segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

POR QUE FEVEREIRO TEM MENOS DIAS DO QUE OS DEMAIS MESES DO ANO?

Dizem que as mulheres falam mais do que os homens, principalmente quando estão em um salão de beleza. Certo dia alguém resolveu fazer uma brincadeira de mau gosto com a referida estatística e afirmou que fevereiro é o mês em que elas falam menos, porque, afinal, segundo o autor da brincadeira, fevereiro tem menos dias do que os demais meses.

O antigo Calendário Romano tinha apenas 10 meses, uma vez que janeiro e fevereiro não constavam da relação. Outra diferença em relação ao calendário atual é que os meses de julho e agosto se chamavam, respectivamente, quintilis e sextilis. Como março era o primeiro mês do ano, julho e agosto se posicionavam, em ordem sequencial, na quinta e sexta colocação, daí a explicação dos antigos nomes.

Em 46 a.C., o general Júlio César substituiu o Calendário Romano pelo Calendário Juliano, em cuja ocasião colocou em prática algumas modificações, principalmente em relação à quantidade de meses e dos dias desses meses.

Foram criados os meses de janeiro e fevereiro, que passaram a ser os dois primeiros do ano, fazendo com que março e abril passassem a ser o terceiro e quarto, respectivamente.

Outra curiosidade diz respeito à alternância da quantidade dos dias mensais, cuja sequência passou a ser 31, 30, 31, 30, 31 ... de modo que os meses ímpares passaram a ter 31 dias e os pares 30, com a única ressalva para o mês de fevereiro, que de três em três anos ficava com 29 dias. Nascia, aí, o Ano Bissexto, modificado com o Calendário Gregoriano, em 1582.

No ano 44 a.C., o Senado fez uma homenagem a Júlio César, batizando o mês quintilis de julho, que já não ocupava a quinta posição e sim a sétima, em função dos dois meses acrescentados (janeiro e fevereiro).

No ano 8 a.C., o primeiro imperador romano, Otávio Augusto, modificou o Calendário Juliano. Assim como aconteceu com Júlio César, Augusto emprestou seu nome a um dos meses do ano, sextilis, que passou a se chamar agosto. Havia, no entanto, um problema: pelas regras estabelecidas por Júlio César, os meses pares tinham 30 dias, enquanto os ímpares 31, de modo que agosto perdia em 1 dia para o mês de julho.

Augusto, provavelmente com inveja, retirou um dia do mês de fevereiro e o acrescentou ao mês de agosto, de modo que julho e agosto se tornaram os únicos meses vizinhos com a mesma quantidade de dias. Aproveitou para modificar o número de dias dos meses, findando, assim, a sequência lógica 31, 30, 31, 30 ...

A decisão de se retirar um dia de fevereiro provavelmente está associada à nomenclatura do próprio mês, que etimologicamente está ligada à morte, ao deus da morte.

Em 1582, precisamente no dia 15 de outubro, morria o Calendário Juliano, com a implantação do Gregoriano, lentamente adotado no mundo católico.

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domingo, 30 de janeiro de 2011

A ORIGEM E O FIM DOS SEPULTAMENTOS DE MORTOS SOB O PISO DAS IGREJAS

A prática do sepultamento de civis sob o piso dos templos católicos foi um fato que durou mais ou menos mil e trezentos anos, embora tal fenômeno tenha variado de um continente para outro, a exemplo do que aconteceu na Europa e na América do Sul.

A origem dessa prática remonta ao século VII e coincide com a ação da Igreja voltada para aproximar os mortos dos lugares sagrados, diferentemente do cemitério, então considerado um local profano, visto que nesses espaços os pagãos eram enterrados, com todas as suas liturgias.

Antes dos civis serem sepultados sob o piso da igreja, os santos católicos já desfrutavam desse "privilégio", e a presença do corpo de um civil próximo ao de um santo criava a expectativa de uma salvação eterna, sem falar que tal prática era uma forma de aproximar o morto de seus parentes vivos, dentro do mesmo espaço e no mesmo ato litúrgico (missas, rezas).

Somente com a Peste Negra, no século 14, a Igreja voltou a permitir fossem os mortos sepultados fora do templo - nos chamados campos-santos -, para onde iam principalmente os menos favorecidos socialmente, uma vez que a demanda se tornou maior que o espaço disponível, ante o grande número de mortos.

A partir do século 17 a Europa fortalece a prática de se enterrar os defuntos em cemitérios e não mais nas igrejas, cujo empenho recebeu apoio oficial no final do século seguinte, com a Revolução Francesa. A partir de 1789 a França proibiu o controle do sepultamento de civis por parte da Igreja Católica, de sorte que os cemitérios passaram a ser administrados pelo Estado.

As campanhas médicas tiveram um papel fundamental na mudança dos locais de sepultamento dos mortos, as quais alegavam que os corpos em estado de decomposição eram responsáveis por doenças e mortes da população, principalmente daqueles que frequentavam os templos.

No Brasil, por exemplo, a partir de 1850 houve intensa campanha, não somente por parte dos médicos, como também por parte da imprensa. Esta, por sua vez, empenhou-se principalmente depois de um padre católico ter proibido um protestante (que cometeu suicídio) fosse sepultado em um cemitério, cuja participação da Igreja na administração ainda era visível.

Desde o final do século 18 já havia determinação de Portugal para que o Brasil construísse cemitérios, embora somente a partir de 1820 é que se veem os primeiros construídos no país, dos quais alguns foram destruídos por fiéis que não aceitavam a mudança. Salvador, por exemplo, teve um cemitério destruído pela população, que armada de paus e machados, puseram abaixo os muros de um lugar visto como profano.

Lentamente, durante o século 19, é que a Igreja Católica, no Brasil, aceitou que os mortos fossem sepultados nos cemitérios, assim como permitiu que estes fossem administrados pelos municípios. A partir de 1876, por exemplo, bastaria um atestado médico para que o defundo fosse sepultado em um cemitério público.

Com a primeira Constituição Federal da República, promulgada em 1891, o Estado brasileiro determinou, de vez, que os civis fossem enterrados nos cemitérios, que passaram, enfim, a ser administrados unicamente pelos municípios.

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

AULAS DE ETIQUETAS SOBRE COMO SE VESTIR ADEQUADAMENTE NO INÍCIO DA IDADE MODERNA

Texto de autoria do teólogo e humanista holandês Erasmo de Rotterdam (1466 - 1536) revela a preocupação em educar jovens, adultos e idosos em relação às formas de vestimentas, de modo que o pudor estava, sem exagero, no centro das atenções do escritor.

Atentemo-nos às palavras de Erasmo:

"A roupa, de certo modo, é o corpo. Isso porque externa as disposições interiores do indivíduo. Não há como estabelecer, aqui, normas rígidas, já que nem todos possuem igual riqueza nem a mesma categoria social. Além do mais, a elegância varia de lugar para lugar, sem esquecer que as preferências mudam ao longo do tempo.

Tal como em muitas outras coisas, neste particular, é mister saber adaptar-se, como diz o provérbio, aos costumes e à região e, diria eu, também ao tempo como os sábios ordenam respeitar. Com efeito, em toda diversidade há coisas que são convenientes por si e outras que não, tais como aquelas que já não têm serventia.

Senhoras que arrastam longas caudas no vestido, nada mais ridículo. Igualmente é desaprovado tal costume nos homens. Deixo para outros opinarem se isso convém ou não para cardeais e bispos!

O uso de tecidos leves não faz boa figura nem nos homens nem nas mulheres. Convém então usar com outro tecido de reforço de modo a ocultar aquelas partes que ficariam, impudicamente, expostas."

Erasmo prossegue, mais adiante, seus conselhos:

"Em todo caso, a veste curta demais para ocultar, quando o indivíduo se abaixa, o que deve ser protegido pelo pudor, nunca é sinal de bons modos em país algum."

É curioso também a opinião do humanista sobre roupas rasgadas e coloridas: "Rasgar a roupa é coisa de doido. Roupa variada ou multicor evoca os saltimbancos e os símios". Erasmo defendia o uso moderado na arte de se vestir: nem desleixado nem com excesso de vaidade.

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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A PRESENÇA DE RELIGIOSOS NO BRASIL AJUDOU A SEDIMENTAR O GOSTO PELOS DOCES NO PAÍS

Historicamente falando, pode-se afirmar que o destaque que os doces têm na mesa dos portugueses vem do século 15, quando o país deu início a uma produção de açúcar em larga escala em suas colônias do Atlântico. Três séculos depois o país ganhou ainda mais notoriedade ante a crescente produção de ovos, cujos números foram os maiores em toda a Europa daquele tempo.

Curiosamente, as feiras que viviam nos mosteiros passaram a executar o processo de separação da clara e da gema, uma vez que aquela era exportada para outros países europeus com fins comerciais.

Foi então que elas se deram conta da grande importância da gema do ovo: a confecção de doces. Não é por acaso que muitos doces têm os nomes inspirados na fé católica, como o beijo de frade, farrapos do céu, orelhas de abade e vários outros.

Vieram de Portugal para o Brasil alguns grupos de religiosos, como as clarissas (seguidoras de Santa Clara), primeira Ordem religiosa que praticava a clausura a vir para cá (em maio de 1677). Aos poucos crescia o número de religiosos circulando pelo país e com eles o cardápio português.

O que se viu no Brasil, no final da Colônia e durante o Império foi uma acentuada procura pelos doces. O Nordeste, com seu potencial por causa da cana-de-açúcar, viu de perto esse fenômeno.

Tornou-se moda e sinônimo de elegância oferecer doces. Fabiano Dalla Bona, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro declarou que "visitar uma nobre era o grande desejo das esposas dos emergentes. O modo de se comportar à mesa, a prataria, a cristaleira e as louças em que eram servidos os doces viravam o assunto das fofocas semanais."

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

DEPUTADO QUE RECEBEU O MAIOR NÚMERO DE VOTOS SE NEGA A TOMAR POSSE

O fato se deu em 1823, um ano depois de convocada a Constituinte por D. Pedro I. O protagonista deste fato inusitado é Cipriano Barata (1762 - 1838), baiano, com formação acadêmica em Coimbra, Portugal. Foi médico, jornalista e político.

Cipriano Barata compôs, em 1821, as Cortes Constitucionais em Lisboa, quando era permitida a eleição de brasileiros para o Legislativo português. Depois que se indispôs com estes, retornou ao Brasil, sendo eleito pela Bahia para integrar o Legislativo brasileiro que atuaria na confecção da primeira Constituição do país.

Eleito com supremacia de votos, negou-se a tomar posse, alegando, no dizer de Laurentino Gomes, "que tudo não passava de um jogo de cartas marcadas controlado pelo imperador". Ou seja, o deputado estava dizendo que o Legislativo é,na verdade, o braço direito do Executivo e não um poder à parte.

Cipriano Barata não escondeu seu posicionamento e enfrentou D. Pedro, que terminou por prendê-lo, fato este que também não intimidou o exaltado Cipriano, uma vez que, mesmo vagando de prisão em prisão, seu jornal continuou publicando seu ponto de vista. Declarou o deputado:

"Quem presta serviços, presta-os à nação e nunca ao imperador, que é apenas uma parte da nação ... Nosso imperador é um imperador constitucional e não o nosso dono. Ele é um cidadão que é imperador por favor nosso e chefe do Poder Executivo, mas nem por isso autorizado a arrogar-se a usurpar poderes que pertencem à nação ... Os habitantes do Brasil desejam ser bem governados, mas não se submeter ao domínio arbitrário."

No período de votação da primeira Constituição do Brasil muitas queixas chegaram aos constituintes: havia gente presa sem culpa formalizada, funcionários que reclamavam melhores salários..., toda espécie de busca por justiça chegava de todas as regiões. D. Pedro I acabou criando o Poder Moderador e destituindo o Legislativo. Era um Brasil que se iniciava com as características de uma ditadura.

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domingo, 23 de janeiro de 2011

UMA BREVE HISTÓRIA DO LIVRO

A partir da década de 60 do século vinte a UNESCO considerou o livro "uma publicação impressa, não periódica, que consta de no mínimo 49 páginas, sem contar as capas".

Pode-se dizer que foi na Idade Média que ele sofreu os mais significativos progressos, tanto na parte interna como externa. Foi também no citado período que houve considerável aumento de leitores, fato este movido por um conjunto de fatores.

Foi na Idade Média que aconteceu a inserção da página. No século XIII foram confirmadas as novas mudanças técnicas que permitiram novo rosto e nova utilização do livro.

É exatamente no período que ficou conhecido como a "Idade das Trevas" que a pontuação é melhorada. As letras maiúsculas e minúsculas são divididas com finalidade bem distintas, diferentemente do que ocorria anteriormente, quando ambas eram usadas de forma desordenada.

Os livros ganham títulos e capítulos. Criam-se os índices de assuntos classificados em ordem alfabética. A paginação dos livros universitários ganham margens maiores, que se destinavam à aposição de comentários dos estudantes.

A Bíblia passou a ser impressa com capítulos e versículos. Primeiro aqueles, depois estes. Até então não se vislumbravam os textos bíblicos que contemplamos hoje.

Os copistas se multiplicaram e com eles as novas técnicas de reprodução (antes mesmo do surgimento da imprensa de Gutemberg. Surge o livreiro como o conhecemos atualmente.

Com o advento da universidade cresce consideravelmente o interesse pelo livro. É na Idade Média que desaparece a leitura em voz alta, uma vez que era tradição os alunos lerem como se o fizessem para uma plateia. Outro fator que destacou a história do livro foi o crescente número de traduções nas línguas vernáculas, ou seja, na língua de cada país.

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

"ERA UMA PROTEÇÃO QUE NOS ABAFAVA"

A frase acima não é de procedência de uma jovem decepcionada com o excesso de ciúme do amado, não! Ela foi proferida em um documento oficial publicado pelos bispos brasileiros em 1890, em cuja ocasião a Igreja Católica ratificava sua doutrina ante a turbulência do momento, principalmente em função da separação entre Estado e Igreja.

Até o início da República a relação entre Estado e Igreja era semelhante a um de um marido e mulher ou, talvez, pai e filha.

O imperador era portador de dois grandes privilégios, o padroado e o beneplácito, através dos quais o chefe de Estado brasileiro poderia, respectivamente, indicar os sacerdores que atuariam nas funções eclesiásticas, bem como rejeitar as bulas papais em relação ao catolicismo no Brasil.

Como se vê, os padres que ministravam as missas no Brasil do século XIX eram escolhidos por D. Pedro II -, que na prática nada tinha de católico e ainda tolerou o ateísmo, algo abominável para a época.

Por outro lado o Estado mantinha a Igreja, que se beneficiava do dinheiro público, tanto em construções e manutenção de templos como em forma de salários para os sacerdotes.

O padrinho, no entanto, cobrava de sua afilhada. Segundo os bispos, em desabafo, havia constante intromissão dos ministros de Estado no governo das paróquias. Os sacerdotes estavam proibidos de mudar de dioceses sem a devida licença do Estado. Caso houvesse desobediência nesse sentido, seria nomeado um civil para ocupar as funções do padre. Isto mesmo: um civil.

Os temas teológicos a serem estudados nos seminários deveriam, inclusive, passar pelo crivo do Estado. Era, na prática, um acordo que realmente sufocava a Igreja.

Sérgio Buarque de Holanda (pai do compositor Chico Buarque de Holanda) assim definiu vários sacerdotes católicos do período colonial brasileiro: "Os maus padres, isto é, negligentes, gananciosos e dissolutos, nunca representaram exceções em nosso meio colonial".

Já o historiador Florival Cáceres se reportou aos membros eclesiásticos do século 19 afirmando que "O padre brasileiro do império era brigão, valente, político, vivia com sua mulher e criava seus filhos. O voto de castidade raramente era respeitado".

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ADÃO FOI CRIADO NO BRASIL

Profecias (ou "profetadas") acerca de eventos descritos na Bíblia são facilmente encontradas na história de muitos homens e mulheres, cujo histórico de vida está diretamente associado à religião. Brasil e Portugal são bons exemplos, razão por que vamos explorar, em breve resumo, a vida de um desses visionários, que esteve nos dois países em nome de seu ideal religioso.

O personagem é Pedro de Hates Henequim, português filho de holandês que fincou raízes no Brasil. Letrado, doutos e indoutos foram seduzidos por ele. Fascinado pela cultura hebraica, dominou a cabala e dela parece ter-se utilizado para profetizar o fim dos tempos.

Embora envolvido com ideias reformistas, não largou os valores católicos. Seguidor das ideias do padre Vieira, que previa a chegada do Quinto Império, defendeu convictamente que Adão foi criado no Brasil e que os índios americanos eram descendentes do "primeiro" homem.

Henequim também pregou que a árvore da vida e a árvore do conhecimento - ambas citadas na Bíblia -, eram bananeiras, de cujas folhas Adão teria se utilizado para escrever mensagens aos homens. O visionário ainda afirmou que os rios do Paraíso, também descritos em Gêneses, eram os rios Amazonas e São Francisco.

Não demorou muito e o Santo Ofício rastreou os passos de Henequim. Depois que perambulou, por vários anos, pelas ruas de Lisboa e ter conquistado muitos adeptos, a Inquisição o tratou como um subversivo, de modo que ele teve que prestar contas perante seus superiores.

Convicto de suas crenças, preferiu a condenação. Os inquisitores o condenaram à morte na fogueira em 1744, cuja pena fora atenuada pelo fato dele ter-se retratado em parte, o que não o impediu de ser estrangulado em praça pública, queimado em seguida e ter os restos mortais lançados dentro do rio Tejo.

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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O VERDADEIRO FILÓSOFO, SEGUNDO SÓCRATES, É AQUELE QUE ACREDITA NA EXISTÊNCIA DA VIDA PÓS-MORTE

 
Sócrates, no Pensatório. Enquanto o filósofo estuda os céus,
seus discípulos estudam o Hades (ou Inferno) 
 
Para muitos, Sócrates foi um filósofo que colocou fé e razão em dois eixos irreconciliáveis. Isto não é verdade! Como demonstramos em outra ocasião, ele foi um homem de seu tempo, pelo menos em relação à crença nos deuses gregos.

Sócrates defendia que o Estado deveria ser governado por filósofos, que representam, na prática, segundo ele, o grau maior em termos de racionalidade e maturidade para governar.

Por outro lado, segundo ele, o verdadeiro filósofo deveria acreditar numa vida pós-morte, assim como crê a grande maioria da população, tanto de seu tempo como agora. Vejamos como ele se expressou, no dizer de Platão:

"Em verdade ... se eu não cresse encontrar na outra vida deuses bons e sábios e homens melhores que os daqui, seria inconcebível não lamentar morrer. Sabei, no entanto, que espero juntar-me a homens justos e deuses muito bons."

Sócrates não parou por aí. Na sequência do texto ele assim se expressa:

"Eis por que não me aflijo com a minha morte; morrerei tendo a esperança de que existe alguma coisa depois desta vida e de que, de acordo com a antiga tradição, os bons serão mais bem tratados que os maus".

Sobre o verdadeiro filósofo, vejamos o que ele diz:

"Os homens não sabem que os verdadeiros filósofos trabalham durante toda sua vida na preparação de sua morte e para estar mortos; por ser assim, seria ridículo que, depois de ter perseguido este único fim, sem descanso, recuassem e tremessem diante da morte."

Em outro texto Sócrates é enfático e se expressa defendendo que somente (somente) os filósofos é que se preparam para a vida pós-morte. Trazendo para os dias de hoje, especialmente numa linguagem bíblica, seriam os "verdadeiros cristãos" estes filósofos e não aquele que faz o curso de Filosofia ou tem o hábito de filosofar? Ou, numa linguagem espiritual além-Bíblia, não seriam os espíritas ou qualquer outro religioso que tem esse cuidado ainda nesta vida? Olhemos o que Sócrates diz:

"E os verdadeiros filósofos não são os únicos que trabalham para esse fim? Esta separação e esta libertação não são toda sua obra?"

Ou seja: o grande propósito do verdadeiro filósofo é o preparo para a vida pós-morte.

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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

ESTRANGEIROS PROIBIDOS DE MORAR NO BRASIL

Oficialmente a história do Brasil está dividida em Colônia, Império e República. Até 1822, quando tem início o Império, o país foi dominado por Potugal, a quem deveríamos prestar contas. Foi durante parte do período colonial que os portugueses impuseram sérias restrições em relação à presença de estrangeiros no Brasil.

Em 1720 o referido país europeu determinou que os estrangeiros estavam proibidos de viajar para as terras brasileiras. As únicas exceções diziam respeito aos funcionários portugueses que eram enviados para cá, juntamente com alguns criados indispensáveis ao serviço público oferecido.

Havia concessão ainda para bispos e missionários católicos que pretendiam evangelizar e residir no país e, finalmente, a particulares que provassem ter negócios em andamento no país, cuja presença seria indispensável para a execução de eventuais projetos. Aqueles que se encontrassem nesta última situação teriam que se comprometer a voltar dentro de um prazo fixado.

A situação ficou mais complicada na década de 70 do mesmo século, quando em várias localidades do país houve verdadeiros campos de concentração.

Um bom exemplo é Diamantina, cidade mineira de enorme valor histórico. Ninguém poderia sair ou entrar sem expressa autorização legal. Quem não conseguisse provar ser portador de idoneidade moral seria sumariamente expulso da região.

Aqueles que saíssem e regressassem poderiam pagar uma multa e ainda pegar até seis meses de cadeia. Em caso de nova reincidência o transgressor seria degredado para Angola. Aqueles que pretendiam morar na região deveriam justificar a necessidade de fazê-lo.

Os motivos portugueses estavam, em linhas gerais, associados ao interesse em proteger o Brasil de países estrangeiros, bem como o desejo de se apoderar do ouro (no caso de Minas Gerais), bem assim evitar que a população crescesse sob a influência de outros países.

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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O MANIFESTO DOS CAMPONESES ALEMÃES EM 1525

Na última postagem falamos da relação entre Martinho Lutero e a Guerra dos Camponeses. Agora iremos reproduzir parte do manifesto formal feito pelos camponeses, em 1525, dirigido aos príncipes alemães. Os pedidos tratam de questões religiosas e sociais. A transcrição abaixo cuida somente das questões sociais.

Como dissemos outrora, Lutero se posicionou a favor dos príncipes, e chegou ao ponto de aprovar as mais duras medidas para reprimir a insurreição camponesa. Quase cem mil pessoas foram mortas.

Leiamos o manifesto:

"Em quarto lugar, até agora nenhum pobre podia perseguir a caça, pegar aves ou peixes na água corrente, o que nos parece uma lei totalmente injusta e pouco fraternal, mas interesseira e em desacordo com a palavra de Deus.

Em quinto lugar, somos prejudicados ainda pelos nossos senhores, que se apoderaram de todas as florestas. Se o pobre precisa de lenha ou madeira tem que pagar o dobro por ela. Nós somos de opinião que deve ser restituída à comunidade toda e qualquer floresta que se encontra em mãos de leigos ou religiosos que não a adquiriram legalmente.

Em sexto lugar, preocupam-nos os serviços que somos obrigados a prestar e que aumentam dia a dia. Exigimos que esse assunto seja examinado cuidadosamente, a fim de que não sejamos sobrecarregados...

Em sétimo lugar, não queremos que, doravante, nosso senhorio aumente suas exigências, mas que se atenha ao acordo estabelecido inicialmente entre ambas as partes...

Em décimo lugar, estamos preocupados com o fato de que certas pessoas se apossaram de pastagens e campos, que, no entanto, pertencem a uma aldeia. A não ser que estes tenham sido comprados legalmente, passarão a pertencer novamente à aldeia...

Em décimo primeiro lugar, queremos ver abolido totalmente o costume chamado 'caso de morte', e não permitiremos nem toleraremos mais que alguém, desreispeitando a Deus, apodere-se descaradamente dos pertencentes a viúvas ou órfãos, como sói ocorrer em muitas partes e das formas mais variadas..."

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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

PADRES PROÍBEM AUXÍLIO AO PARTO DE CRIANÇA CONSIDERADA FILHA DO PECADO

Vimos em outra postagem que a papisa Joana deu à luz uma criança em plena luz do dia e diante de uma multidão, cujo acontecimento gerou mudanças nos critérios para a escolha do papa. Veremos, agora, os detalhes do referido parto e como mãe e filho morreram.

A procissão da qual a papisa Joana participava (até então todos achavam que ela era um homem) ocorreu num evento tradicional da Igreja Católica, no ano de 855, de cuja festa participavam muitos fiéis.

Como de costume na época, ela montou em um cavalo e saiu em direção à passeata. Quando se aproximou do Coliseu, sentiu fortes dores, que a fizeram cair do cavalo. Eram as dores do parto.

Ao cair no chão, o papa (ou melhor, a papisa), se contorcia toda, com gemidos e gritos estéricos. Não suportando mais as dores, ela própria rasgou as roupas que a cingiam, facilitando, de tal modo, a passagem da criança.

Os religiosos, pasmos com o que viam, e ao mesmo tempo decepcionados por saberem que o papa na verdade não era um homem e sim uma mulher (mulher no poder era coisa do capeta), trataram de cercar Joana, de modo que a multidão não presenciasse aquela cena.

O pior estava por vir: eles impediram que fosse prestado qualquer auxílio àquela mulher, e ainda ameaçavam quem se aventurava a oferecer alguma ajuda.

Não suportando as dores, a mãe morreu nos braços de seu amante, que era o pai do bebê: um cardeal da citada igreja. Joana ainda teria feito um esforço supremo para se despedir de seu amor. O bebê também veio a óbito na mesma ocasião e os dois foram enterrados no mesmo túmulo, exatamente onde se deu o desastre.

Após a morte de Joana, os romanos ergueram uma capela e uma estátua em homenagem à mãe e ao bebê. A referida estátua mostrava a papisa cingida com as vestes sacerdotais e com uma criança no colo. Bento III, seu sucessor, ordenou, no final de seu governo, fossem a capela e a estátua destruídas, pois, segundo a visão do sacerdote, ela havia sido uma vergonha para a Igreja.

Até o século 15 era possível contemplar ainda as ruínas da capela. Hoje ela não existe mais, só - talvez - a ossada da papisa e de seu bebê, sob uma das ruas romanas. Logo após o episódio que vitimou Joana, a Igreja proibiu que os sacerdotes atravessassem a praça, vista como um local do pecado, do opróbrio.

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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A HISTÓRIA DO "PORRA"

Antes mesmo de entrarmos no mérito propriamente dito, é conveniente esclarecer que o título também poderia ser A história da "porra", uma menção à interjeição e não necessariamente ao vocábulo. Como a prioridade será mesmo este e não aquela, optamos pelo artigo no masculino.

Hoje em dia "porra" tem alguns significados. Pode ser empregado como interjeição, em frases do tipo "Ai que porra!", ou com sentido obsceno, para designar o espermatozoide.

Se voltarmos no tempo, veremos outros significados, alguns dos quais bem associados à história da Igreja e da Roma clássica.

Na antiga Roma, "porra" (de onde vem o dimunitivo "porrete") era um cassetete - com algumas protuberâncias e usado por soldados, que o conduzia à altura da cintura.

Na língua portuguesa, a primeira vez que o vocábulo "porrada" - originada de "porra" - apareceu, foi no século 12, e fazia menção a impostos ou multas. A partir do século 13, "porra" ganhou o sinônimo de cetro e era bastante utilizado nos círculos eclesiásticos, significado este que durou até o século 15.

A partir de então já se verifica o emprego da citada palavra com sinônimo relacionado ao sêmen, cuja tradição chegou aos nossos dias.

Segundo Deonísio da Silva, doutor em Letras pela USP, "porra" é uma derivação do latim e está associado ao significado de "atirar para a frente". O vocábulo em questão é apenas um dentre tantos outros que mudaram de significado no percurso histórico, cuja utilização deve ser cuidadosamente estudada por quem pretende esmiuçar os textos históricos.

Frei Joaquim de Santa Rosa até compôs uns versos para explicar os cuidados que deveremos ter ao nos reportarmos ao dito vocábulo:

"Este nome a que a malícia dos tempos aligou uma ideia pouco decente, e que desterrado da gente cortesã, polida e grave, se ouve tão somente por entre a escória da população, ocupava, algum dia, honradíssimo lugar em dialeto dos nossos maiores."

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domingo, 9 de janeiro de 2011

DIÁCONOS TOCAM OS ÓRGÃOS GENITAIS DO PAPA COMO PROVA DA MASCULINIDADE DO SUMO PONTÍFICE

 
Imagem da internet


Embora a Igreja não aceite oficialmente que uma mulher tenha sido papisa, a história está aí para confirmar esse fato que macula a história do catolicismo. O feito se deu por volta de meados do século nono. Trata-se da papisa Joana, que se camuflou sob vestes masculinas e conseguiu enganar não somente os "representantes" do Céu como as grandes autoridades da Terra - pois a papisa chegou a coroar um imperador.

A papisa Joana chegou a dar à luz uma criança em plena praça pública, próximo ao Coliseu, sob a presença das altas dignidades católicas e do grande público, uma vez que o nascimento se deu enquanto ela participava de uma procissão que acontecia anualmente.

O acontecido foi visto, na época, como um escândalo sem precedentes, digno de ser abafado (tanto que os historiadores eclesiásticos trataram de ocultar o feito em seus relatos), de modo que foram tomadas algumas medidas preventivas para que algo parecido não voltasse a acontecer.

A principal delas foi submeter o candidado ao papado a um rigoroso teste de masculinidade. Depois de escolhido o papa, este estava obrigado a se sentar em uma cadeira furada, em cujo assento deveria proferir o versículo bíblico que dizia: "Deus eleva do pó o humilde, para fazer assentar-se acima dos príncipes".

Após, conduzido por religiosos, tinha que se sentar sobre outra cadeira furada, que estava localizada na Capela de São Silvestre, no Vaticano.

Nesta última cadeira, porém, ocorria a prova final da masculinidade do papa. Este deveria ficar nu, com as pernas um pouco abertas, de modo que seus órgãos genitais pudessem ficar visíveis - e caídos por dentro do buraco da cadeira -, para que os assistentes e diáconos constatassem o esperado.

Para que não caíssem novamente em uma cilada, os diáconos deveriam apalpar os órgãos genitais do papa e, verificado que não se tratava de um embuste, o diácono gritava: "Temos um papa!". Em seguida o povo comemorava, e a festa terminava com a distribuição de dinheiro aos frades e aos religiosos.

O uso da cadeira furada foi constatado até o século 16 (portanto durou sete séculos), cujo motivo para o fim de tal tradição é alvo ainda de dúvidas. No final do século 17 um padre que viajou à Itália chegou a vislumbrar uma dessas cadeiras, quando fez detalhada descrição do modelo e do material usado na fabricação da referida cadeira.

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

CHEFE DE ESTADO PASSA DOIS DIAS SEGUIDOS ANDANDO SOBRE UMA PONTE

Coisa de louco? Muito provavelmente! Estamos falando de Calígula, imperador romano de 37 a 41 d.C. São muitos os feitos inusitados atribuídos ao referido chefe de Estado, tanto que, na parte que trata sobre ele, o historiador Caio Suetônio Tranquilo dividiu em duas partes o conteúdo de sua famosa obra, A Vida dos Doze Césares, sendo uma destinada a mostrar o lado positivo e o outro o lado negativo do imperador.

Calígula invejou Alexandre, o Grande, assim como procedeu da mesma forma em relação a Xerxes, rei persa que viveu dois séculos antes de Alexandre.

Com relação ao rei persa, Calígula se achou na obrigação de construir uma ponte gigante, dado que o rei Xerxes havia feito o mesmo. Assim, o imperador ordenou fosse erguida uma ponte enorme e em seguida mandou calçá-la com terra batida, cuja imagem lembrava a Via Ápia, segundo historiador da época.

Encantado com o feito, Calígula andou sobre ela dois dias consecutivos. No primeiro dia o fez montado em um cavalo, cuja cabeça estava ornamentada com uma coroa de carvalho. Calígula ainda desfilou com um machado, um escudo e um manto dourado.

No segundo dia, o imperador percorreu a ponte (ida e volta) montado em um carro puxado por quatro cavalos. À frente dele marchava um jovem refém da Pártia, que era escoltado pelo destacamento de pretorianos e por um grupo de amigos.

Não satisfeito com as peripécias até então demonstradas, convidou algumas pessoas para junto de si e, cumpridas as suas ordens, ele próprio tratou de empurrá-las para dentro d'água, de modo que as que conseguiram se salvar do afogamento, foram em seguida mortas a pauladas.

O historiador Suetônio afirma que ouviu de seu avô - que foi contemporâneo de Calígula -, o verdadeiro motivo da construção da ponte: a previsão de um astrólogo, que havia afirmado que Calígula só seria imperador se corresse a cavalo sobre uma longa ponte. Uma coisa é certa do ponto de vista historiográfico: os antigos romanos eram supersticiosos ao extremo.

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

BRASIL: A VIDA NA CIDADE NOS DOIS PRIMEIROS SÉCULOS DA COLONIZAÇÃO

Estamos falando, naturalmente, dos séculos 16 e 17, uma vez que o Brasil passou a ser oficialmente colonizado a partir de 1530. O país tinha, na época, sua grande maioria da população residindo na zona rural, cuja estatística só foi invertida no século 20. Vejamos, portanto, algumas característica da época, com destaque para Salvador e Recife.

Eram poucas as cidades habitadas, cujos moradores eram compostos, via de regra, por funcionários da administração, mercadores e oficiais mecânicos, o que pressupõe, só por isto, tratar-se de um número pequeno de moradores.

Somente em períodos de festividades (havia cidades que promoviam somente 3 ou 4 por ano, como atestou um padre na época) e solenidades oficiais é que muitos moradores do campo afluíam para a cidade, mas apenas em caráter transitório, uma vez que o objetivo era somente participar dos eventos. Eram as festas religiosas que mais atraíam os ruralistas, como ainda é comum hoje nos sertões nordestinos do Brasil.

O cearense Capistrano de Abreu, um dos primeiros historiadores do Brasil, conta-nos que na Bahia - centro administrativo do país na grande maioria do período colonial -, as casas das cidades eram fechadas quase todo o ano, sendo abertas somente quando havia festas públicas.

Um empresário português (enriqueceu ainda mais no Brasil) que viveu em Salvador no século 16 conta que havia uma praça em Salvador onde era comum touros correrem e não pessoas. Por sinal, o mesmo empresário nos deixou por escrito sua impressão de Salvador: "... cidade esquisita, de casas sem moradores, pois os proprietários passavam o mais tempo em suas roças rurais, só acudindo nos tempos das festas. A população urbana constava de mecânicos, que exerciam seus ofícios, de mercadores, de oficiais de justiça, de fazenda, de guerra, obrigados à residência".

Ocorria no Brasil o que se via na Florença renascentista, de homens ricos, onde as casas dos campos toscanos eram mais belas, mais ornamentadas do que as casas da cidade. Era preferível receber os visitantes nas casas do campo às da cidade, já que eram mais confortáveis.

No Brasil, a grande virada se vê de forma gradual no século 18. No início do referido século, por exemplo, um jesuíta italiano que residia no Brasil, escreveu que ter os filhos vivendo somente nos engenhos era "criá-los matutos, que nas conversações não saberão falar de outra coisa mais do que cão, do cavalo e do boi". Por outro lado, o mesmo jesuíta dizia que "Deixá-los sós na cidade é dar-lhes liberdade para se fazerem logo viciosos e encherem-se de vergonhosas doenças, que se não podem facilmente curar".

Vale destacar, por fim, que no período colonial em que Pernambuco foi explorado pelos holandeses, Recife viu o inverso do que ocorria no país. Constatou-se considerável afluxo de pessoas para a zona urbana, tanto que na época muitos se queixavam da falta de abrigos, o que fez com que fossem registrados muitos casos de várias pessoas dormindo em um só aposento.

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

TESTAMENTO DE PADRE CÍCERO (PARTE 15)

Abaixo, a décima quinta parte do testamento de Padre Cícero. A transcrição é fiel ao documento original, o que explica os vários erros gramaticais. No trecho abaixo o padre conclui o inventário de seus bens, mas retificou duas doações. Acompanhe.

"Decima Quarta - Deixo mais todos os bens que escaparam de ser citados neste testamento e os que possa adquirir desta occasião até o meu fallecimento, repito, bens moveis, immoveis e semoventes á Congregação dos Padres Salesianos.

Decima Quinta - Nomeio meus testamenteiros os meus amigos Doutor Floro Bartholomeu da Costa, actualmente Deputado Federal por este Estado, o CondeAdolpho Van Den Brule e o Coronel Antonio LuiAlves Pequeno, servindo um no impedimento do outro, na ordem em que se acham collocados.

Os meus referidos testamenteiros terão a posse e a administração da herança na ordem em que se succederem e bem assim perceberão, respeitados a mesma ordem, dez por cento (10%) em dinheiro sobre toda herança liquida como compensação dos trabalhos testamentarios.

E por tal modo e fórma conclúo este meu testamento que em meu perfeito juizo e de minha livre e espontanea vontade, sem constrangimento nem tão pouco induzido por quem quer que fosse ditei ao meu amigo Luiz Teophilo Machado, segundo Tabellião desta Comarca, e assigno com o meu proprio punho, de accordo com o Codigo Civil Brasileiro em vigor.

E peço a justiça de meu paiz que o cumpram e mandem cumpril-o tão inteiro e fielmente como nelle se contém, declarando mais ficar por este testamento revogado outro qualquer testamento que por ventura existir.

E por tal modo conclúo e termino este meu testamento. Declaro em tempo que por uma resolução por mim tomada neste momento antes de assignar este testamento ficam sem effeito os legados que faço dos sitios Veados e Santo Antonio deste Municipio, cujas doações a quem desejo fazer as realizarei por escriptura publica bem como que não ficarei inhibido de vender os bens que deixo reservados na claúsula decima primeira antes de morrer para satisfação de quaesquer compromissos. Joaseiro 4 de outubro de 1923. Pe Cicero Romao Bapta. (Selado com 1 (uma) estampilha de 20$000; 3 (três) de 1000 reis e 1 (uma) de 300 reis)."

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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

UM CHEFE DE ESTADO, DUAS AMANTES E DOIS MARIDOS TRAÍDOS: ELES PROTAGONIZARAM ALGUNS CASOS MAIS NOTÓRIOS DE TRÁFICO DE INFLUÊNCIA NO BRASIL

O conteúdo que se lerá adiante mostrará alguns casos de tráfico de influência tanto no Judiciário como na Igreja Católica, cujos protagonistas são um chefe de estado, duas amantes e dois maridos traídos.

Os fatos ocorreram na década de 20 do século 19. Domitila, a Marquesa de Santos, provavelmente já vinha traindo o marido, Felício, antes mesmo de se tornar amante do imperador D. Pedro I, que a conheceu depois que ela fora vítima de uma tentativa de assassinato por parte do marido. Este, inconformado, mas disposto a ficar com os filhos depois da separação, acionou a Justiça com o fim de ficar com a guarda dos mesmos.

Domitila decidiu, com a ajuda do irmão, procurar o imperador para que este intercedesse em favor dela, de modo que a mesma ficasse com a guarda. Foi depois do encontro que os dois (Pedro I e Domitila) se tornaram amantes.

Acontece que o insaciável imperador passou a namorar, simultaneamente, a irmã de Domitila, cujo marido (da irmã) fez de conta que não sabia de nada e ainda batizou o filho bastardo como se fosse dele.

Depois que Domitila soube que sua irmã também era amante do imperador, esta (a irmã) sofreu um atentado e morreu. Aberto o processo, Domitila foi apontada como suspeita e corria o risco de ser condenada.

Então foi a vez do imperador mostrar que no Brasil quem mandava era ele. A ação movida pelo ex-marido de Domitila corria lentamente junto à Justiça de São Paulo. Bastou a intervenção do imperador e, num "piscar de olhos", foi dada a sentença, pondo fim ao litígio.

A Igreja, por sua vez, em 48 horas, sob a interferência do imperador, proferiu uma sentença (em 1824) anulando o casamento entre os dois, e, de forma até irônica, afirmou que Domitila tinha "boa conduta" e apontou Felício como adúltero.

Sobre a disputa judicial entre Domitila e seu ex-marido, é digno de nota o fato de que este deixou de se defender depois que ele propôs ao imperador que lhe fosse dado um cargo público em troca de seu desinteresse no processo. Dito e feito.

Em 1827, novamente o imperador entrou em cena. O inquérito que investigava o assassinato da irmã de Domitila foi arquivado às pressas.

Depois de tudo resolvido, o ex-marido traído ainda teve a ousadia de escrever à ex-esposa rogando que ela pedisse ao imperador para nomeá-lo a um cargo superior. Por ironia, até o ex-sogro se achou no direito de fazer o mesmo.

Como se vê, o hoje é, guardadas as devidas proporções, a sombra do ontem.

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A SENTENÇA DO FILÓSOFO NIETZSCHE CONTRA O CRISTIANISMO

Friedrich Nietzsche foi um filósofo alemão que nasceu em 1844 e morreu em 1900. Louvado por uns e odiado por outros, é considerado o autor que mais atacou, de forma direta e sem arrodeios, os valores morais cristãos. Em seu clássico, O Anticristo, proferiu uma sentença contra o cristianismo, cujo conteúdo mostra de forma clara o ódio que o filósofo nutria pela religião cristã, especialmente pelo protestantismo, o qual foi considerado pior do que o catolicismo, conforme demonstrou em outro texto, no qual afirmou que o protestantismo é "a espécie mais suja de cristianismo que existe, a mais incurável, a mais irrefutável...".

Leiamos a sentença:

"Eu condeno o cristianismo, lanço contra a Igreja cristã a mais terrível acusação que jamais acusador algum pronunciou: para mim ela é a maior corrupção imaginável. A Igreja cristã nada poupou à sua corrupção: de cada valor fez um não valor, de cada verdade uma mentira, de cada integridade uma baixeza de alma."

Continua a sentença:

"Que se atrevam a falar-me ainda dos seus 'humanitários' benefícios! Suprimir qualquer angústia seria contrário ao seu mais profundo interesse: ele viveu de angústias, inventou angústias para se eternizar... O verme do pecado, por exemplo: foi graças à Igreja que a humanidade se viu enriquecida com essa angústia!"

Nietzsche prossegue mais adiante:

"O parasitismo, única prática da Igreja, sugando com o seu ideal de anemia e de 'santidade', o sangue, o amor, a esperança da vida; o além como vontade de negação da realidade; a cruz como emblema para a mais subterrânea conspiração que jamais se urdiu - conspiração contra a saúde, a beleza, a retidão, o valor, o espírito, a beleza da alma, contra a própria vida..."

Eis o penúltimo parágrafo:

"Hei de gravar em todas as paredes esta acusação eterna contra o cristianismo, em toda a parte onde houver paredes - tenho letras que até os cegos podem ler... Chamo ao cristianismo a grande calamidade, a grande corrupção interior, o grande instinto de vingança, para o qual não há meios suficientemente venenosos, bastante subterrâneos, satisfatoriamente baixos - chamo-lhe a imortal desonra da humanidade."

Conclui o filósofo:

"E conta-se o tempo a partir desse dia maldito que foi o começo desse destino - a partir do primeiro dia do cristianismo! E por que não contá-lo a partir do seu último dia? A partir de hoje? - Transmutação de todos os valores."

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domingo, 2 de janeiro de 2011

DOCUMENTOS OFICIAIS PORTUGUESES REVELAM ATOS DE PRECONCEITOS RACIAIS NO SÉCULO 18

O fim da escravidão no Brasil ocorreu, oficialmente, no final do século 19, em cujo período aconteceram os grandes debates em torno da liberdade das pessoas de pele negra. Foi naquela época também que uma parte dos brancos tentou associar os mulatos às mulas, quando afirmavam que se um branco se casasse com um negro não teria filhos, assim como as mulas não podem procriar. Acredita-se, inclusive, que o vocábulo "mulato" tenha surgido de mula.

Um século antes de todas essas discussões, porém, a corte portuguesa tratava os negros com desdém, cujo tratamento pode ser demonstrado, inclusive, através de documentos oficiais.

Em 1726, por exemplo, uma ordem do rei de Portugal determinava que nenhum mulato, até à quarta geração, poderia exercer cargos municipais em Minas Gerais, aqui no Brasil. A proibição, no entanto, não se limitava somente aos negros e mulatos, mas também aos brancos que se casassem com negras ou mulatas.

Já o casamento entre brancos e indígenas recebeu tratamento diferente por parte da corte portuguesa. O próprio Estado cuidou de estimulá-lo.

Um alvará de 1755, que tratava dos casos de homens brancos que se casavam com indígenas (e vice-versa), bem como sobre a autorização para que os mesmos ocupassem os cargos públicos, diz textualmente: "Não fiquem [os cônjuges] com infâmia alguma, antes muito hábeis para os cargos dos lugares onde residirem não menos que seus filhos e descendentes, os quais terão preferência para qualquer emprego, honra ou dignidade, sem dependência de dispensa alguma, ficando outrossim proibido, sob pena de procedimento, dar-se-lhes o nome de caboclos, ou outros semelhantes, que se possam reputar injuriosos".

Como se observa na parte final da transcrição acima, estava proibido aos brancos e aos indígenas dar aos filhos nome de caboclos.

No dia 6 de agosto de 1771, uma portaria da lavra do vice-rei do Brasil tratou de exonerar do posto de capitão-mor um índio que havia se casado com uma mulher negra. Justifica a portaria, dizendo que o índio "se mostrara de tão baixos sentimentos que se casou com uma preta, manchando o seu sangue com esta aliança, e tornando-se assim indigno de exercer o referido posto."

Houve execeção, no entanto, em relação à admissão de negros em cargos públicos no período colonial brasileiro. Serve de exemplo a ordem que Portugal expediu ao governador de Pernambuco, em 1731, no sentido de que fosse empossado, na condição de procurador, um advogado formado em Portugal.

O rei até justificou por escrito: "O defeito de ser pardo não obsta para este ministério e se repara muito que vós, por este acidente, excluísseis um bacharel formado provido por mim para introduzirdes e conservardes um homem que não é formado, o qual nunca podia ser por lei, havendo bacharel formado."

Foi uma execeção.

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sábado, 1 de janeiro de 2011

A CONTAGEM DO TEMPO ... NÃO DEVERÍAMOS ESTAR EM 2011

O início da contagem do tempo pelo ser humano é incerto, sendo certo, porém, que muitos povos tentaram, de forma peculiar, estabelecer medidas nesse sentido, de modo que houve variações de uma cultura para outra.

Em se tratando de Ocidente, desde a Antiguidade o dia estava dividido em 12 horas, bem como a noite também.

Na Idade Média, por exemplo, intervalos muito pequenos - como os segundos - eram simplesmente ignorados. Os minutos, pouco considerados. As horas, por sua vez, eram grosseiramente contabilizadas, sendo as velas, as ampulhetas, os relógios-d'água e a observação do Sol os meios mais utilizados nesse sentido.

Com relação às horas, apenas o Clero, por uma necessidade litúrgica, é que estabeleceu um maior controle sobre as mesmas, embora o fez contando-se o tempo de três em três horas, a partir da meia-noite, cujo método escapava ao praticado pelos judeus, que contavam as horas a partir das 6 da manhã - daí o porquê da Bíblia afirmar que Jesus morreu à hora nona, ou seja, às 15 horas.

Somente no século 14 é que foi possível ter maior precisão da medição do tempo, quando surge o relógio mecânico, que, por sinal, só tinha o ponteiro das horas.

A contagem da semana contendo sete dias só foi oficializada no Ocidente a partir do século 4. Nos séculos X-XII o ano começava no Natal, pelo menos nos países cristãos.

O conceito de Era Cristã ocorreu somente a partir de 525 d.C., cuja proposta partiu do monge Dionísio, que era matemático e astrônomo.

O marco inicial para essa contagem seria o nascimento de Jesus Cristo (Anno Domini, o ano do Senhor), daí o porquê da abreviatura "A.D." logo após a escrita de uma data em nosso calendário. Depois houve o aportuguesamento de tal abreviatura para "a.C." e "d.C.", significando, respectivamente, "antes de Cristo" e "depois de Cristo".

No dia 15 de outubro de 1582, uma sexta-feira, foi oficializado o Calendário Gregoriano, nosso atual calendário. A transição do antigo calendário (Juliano) para o Gregoriano exigiu a supressão dos dias 5 a 14 de outubro do referido ano, cujas datas não constam oficialmente da história onde é empregado o dito calendário. Ou seja, ninguém nasceu, ninguém morreu, nada aconteceu naqueles dias, porque simplesmente eles não existiram, pelo menos no papel.

Posteriormente foi constatado que o Calendário Gregoriano cometeu um erro que varia entre 5 a 8 anos. Em termos claros, Jesus nasceu "antes de Cristo" mais ou menos 6 anos. Assim, não deveríamos estar no ano 2011.

O Calendário Gregoriano foi acatado de forma gradual, levando vários séculos para ser oficializado nos vários países cristãos. Atualmente os países muçulmanos e judeus não adotam nosso calendário.

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