou-se a emitir pareceres jurídicos de caráter privado.

Certa vez fora procurado por um cliente, que desejava do eminente brasileiro um parecer jurídico. O cliente teria encontrado Clóvis Beviláqua com um felino (que se achava dormindo) sobre suas pernas. Ao ser questionado sobre o parecer, o jurista teria dito que somente entregaria a encomenda depois que o gatinho acordasse.

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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

TESTAMENTO DE PADRE CÍCERO (PARTE 9)

Abaixo, a nona parte do testamento de Padre Cícero. A transcrição é fiel ao documento original, o que explica os vários erros gramaticais. No trecho abaixo o padre começa a inventariar seus quase incontáveis bens. Acompanhe.

"Não tenho ascendentes vivos nem tão pouco descendentes, e assim julgo poder dispôr dos meus bens, que se acham livres e desembaraçados, de accordo com as leis do meu paiz e dee modo por que desejo e como se segue e o faço na plenitude de minhas faculdades e da mais livre e espontanea vontade:

Primeira - Deixo para Ordem dos Padres Salesianos todas as terras que possúo nos sitios Logradouro, Salgadinho, Mochilla, Carás, Pau-Secco que pertenceu ao velho Antonio Felix, neste Municipio; o sitio Conceição na Serra Araripe, Municipio do Crato, onde reside o empregado Casimiro; os terrenos que possúo na serra Araripe e mais o sitio Brejinho ao sopé da mesma serra Araripe do Municipio do mesmo nome; os predios e a Capella em construção na serra do Horto, com todas as suas bemfeitorias; o predio onde funcciona o açougue publico desta cidade, sitio á Avenida Doutor Floro, antiga Rua-Nova; os predios contiguos a casa de residencia da religiosa Joana Tertulina de Jesus, conhecida por Beata Mocinha, onde tambem resido actualmente, sitios á rua São José; o sitio Faustino, sito no Municipio do Crato; o sitio Paul tambem no Municipio do Crato, porem depois do fallecimento da antiga proprietaria Dona Ermelinda Correia de Macedo, que ainda nelle reside, salvo se antes da sua morte quizer de accordo com os Padres Salesianos ficar morando em outro lugar; o sitio Baixa Dantas, no Municipui do Crato; as fazendas Lettras, Caldeirão e Monte Alto, no Municipio do Cobrobó, no Estado de Pernambuco, com todas as bemfeitorias e gados nellas existentes; o quarteirão de predios, sitos á rua de São Pedro, os quais comprei ao Doutor Floro Bartholomeu da Costa, nesta cidade, inclusive o predio em construcção na mesma rua, contiguo a casa de morada e de negocio do meu amigo Damião Pereira da Silva; a fazenda Juiz, sita no Municipio de Aurora que comprei aos Frades do Convento de São Bento de Quixadá; o predio onde funcciona o Orphanato Jesus Maria e José, sito á rua São José;"

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terça-feira, 23 de novembro de 2010

HERÓI BRASILEIRO DOS LIVROS DE HISTÓRIA PROVAVELMENTE MATOU A ESPOSA E UM FILHO NO VENTRE

Abaixo serão feitas três transcrições. A última delas, a mais reveladora, traz indícios de que D. Pedro I, retratado nos livros convencionais de história como um herói, foi o responsável direto pela morte de D. Leopoldina, sua esposa e de um feto totalmente indefeso.

Escrevemos, em outro momento, que no início o casal vivia muito feliz: "Estou vivendo uma felicidade perfeita, numa quietude que amo, cuidando da minha filha e vivendo somente para meu esposo e meus estudos", chegou a escrever Leopoldina.

A loira de olhos azuis aos poucos perdeu a formosura e ainda na casa dos vinte anos já parecia uma senhora de avançada idade. À proporção que ela engordava, seu esposo namorava outras mulheres. Aos poucos ela se decepcionou com o marido. Uma carta que endereçou ao esposo revela sua tristeza e último fio de esperança:

"Confesso-lhe que tenho já muito pouca vontade de escrever-lhe, não sendo merecedor de tantas finezas. Faz oito dias que me deixou e ainda não tenho nenhuma regra sua. Ordinariamente quando se ama com ternura uma pessoa, sempre se acha momentos e ocasiões de provar-lhe a sua amizade e amor."

D. Pedro se apaixonou perdidamente pela Marquesa de Santos. Antes de partir para o Rio Grande Sul, em novembro de 1826, ele promoveu um beijão-mão de despedidas. Leopoldina, entristecida com a presença da amante de seu marido, não quis se fazer presente.

D. Pedro foi ao quarto e a arrastou pelo braço. Assim como Nero, teria dado um chute na barriga da esposa, que estava grávida e veio a abortar poucos dias depois. Em sua última carta dirigida à família na Europa, poucos dias depois do chute que recebera e do aborto involuntário, ela confidenciou o seguinte:

"Reduzida ao mais deplorável estado de saúde e tendo chegado ao último ponto de minha vida em meio aos maiores sofrimentos ... Há quase quatro anos ... que por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado da maior escravidão e totalmente esquecida do meu adorado Pedro. Ultimamente acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento a meu respeito, maltratando-me na presença daquela mesma que é a causa de todas as minhas desgraças. Faltam-me forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa da minha morte."

O monstro a que ela se refere é a amante de seu esposo e o atentado é muito provavelmente o chute que recebera do marido. Logo após a morte de Leopoldina. D. Pedro foi enxugar as lágrimas na cama da Marquesa de Santos.

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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

AMANTE CONVENCE REI A NÃO DESTRUIR A MAIOR PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO DAS LUZES

Decerto o leitor já presenciou alguém com um ataque de fúria e ao mesmo tempo com os olhos arregalados, espantado, sedento por uma resposta que lhe seja favorável. Foi numa situação parecida em que esteve envolvido um bispo francês em 1752, quando buscava, a todo custo, uma audiência com o rei Luís XV. Motivo?

Em lágrimas e fazendo um verdadeiro teatro, o bispo de Paris advertiu o rei francês sobre uma obra literária que acabara de chegar ao conhecimento do grande público: tratava-se da Enciclopédia, de Diderot e D'Alembert.

A referida obra começou a ser editada em 1752 e foi concluída 21 anos depois. Escrita por mais de 140 escritores, foi uma tentativa de passar para o papel todo o conhecimento humano adquirido até então.

Tão logo chegou aos salões literários, a obra se tornou o assunto do cotidiano parisiense, o que não tardou a chegar aos ouvidos da Igreja. Advertido pelo bispo, o rei ficou com "a pulga atrás da orelhas" e decidiu reagir: a obra seria destruída.

Ocorre que a amante preferida de Luís XV era, também, amante dos livros e já sabia da existência da Enciclopédia. Convenceu o rei a não destruí-la, alegando que a França seria mundialmente conhecida por editar a maior enciclopédia até então produzida.

O rei cedeu, mas advertiu os produtores para que não confrontassem os ensinamentos papais. De posse da advertência, os enciclopedistas passaram a usar de todos os meios para confundir a inteligência eclesiástica. E assim o fizeram. Vejamos o que eles escreveram sobre autoridade política e direito natural:

"Nenhum homem recebeu da natureza o direito de mandar nos demais. A liberdade é um presente dos céus, e qualquer indivíduo da nossa espécie tem o direito de desfrutar dela da mesma maneira que desfruta da razão."

Observemos que os produtores escreveram a palavra "céus" como uma forma de ganhar a simpatia da Igreja, dando a entender que a liberdade é de vontade divina, de modo que ela deve ser buscada. Assim, os leitores eram estimulados à busca pela liberdade, no mesmo instante em que se reprovava o Absolutismo, então dominante naquele tempo.

Sete anos depois o papa incluiria a Enciclopédia na relação de livros proibidos para seus fiéis.

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domingo, 21 de novembro de 2010

OS PRIMEIROS RECRUTAMENTOS MILITARES NO BRASIL FORAM MARCADOS POR MEDO, CASTIGOS E FALSAS PROMESSAS

Quando nos separamos oficialmente de Portugal, em 1822, havia uma verdadeira aversão generalizada ao serviço militar aqui no Brasil. O país vivia sob o medo de não consumar, na prática, a completa libertação dos portugueses.

O começo da década de 20 daquele século foi marcado por uma verdadeira corrida a compras de navios de guerra e ao recrutamento de pessoas para atuarem militarmente em prol do país recém-fundado.

Os soldados eram recrutados de maneira arbitrária pelos capitães do mato e pelos grandes coronéis do sertão. Como havia uma generalizada rejeição ao serviço militar, houve falsas promessas a fim de se alcançar o maior número de recrutas possível.

Em Minas Gerais, por exemplo, houve verdadeiros embustes: a população das cidades era convocada a se fazer presente na praça central sob o pretexto de que haveria, no local, eventos religiosos ou comunicados importantes. Quando a população estava aglomerada, soldados imperiais cercavam a praça e capturavam, à força, os rapazes que se achavam no ambiente. Uns eram amarrados e outros acorretandados.

Depois de capturados eram conduzidos à capital federal - na época o Rio de Janeiro -, em cujo trajeto muitos morriam de sede e fome. Só no ano de 1826 o Ceará exportou 3.000 recrutas, dos quais quase 20% morreram no caminho.

Nos quartéis a disciplina era duríssima, e os mais rebeldes eram tratados com perversidade extrema, uns a pauladas, outros a chibatadas e outros ainda eram açoitados com a lâmina das espadas.

O temor era tanto que muitos mutilavam os dedos para não serem convocados. Como se tornou crescente o número de mutilações, o governo imperial baixou, em janeiro de 1824, uma portaria autorizando o recrutamento de qualquer jovem, mesmo nos casos de cegueira e mutilações.

No Paraná houve um caso digno de ficar para história, cujo fato retrata bem o medo do recrutamento: um francês que passou em uma cidade paranaense registrou que a encontrou deserta, pois todos os moradores haviam fugido com medo da triagem que ocorreria na referida cidade.

O Brasil chegou, inclusive, a recrutar alemães, que vieram para cá sob as falsas promessas de que aqui ganhariam terras, dinheiro e animais. Quando chegavam ao Rio de Janeiro eram recrutados à força.

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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

"DEUS ME GUARDE DE FICAR SOZINHA COM UM HOMEM, POR MAIS SÁBIO QUE PAREÇA, NUM LUGAR SOLITÁRIO"

A frase acima não fora proferida por uma freira, nem por uma ermitã. É de autoria de uma princesa, prometida em casamento sem ao menos ter conhecido o noivo antes da cerimônia de núpcias (aliás, somente o conheceu depois de casada). Leia, agora, um breve histórico das confidências de uma jovem mulher que foi muito feliz no início do casamento e morreu triste e traída por seu marido, que era brasileiro.

Trata-se de D. Leopoldina (1797 - 1826), esposa de D. Pedro I. No ano de seu casamento - que se deu por procuração em 1817 -, deixou a Áustria para morar no Rio de Janeiro, onde residia seu noivo. Totalmente entregue ao casamento, chegou a escrever algumas autoinstruções que pretendia seguir depois que estivesse morando no Brasil e casada com o príncipe brasileiro. Eis o que escreveu:

"Eu me vestirei com toda a modéstia possível; meu coração será eternamente fechado ao espírito perverso do mundo; evitarei despesas inúteis, o luxo indecente, roupas mundanas e escandalosas; Deus me guarde de ficar sozinha com um homem, por mais sábio que pareça, num lugar solitário."

Quando embarcou para o Brasil, trouxe uma biblioteca, um grande enxoval e coleções de ciências naturais (era amante de tal ciência), além de três caixões, para eventual falecimento na viagem.

Segundo a própria, sempre teve vontade de conhecer a América. No início do casamento, escreveu:

"As noites são mágicas nos trópicos, cheias de ruídos, produzidos por seres que piam, batem asas, rastejam entre folhas secas ... frutos maduros que tombam das árvores, água que corre entre pedras e o coaxar dos sapos ... Não existe o silêncio, jamais, neste lado do mundo."

Sobre o marido e as noites de amor, confidenciou: "Faz dois dias que estou junto do meu esposo ... estou muito feliz ... O meu muito querido esposo não me deixou dormir".

Aos poucos se decepcionou com o Brasil e com o marido. Na próxima semana transcreveremos sua última carta à família, na qual faz revelações surpreendentes sobre o príncipe brasileiro, que provavelmente foi um assassino.

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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

TESTAMENTO DE PADRE CÍCERO (PARTE 8)

Abaixo, a oitava parte do testamento de Padre Cícero. A transcrição é fiel ao documento original, o que explica os vários erros gramaticais. No trecho abaixo o padre faz pedidos aos romeiros, dentre os quais para que não abandonem Juazeiro do Norte depois de sua morte. Acompanhe.

"Aproveito o ensejo para pedir a todos os moradores desta nossa terra, o Joazeiro, muito especialmento aos romeiros, que depois da minha morte não se retirem daqui nem o abandonem; que continuem domiciliados aqui, no Joazeiro, venerando e amando sempre a Santissima Virgem Mãe de Deus, único remedio de todas as nossas afflicções, auxiliando a manutenção do seu culto e de todas as instituições religiosas que aqui se fundarem e com especial menção a dos Benemeritos Padres Salesianos que serão os meus continuadores nas obras de Caridade que aqui iniciei.

Insistindo, peço, como sempre aconselhei, que sejam bons e honestos, trabalhadores e crentes, amigos uns dos outros e obedientes e respeitadores ás leis e ás autoridades civis e da Santa Igreja Catholica Apostolica Romana, no seio da qual tão somente póde haver felicidade e salvação.

Torno extensivo este meu pedido tambem a todos os meus amigos, pessôas de outros Estados e Dioceses, romeiros tambem da Santa Virgem Mãe das Dores, isto é, que continuem a visitar o Joazeiro, em romarias a Santissima Virgem como sempre o fizeram, auxiliando a manutenção de seu culto e das instituições religiosas que aqui fôrem creados e com especial menção, repito, a dos Benemeritos Padres Salesianos que serão aqui no Joazeiro os meus continuadores na Obra de Caridade que emprhendi; e que sejam sempre bons e honestos, trabalhadores e crentes, amigos uns dos outros e obedientes e respeitadores as leis e as autoridades civis e da Santa Igreja Catholica Apostolica Romana, no seio da qual tão somente poderemos encontrar felicidades e salvação.

Estes conselhos, que sempre os dei em minha vida, não me canço de repetil-os aqui, para que depois da minha morte bem gravadas fiquem na lembrança deste povo, cuja felicidade e salvação sempre fôram objecto da minha maior preocupação."

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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

ACUSADO DE ATEÍSMO, FAMOSO CIENTISTA INVOCA O NOME DE DEUS E PEDE PARA NUNCA MAIS VOLTAR A VISITAR O BRASIL

O apelido dele era "Gás". Estamos falando de Charles Darwin, o conhecido naturalista inglês, que é oficialmente aceito como o pai da Teoria da Evolução. Embora nunca tenha se declarado ateu (e de fato não era mesmo, pois simpatizava com o agnosticismo e apresentou crenças deístas), foi, por muito tempo, apontado como ateu, o que lhe causou grande ojeriza por parte de muitos cristãos.

Quando visitou a Ilha de Galápagos, no Equador, seu retorno à Europa lhe porporcionou uma parada na Argentina e no Brasil, em cujas oportunidades ele pôde testemunhar a atividade escravista nos dois países. Sobre o Brasil, declarou em 19 de agosto de 1836:

"Agradeço a Deus por não mais ter de visitar um país escravocrata."

Antes, havia passado na Argentina e não deixou de anotar a impressão que teve do tratamento dado aos índios naquele país:

"Aqui cada um está convencido de que conduz a mais justa das guerras, pois lutam contra selvagens. Quem poderia acreditar que, em nossa época, se cometam tantas atrocidades em um país cristão e civilizado?"

Tratando ainda sobre o problema da escravidão, Darwin, que era natural da Inglaterra, revelou a decepção e o orgulho de sua nacionalidade, quando afirmou:

"Meu sangue ferve quando penso que nós, ingleses, que nossos descendentes americanos, que todos nós, enfim, que nos orgulhamos tanto de nossas liberdades, iremos um dia nos sentir culpados por atos parecidos! Mas tenho, ao menos, a consolação de pensar que fizemos, para expiar nossos crimes, um sacrifício maior, que nenhuma nação fez até hoje."

O cientista falava, aqui, do fim da escravidão oficial na Inglaterra, ocorrida em 1833.

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terça-feira, 16 de novembro de 2010

RACISMO: GRANDE PERSONALIDADE BRASILEIRA SOFREU SÉRIOS PRECONCEITOS NOS ESTADOS UNIDOS

Preconceito só não é mais velho, talvez, do que o próprio nome. Os Estados Unidos, por exemplo, que embora tenham sido exemplo de democracia desde o final do século 18, é um péssimo exemplo quando o assunto é preconceito.

Abaixo, a história de um cidadão brasileiro do século 19, amigo da família real, que sofreu graves preconceitos em Nova Iorque, Estados Unidos.

André Rebouças (1838 - 1898) foi engenheiro, deputado, advogado, conselheiro de D. Pedro II e fervoroso abolicionista. Ganhou notoriedade depois que solucionou o problema de abastecimento d'água no Rio de Janeiro.

Em 1873 ele fez uma viagem a Nova Iorque.

Neto de escrava, era de cor negra, o que certamente motivou o racismo americano.

Depois que chegou à referida cidade, a personalidade brasileira teve o seu primeiro problema com os hotéis de lá, que se negaram a recebê-lo. A sorte é que um de seus amigos, depois de muita humilhação, conseguiu hospedar o brasileiro nos fundos de um pequeno hotel de Nova Iorque.

Sem falar da má acomodação e da proibição de poder entrar pela porta da frente, André Rebouças era obrigado a fazer as refeições dentro daquele ambiente nada agradável, uma vez que o refeitório do hotel era somente para brancos.

Passou fome na cidade, pois os restaurantes não serviam negros.

O engenheiro brasileiro sentiu na pele o peso do racismo e certamente o ocorrido contribuiu para que ele se tornasse um abolicionista convicto.

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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

"MARCHA, SOLDADO, CABEÇA DE PAPEL, SE NÃO MARCHAR DIREITO VAI PRESO PRO QUARTEL"

Neste dia 15 de novembro está sendo comemorado, oficialmente, mais um aniversário da proclamação da República, ocorrida em 1889. O verso que compõe o título acima faz parte de uma música de cantiga de roda, feita especialmente para crianças. E por falar nelas, leia, agora, um breve histórico do serviço militar obrigatório no Brasil e sua relação com as crianças em idade escolar.

A emissão de carteiras de reservista no Brasil se deu no início do século 20 aos brasileiros do sexo masculino que não satisfizessem as condições mínimas necessárias para servirem nas forças armadas brasileiras.

Algumas décadas antes, Rui Barbosa (para surpresa e tristeza de seus fãs) criou um projeto para que o país tornasse obrigatória a marcha militar para crianças que frequentassem as escolas primárias. O projeto em questão fazia parte de um novo modelo de educação que o citado jurista pretendia implantar no país.

Com o advento da República (dez anos depois da proposta), os exercícios militares para crianças foram postos em prática, mas de início somente no Rio de Janeiro. Aos poucos outros estados foram contemplados também.

De acordo com as determinações, as crianças deveriam fazer, aos sete anos, diversos movimentos militares, e aos treze anos de idade, manejar armas de fogo. Isto mesmo: no Brasil, adolescentes eram estimulados, pelo próprio Estado, a pegar em arma, sob o pretexto de que todo jovem deveria estar pronto para se doar ao país, incondicionalmente.

Para variar, os professores ficaram com a incumbência legal de ensinar e liderar os movimentos militares, cuja determinação acabou se tornando um dos motivos do fracasso das marchas para crianças nos colégios brasileiros (por volta de 1950).

Outro fator que contribuiu para o referido fracasso foi o fato dos pais acharem que se as crianças estavam sendo treinadas desde cedo, era prova de que o Estado iria convocá-las prioritariamente em caso de guerra. O momento histórico facilitava esse medo: o mundo acabava de sair da Segunda Guerra Mundial.

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domingo, 14 de novembro de 2010

O DIABO NASCEU EM SÃO PAULO, NO ANO DE 1975

Até hoje não se sabe a idade da Terra, do Universo, da vida humana. Um estudioso modernista chegou a fazer um cálculo através do qual era conhecida a data provável em que Jesus retornaria para vir buscar a igreja, mas nenhum desses cálculos impressiona tanto como o noticiário que afirmou não somente o local de nascimento do Diabo, como também a data em que ele teria nascido.

A curiosa notícia sobre o indesejado nascimento fora publicada no dia 11 de maio de 1975 pelo jornal paulista Notícias Populares.

De acordo com a manchete - que durou em torno de um mês -, o capeta teria vindo ao mundo em forma de um bebê coberto de pelos, com rabo e chifre.

A reportagem dizia que o demônio havia nascido em São Paulo no mês de maio de 1975 e ainda publicou um diálogo que ele teve com um taxista da capital paulista. Ao pedir que um taxista parasse a fim de que ele usufruísse do serviço, e depois de ser perguntado para onde desejava ir, respondeu: "Toca pro inferno".

Ao que tudo indica, a reportagem era, na verdade, uma tentativa de gerar fama e mais vendas de exemplares. E não deu outra: o jornal, que nascera no ano do golpe militar, viu sua vendagem se multiplicar com a manchete, razão por que, provavelmente, continuou a publicar matéria ditas sensacionalistas.

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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

"FEIOS E GROSSEIROS": POR ESSAS CARACTERÍSTICAS FÍSICAS OS POBRES EXPRESSAVAM SUA CONDIÇÃO DE PECADORES

Na Idade Média não faltavam textos que apontavam os servos como "feios e grosseiros". Ironicamente a própria igreja tratou de expandir essa ideia, cujo significado vigorou por longos e cansativos séculos.

Abaixo, a transcrição do mais famoso texto medieval que justificava as desigualdades sociais, cuja essência seria de origem da vontade de Deus. Em outras palavras, Deus quer a diferença de classes sociais e ainda faz uma clara preferência por uns e rejeição a outros. O texto em questão foi proferido entre 1025 e 1027 d.C. por um bispo católico:

"O domínio da fé é uno, mas há um triplo estatuto na Ordem. A lei humana impõe duas condições: o nobre e o servo não estão submetidos ao mesmo regime. Os guerreiros são protetores das igrejas. Eles defendem os poderosos e os fracos, protegem todo mundo, inclusive a si próprios. Os servos, por sua vez, têm outra condição. Esta raça de infelizes não tem nada sem sofrimento. Fornecer a todos alimentos e vestimenta: eis a função do servo. A casa de Deus, que parece una, é portanto tripla: uns rezam, outros combatem e outros trabalham. Todos os três formam um conjunto e não se separam: a obra de uns permite o trabalho dos outros e cada qual por sua vez presta seu apoio aos outros."

Como se vê, o autor do preconceituoso texto coloca o clero sujeito unicamente à lei divina. Depois, o mesmo autor aceita a lei terrena de segregação social para justificar, em harmonia com a lei divina (segundo o autor), a divisão de classes, cujas funções são claramente definidas.

É possível encontrar, bem antes da igreja surgir, posicionamentos parecidos, como é o caso de Platão, em um de seus mais conhecidos livros: A República.

Segundo o pensamento corrente da igreja medieval, a genética teria sido complacente com os nobres, pois estes eram os mais belos da raça humana, ao passo que os pobres (servos) eram, como dissemos acima, "feiros e grosseiros".

Outra observação diz respeito à forma como os servos poderiam se redimir de seus pecados: o árduo trabalho, através do qual - por vontade divina -, têm a obrigação de sustentar os demais membros das classes sociais.

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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

TESTAMENTO DE PADRE CÍCERO (PARTE 7)

Abaixo, a sétima parte do testamento de Padre Cícero. A transcrição é fiel ao documento original, o que explica os vários erros gramaticais. No trecho abaixo o padre se diz com a consciência tranquila perante Deus e afirma não ter cometido um único ato desonesto em toda a sua vida. Acompanhe.

"E no período mais agudo da lucta, cujo curso de gravidade já para mim uma surpresa, podem garantir os que a testemunharam aqui, que a minha attitude era lastimar as desastrosas consequencias dos erros politicos e jamais deixei de ser no sentido de evitar violencias.

De maneira que posso affirmar, sem nenhum peso de consciencia, que não fiz revolução, nella não tomei parte, nem para ella concorri, nem tive nem tenho a menor parcella de responsabilidade directa ou indirectamente nos factos ocorridos.

Eleito no biennio do governo Benjamin Barroso primeiro Vice Presidente do Estado, apezar deste rompido politicamente com o Doutor Floro Bartholomeu, sempre elle mantive a maior cordialidade. Não tenho culpa é que por um despeito mal entendido e de ordem politica, houvesse e ainda exista quem me queira tornar por ella responsável.

Estou certo de que quando se fizer, sem paixão, a verdadeira luz sobre estes factos meu nome realçará limpo como sempre fei.

Faço estas declarações, neste documento, para que os que me sobreviverem fiquem scientes (por que perante Deus tenho a minha consciencia tranquila) que neste mundo, durante toda a minha vida, quer como homem, quer como Sacerdote nunca, graças a Deus, commeti um acto de deshonestidade, seja sob que ponto de vista se possa ou queira encarar, nem nunca commemeti, nem alimentei embuste de especie alguma."

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terça-feira, 9 de novembro de 2010

AS RAZÕES HISTÓRICAS PARA O USO DE INICIAIS MAIÚSCULAS EM NOMES PRÓPRIOS E EM FATOS E DATAS IMPORTANTES

Diz-nos Evanildo Bechara que "A língua portuguesa é a continuidade ininterrupta, no tempo e no espaço, do latim levado à Península Ibérica pela expansão do império romano, no início do séc. III a.C."; mas é somente no século XIII d.C. que temos os primeiros documentos históricos em língua portuguesa, daí o porquê de se afirmar que ela se originou no citado século.

No latim clássico não havia a distinção entre maiúsculas e minúsculas, porquanto somente aquelas eram utilizadas. As minúsculas, por sua vez, surgiram apenas entre os séculos IV e VI d.C. e eram vistas como uma opção à parte e não uma complementação das maiúsculas.

Desta feita, era comum ou se usar um texto completamente com as letras maiúsculas ou completamente com as minúsculas.

A ideia de mesclar os dois tipos de letras surgiu na Idade Média, principalmente quando os mosteiros passaram a ser responsáveis pela reprodução de obras literárias, em cujo período o livro passa a ser visto como uma obra de arte, de sorte que não somente o conteúdo seria observado, como também os aspectos gráficos.

Em outras palavras, a aparência do livro passou a merecer uma atenção redobrada. Foi exatamente aqui que surge a junção da inicial maiúscula com as demais letras minúsculas que formam uma palavra. Convencionou-se que um texto redigido com todas as letras maiúsculas se tornava mais difícil de ser lido (eis um fato), razão por que optaram pelas minúsculas.

Houve, no entanto, alguns saudosistas do velho latim (que adotava todas as letras maiúsculas) que reivindicaram uma volta ao passado. Embora tenham perdido a causa, ganharam em outro aspecto: teria surgido daí a explicação para a utilização das iniciais maiúsculas em fatos históricos importantes, bem como em nomes próprios.

É por esta razão que ainda hoje adotamos as iniciais maiúsculas em alguns casos, como em palavras que designam fatos importantes, visto que os medievais julgaram que os velhos tempos clássicos não deveriam ser esquecidos, assim como renascentitas idolatraram a Grécia e a Roma clássicas. Assim, escrevem-se Renascença e não renascença, Idade Média e não idade média, Dia de Finados e não dia de finados.

É depois de tais convenções que surge a pontuação na língua portuguesa. Aos poucos são incorporados alguns sinais vindos de outras línguas, como o asterisco - uma invenção alemã do século 19.

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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

EM TEMPOS DE CRISE FINANCEIRA, CHEFE DE ESTADO BRASILEIRO DÁ SEU PRÓPRIO EXEMPLO

Cortar o galho onde se está sentado ou cortar a própria carne deve dar no mesmo. Há, na história do Brasil, um caso em que o chefe de estado cortou o próprio salário a fim de conter despesas e dá o bom exemplo. Estamos falando de D. Pedro I. Vamos aos fatos.

Quando seu pai, D. João VI, retornou a Portugal, o Brasil ficou economicamente falido, como era de se imaginar. O novo governo precisava tomar medidas urgentes e eficazes para sanar o problema.

D. Pedro aboliu impostos que inviabilizavam o comércio interno, cortou seu próprio salário, diminuiu o número de servidores - conseguindo, assim, concentrar as repartições públicas onde ele morava (Palácio Real).

Chegou a vender mais de noventa por cento dos animais das cavalariças reais, que foram apontadas por um cônsul inglês como uma das mais caras do mundo.

Na tentativa de reduzir despesas na compra com milho, o quintal do próprio palácio serviu para que os escravos da fazenda real de Santa Cruz ficassem incumbidos da plantação de capim. As roupas da família real também seriam lavadas nos arredores do palácio.

Em carta ao pai, que já se encontrava em Portugal, D. Pedro dizia "Comecei a fazer economias, principiando por mim". E completou: "Essas mudanças se fizeram quase que de graça, porque os escravos ... são os trabalhadores".

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domingo, 7 de novembro de 2010

O LENTO PROCESSO DE IMPLANTAÇÃO DO SISTEMA DE PESOS E MEDIDAS NO BRASIL

O século 19 trouxe muitas novidades para a sociedade da época. Uma delas foi o Sistema Métrico Decimal, que embora não tenha sido implantado no Brasil no mesmo século em que fora criado (final do século 18), acabou sendo, de forma lenta e tumultuada, adotado no país. Abaixo, os bastidores de alguns fatos dignos de nota, inclusive o quebra-quebra que houve no Nordeste por causa da lei brasileira que tratava sobre o caso.

Antes de ser implantado, havia uma verdadeira confusão por causa da falta da uniformização de medidas, tanto que na Europa muitos camponeses se levantaram contra os padrões adotados por seus senhores, que detinham o monopólio das medidas.

A década de 1830 foi um marco na luta pela implantação do Sistema no Brasil. Havia muita relutância porque o projeto para adotar o sistema de pesos e medidas trazia textualmente que ele seria importado da França. Naquela época havia, no Brasil, por parte de muitos, uma ferrenha rejeição ao francesismo.

Os dois primeiros artigos do projeto diziam que o governo estava autorizado a importar da França o sistema em questão, bem como a adotar todos os meios necessários para sua efetivação.

Mas o projeto não vingou. Aproximadamente 20 anos depois o ministro da Fazenda adotou, oficialmente - ao contrário do esperado -, a polegada, o palmo, a vara, o grão e a arroba como elementos de medidas no país. Somente no início da década de 1860 é que o país passaria a adotar, de vez, o padrão universal de pesos e medidas.

Mas o Nordeste brasileiro não se entregou facilmente, não! Há registros de que depois de uma década que a lei estava em vigor, em vários estados nordestinos a população promoveu um verdadeiro quebra-quebra de balanças e outros objetos que eram adotados nas feiras pelos simpatizantes da nova lei.

O governo foi enérgico e somente 30 anos depois da lei em vigor é que os revoltosos acataram a determinação legal.

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sábado, 6 de novembro de 2010

LUTADOR É VISTO CARREGANDO UM TOURO SOBRE SEUS OMBROS

Erasmo de Rotterdam, famoso humanista da época da Renascença, nos contou um fato realmente digno de nota, embora ele não tenha sido o primeiro a citá-lo. Ele nos trouxe o exemplo quando tratava sobre a aprendizagem gradual das crianças.

Contou Erasmo de Rotterdam que havia, na Antiguidade, uma cidade da Magna Grécia, chamada Crotona, na qual nascera um grande lutador, que teria vencido cinco competições consecutivas de luta-livre.

A sua maior notoriedade era a força, que se destacava consideravelmente em relação à dos demais competidores.

O escritor narra como ele obteve tanta força. A fim de se exercitar, Milo amarrava um pequeno bezerro sobre seus ombros e dava voltas em torno de um estádio.

Mas não termina por aí. O lutador Milo fazia o mesmo exercício todos os dias, usando sempre o mesmo bezerro, que crescia lentamente sem que o lutador percebesse diferença de um dia para o outro.

E o objetivo do atleta era exatamente este: suportar o maior peso possível e adquirir tal capacidade de forma gradual.

O resultado não deu outra: foi visto várias vezes carregando o mesmo touro sobre seus ombros, o mesmo animal que, outrora, foi aquele pequeno bezerro que o auxiliou nos primeiros passos em busca da capacidade muscular ideal, segundo se buscava na época.

Erasmo usou o exemplo para defender que o ensinamento dado à criança deve ser proporcional à sua capacidade de suportá-lo, em cujo momento o escritor afirmou que de forma lenta e imperceptível a criança chegará à condição de suportar ensinamentos mais sólidos.

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

SANTO CATÓLICO É CONDENADO JUDICIALMENTE E AINDA LEVA SURRA COM VARAS

Dizem que num país europeu um homem entrou com uma ação judicial por danos morais contra Deus alegando que este não cumpriu acordo firmado com aquele. O processo teria sido arquivado depois que os oficiais de justiça atestaram que o requerido (no caso Deus) não foi encontrado.

Na Idade Média, não somente pessoas eram processadas judicialmente, como também animais domésticos, como registramos em outros momentos aqui mesmo no blog.

No Brasil, início do século 19, um santo católico se deparou com uma situação parecida. O problema é que ele já era falecido e, ante o estado de surdez, permaneceu em silêncio e teve todos os seus bens confiscados e ainda sofreu grande humilhação.

Vamos aos detalhes:

Na ocasião, um juiz brasileiro entendeu que os donos de escravos deveriam responder pelos crimes praticados por seus subordinados - no caso os escravos.

Como um escravo criminoso estava registrado em nome de Santo Antônio, o juiz entendeu por bem processar o referido santo, que chegou a ser intimado pessoalmente - ou melhor, por meio de sua estátua.

Isto mesmo! E depois de intimado e não tendo respondido à demanda, o juiz ordenou que ele, ou melhor, a estátua, fosse arrancada à força do altar.

Foi o que aconteceu. A estátua fora conduzida ao recinto onde se processaria o julgamento sob vara e sobre os lombos de um burro.

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terça-feira, 2 de novembro de 2010

PADRE CÍCERO ESTARIA NO PURGATÓRIO, NO CÉU OU NO INFERNO?

Padre Cícero estaria no Purgatório, no Céu ou no Inferno? É claro que a pergunta é impossível de ser cientificamente respondida, mas o que você lerá no final é uma dedução a partir das próprias palavras do padre, que deixou escapar algo - talvez - nada agradável levando em conta a teologia de sua denominação religiosa, no caso a Igreja Católica.

O catolicismo romano vem aceitando, desde longos séculos, a crença de que, ao morrer uma pessoa, rezas ajudam a amenizar seu estado espiritual, uma vez que a alma poderá estar sofrendo ou à espera de ser transportado do Purgatório para o Céu.

Está sedimentado no seio da referida denominação religiosa a crença de que velas acesas ajudam a clarear possível estado de escuridão em que se encontra o falecido. Daí o porquê de velas e rezas serem - na crença católica - o socorro pós-morte mais eficaz para resgatar a alma do defunto de eventual estado de perdição e sofrimento. Isto explica a prática do acende-velas no Dia de Finados.

Padre Cícero deixou um testamento (que por sinal está sendo transcrito neste blog), no qual ele se reporta a sua futura morte e deixa textualmente expressos alguns pedidos a todos os católicos em relação a sua alma.

O referido padre pediu que, depois que ele morresse, fossem rezadas sessenta missas em prol de sua alma e sessenta em prol daquelas que estão no Purgatório, cujo tempo de rezas deveria durar cinco anos, sendo 24 em cada ano - no caso duas por mês, uma para ele e outra para todas as demais almas.

Para tanto, o padre deixou razoável quantidade em dinheiro de sua herança especialmente para esse fim.

Sabendo-se que as rezas em prol dos que já morreram são, do ponto de vista da crença católica (fortemente compartilhada por ele), uma inequívoca afirmação de que a alma precisa ser resgatada para não ser condenada, é razoavelmente seguro afirmar que o próprio Padre Cícero tinha dúvidas quanto a sua condição espiritual depois de sua morte.

Em outras palavras: o significado teológico do pedido em questão contradiz suas palavras no mesmo testamento, quando ele diz estar com a consciência tranquila em relação às acusações que lhe pesavam.

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

2 DE NOVEMBRO: O DIA DOS ESQUECIDOS

No dia 1º de novembro os católicos comemoram o Dia de Todos os Santos e no dia seguinte, o Dia de Finados. Mas, enfim, por que o dia 2 de novembro pode ser chamado de "O Dia dos Esquecidos"?

Em outra ocasião vimos que no tempo em que foi oficialmente criada a Igreja Católica - século 4 -, não era consenso entre seus sacerdotes a crença de que os mortos poderiam interceder pelos vivos, de modo que a corrida aos sepulcros dos "santos" foi inclusive desestimulada.

Mas ainda assim a Igreja sancionou o que se tornou uma tradição, no caso a reverência àqueles que eram considerados mártires, cujo registro inicial de um dia destinado aos tais aponta para o século 4.

Mas havia um "porém". Por que somente os mártires deveriam receber um dia comemorativo? E quanto aos demais mortos?

Assim como Augusto invejou a Júlio César e batizou o oitavo mês de agosto em homenagem ao seu nome - e ainda acrescentou um dia para não ficar com um dia a menos do que o mês de julho -, os defensores dos mortos anônimos reivindicaram o mesmo direito de que desfrutavam os grandes mártires cristãos.

E foi dessa inveja que nasceu o Dia de Finados.

Como o Dia de Todos os Santos era comemorado em 1º de novembro, a Igreja entendeu por bem - oficialmente a partir do século 13 - designar o dia seguinte (no caso 2 de novembro) para se comemorar o dia de todos os mortos.

Interessante é que os "aniversariantes" do dia 1º eram reconhecidamente heróis, ao passo que os "aniversariantes" do dia 2 poderiam ser, inclusive, perseguidores dos heróis.

Em outras palavras, poder-se-á interpretar também que o morto que é alvo das orações no Dia de Finados pode ter sido até mesmo um candidato à perdição eterna, porquanto a oração aos mortos tem por fim resgatá-lo do purgatório, segundo se depreende do significado da teologia católica.

Ou seja: orar pelos mortos no Dia de Finados é reconhecer que o parente provavelmente não está em um local agradável.

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