sexta-feira, 24 de junho de 2011

O RITUAL DO BEIJA-MÃO NO BRASIL

O ritual do beija-mão era um antigo costume monárquico, com acentuado registro entre os reis da Europa. Portugal foi o último país a aboli-lo, o que não estranha o fato do Brasil adotá-lo demasiadamente, mesmo quando tal costume estava em desuso na velha Europa.

Tão logo D. João VI chegou ao Brasil, ele instituiu a referida prática, que consistia em permitir-se que os súditos (incluindo nobres e plebeus) beijassem a mão direita do rei, como sinal de reverência, de subordinação.

De acordo com depoimentos de europeus que visitaram o Brasil no período em que D. João VI governava o país, havia várias oportunidades em que ricos e pobres se misturavam no Rio de Janeiro, dentre os quais poderiam ser citados missas, procissões, concertos musicais e o ritual do beija-mão.

O evento em si passou a ser um momento esperado por ricos e pobres. Era uma oportunidade de se vestir a melhor roupa e de contemplar, face a face, D. João VI - uma perfeita oportunidade para se fazer algum pedido ou reclamação ao rei.

Com exceção dos domingos e feriados, o ritual ocorria todas as noites, em torno das 20 horas (D. João VI tinha o hábito de dormir tarde). Toda a corte se reunia para prestigiar a solenidade.

Quando o sinal era dado para a abertura do salão, a banda de música da corte começava a tocar. Em fila, os súditos caminhavam, lentamente, em direção ao salão cerimonial. Quando se aproximavam a alguns passos do trono, inclinavam-se profundamente.

Depois, o súdito se ajoelhava e beijava a mão de D. João VI. Após, repetia-se o mesmo gesto em relação aos demais membros da família real. Quando, enfim, o último membro real era reverenciado, o súdito se retirava - também em fila - por outra porta, na mesma ordem em que entrou no salão.

Segundo testemunhas da época, as estradas que davam acesso ao Rio de Janeiro eram percorridas, simultaneamente, por ricos e pobres, que se deslocavam para o palário real a fim de participarem do evento. Uns iam a pé; outros, na garupa de mulas: todos ansiosos pela chance de beijar a mão do monarca. Registrou-se, em 1816, que até um grupo de índios desejou participar da cerimônia.

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segunda-feira, 20 de junho de 2011

QUATRO CURIOSIDADES ACERCA DA LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL

1 - É sabido que "idem" procede do latim e significa "igualmente, do mesmo modo". Quando ocorre uma repetição sequencial, usa-se "ibidem", por sinal muito usado em citações bibliográficas.

Encontrou-se, no Rio Grande do Norte, uma tabela num açougue que dizia assim: "Carne sem osso; idem, com osso; ibidem, sem idem; idem, sem ibidem". O preço ia diminuindo, de modo que o último item constava como gratuito.

2 - Capistrano de Abreu (1853 - 1927), que morreu quatro anos antes de nascer Chico Anísio - de quem era conterrâneo -, foi um dos primeiros grandes historiadores brasileiros. Considerado um pesquisador dado à rigorosa investigação de fontes, o cearense era também muito familiar à língua portuguesa. Prendia-se, costumeiramente, à etimologia da palavra.

Certa vez, tratando acerca da expressão "ter vergonha na cara", afirmou: "Eu proporia que se substituíssem todos os capítulos da Constituição por: Artigo Único - Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara".

3 - Segundo Deonísio da Silva, renomado escritor brasileiro e autor do clássico "De onde vêm as palavras", o vocábulo "fama" procede do latim e significa "o que se fala de alguém e que resulta em perfil da pessoa cujos atos e falas são comentados, dando-lhes contornos que escapam à verdadeira essência de sua personalidade, com o triunfo das versões".

Somente no século 13 o referido vocábulo entrou para o português, e, na época, santos e bandidos poderiam igualmente ser considerados famosos. Dois séculos depois, o verbo "difamar" entra para a língua portuguesa, designando "ações que têm o fim de contrapor as versões sobre a vida de algum personagem conhecido", afirma o mesmo autor.

Hoje o referido vocábulo está presente no Código Penal brasileiro, mas não é endereçado somente a pessoas conhecidas e famosas. Qualquer cidadão pode ser difamado, independentemente de ser famoso ou não.

4 - O baiano Rui Barbosa (1849 - 1923) e o cearense Clóvis Beviláqua (1859 - 1944) são dois grandes nomes brasileiros na área do Direito e também da língua portuguesa. Como já vimos em outra ocasião, o primeiro chegou a questionar em plenário - quando era deputado federal -, os aspectos gramaticais de alguns dipositivos do projeto do primeiro Código Civil brasileiro, uma obra de Clóvis Beviláqua.

Não obstante os desentendimentos gramaticais entre os dois, Rui assim se expressou em outra ocasião: "Meu papel, subalterno e pouco menos anônimo, limitado a corrigir, suprimir e aditar em obra alheia, não seria susceptível de comparação nenhuma com o do professor". Ele falava de Clóvis, e não abordava, necessariamente, as dissidências acerca da língua portuguesa.

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quinta-feira, 16 de junho de 2011

EM RELATÓRIO HISTÓRICO, GONÇALVES DIAS MOSTRA AS PRECÁRIAS CONDIÇÕES DAS BIBLIOTECAS NA REGIÃO NORTE DO PAÍS EM MEADOS DO SÉCULO 19

Em meados do século 19, Gonçalves Dias (1823 - 1864), que há poucos anos havia sido nomeado professor de latim e história no Colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro, fez uma inspeção nas bibliotecas públicas e religiosas no Norte do país, em busca de documentos históricos.

Vale lembrar que depois da criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1838, acentuou-se consideravelmente o interesse em preservar documentos históricos que pudessem contribuir com a "construção" da história do Brasil. Segundo o relatório, era o Maranhão quem concentrava a melhor das bibliotecas pesquisadas, embora não seja nada animador o que nos relatou o poeta e professor:

"Quanto à parte literária, é o Convento de Santo Antônio, o que mais avulta, contendo uma biblioteca de quase 2.000 volumes; mas por negligência, acham-se muitos, quase todos, danificados a ponto de não poderem servir.

Não havendo um catálago na biblioteca, tive de percorrer os volumes um por um, para que ao menos soubesse o que eles continham, e na esperança de encontrar entre eles livros dos que faltam nas nossas principais bibliotecas, ou algum manuscrito esquecido. Nada disso: são volumes de teologia casuística, de filosofia rançosa, que ao abrir-se pareciam estranhar e queixar-se da mão, que os importunava no descanso morto em que jaziam."

Dando prosseguimento ao relatório, Gonçalves Dias também comenta sua impressão acerca das bibliotecas públicas:

"Igualmente infrutíferas foram as minhas visitas à biblioteca pública, cuja história é a seguinte (...) Muitos dos particulares concorreram com obras de valor e somas de dinheiro, enquanto outros, disfarçando a sua má vontade, remeteram volumes traçados e estragados a ponto de que, para não danificar os outros, um dos últimos presidentes ordenou que fossem lançados à praia".

O consagrado escritor brasileiro, Wilson Martins, autor da também consagrada obra de 12 volumes, A história da inteligência brasileira, comentando o relatório em questão, assinala:

"Se a situação era essa em 1851, um quarto de século depois de criados os cursos jurídicos, isto é, quando já se havia tido tempo de remediar, pelo menos, as deficiências mais clamorosas (sem que, de toda evidência, nada fosse feito), pode-se imaginar o que seria no início desse período".

Com a lucidez que lhe era peculiar, conclui Wilson Martins:

"Fica demonstrado, igualmente, que a ideia toda fantasiosa dos conventos como focos ativos de cultura e amor aos livros não passa de uma construção do espírito, o que em nada concorria para amenizar, antes instigava, a atitude anticlerical das classes dirigentes".

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segunda-feira, 13 de junho de 2011

(1) OS BASTIDORES DO GRANDE INCÊNDIO DE ROMA. (2) AFINAL, NERO TERIA SIDO O MANDANTE DE TAL CRIME?

No ano 64 d.C., no governo do imperador Nero, ocorreu um dos incêndios mais marcantes da história da Antiguidade. Dos 14 bairros de Roma, somente 4 ficaram intactos, 3 foram completamente destruídos, ao passo que os 7 restantes foram parcialmente queimados.

Os historiadores Suetônio e Cornélio Tácito, ambos nascidos ainda no primeiro século, narram, respectivamente, em seus livros A Vida dos Doze Césares e Anais, detalhes de como se processou o incêndio que, na versão de Tácito, faria dos cristãos os responsáveis por tamanha tragédia.

Outra versão, estranha aos historiadores acima mencionados, dá conta de que o fogo teria surgido acidentalmente pelos próprios moradores. No dizer de Tácito e Suetônio, Nero foi acusado de, propositadamente, ter ateado fogo na velha Roma.

O segundo deles (Suetônio), por sinal, é categórigo: "Simulando descontentamento com a feiura* dos antigos edifícios, com a estreiteza e a tortuosidade das ruas, incendiou a cidade de forma tão acintosa que...", ao passo que Tácito afirma que a calamidade fora "atribuída por uns a Nero, por outros ao acaso", bem como que "Pareceu que Nero procurava a glória de construir uma nova cidade e dar-lhe o seu nome".

Pelas duas versões, Nero pretendia reconstruir a cidade - sem falar que desejava rebatizá-la emprestando-lhe seu nome. É merecido lembrar que o referido imperador já pretendera rebatizar um dos meses do ano, que passaria a ter seu nome. Certamente invejava Júlio César e Otávio Augusto, homenageados com a nominação dos meses de julho e agosto.

Outro fator que pesa contra Nero diz respeito a outros registros dando conta de que ele de fato tinha claras pretensões arquitetônicas para as cidades, não somente para Roma, cujos edifícios deveriam ter galerias na frente, para que, do alto do terraço se pudesse combater os incêndios. E por falar em incêndios, afora a acusação sobre Roma, Nero também pretendeu incendiar a Gália, sem falar que planejou soltar feras para dizimar seus moradores.

Acusado de ser o mandante, Nero não se achava presente em Roma quando o incêndio teve início. Ele estava em Âncio, que ficava na região do Lácio (Itália). Antes do fim da calamidade - que teria durado seis ou sete dias -, Nero voltaria a Roma a fim de tomar algumas medidas governamentais.

Antes de fazê-lo, porém, foi acusado de contemplar o incêndio do alto de uma torre (Tácito afirma que ele estava em seu palácio - provalmente na torre do próprio palácio), em cujo momento teria se alegrado e cantado em honra ao feito alcançado. Quando o fogo se aproximava de seu lar, resolveu agir.

As medidas governamentais para amenizar o sofrimento dos moradores se limitaram a baixar o preço de alguns alimentos e a reconstruir as casas, desta feita nos moldes arquitetônicos pretendidos. Suetônio afirma que o imperador se aproveitou da situação para roubar os pertences dos moradores que não foram dizimados pelas chamas. Para tanto, teria ordenado que o recolhimento dos cadáveres dar-se-ia pelo Estado (a oportunidade, enfim, para entrar nos lares e saquear o que lhe convinha).

Vários templos foram destruídos, inclusive incontáveis obras de arte grega. Registraram-se suicídios e falência de alguns moradores. O povo, temeroso de que houvesse novos incêndios e tentando acalmar a fúria dos deuses, fizeram inúmeras honras religiosas.

Os préstimos de Nero no intuito de amenizar o sofrimento da população não surtiram efeito. Acusado pelo povo e vendo que os boatos não cessavam, Tácito afirma que o imperador teria posto a culpa nos cristãos, que passaram a ser vítimas de várias crueldades, uma das quais serem amarrados a postes e incendiados nos jardins do palácio de Nero durante o período noturno, promovendo, assim, o que se chamou de "espetáculos". Outra perversidade: os cristãos eram amarrados com peles de animais e em seguida eram entregues (ainda vivos) para serem dilacerados por feras.
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* O blog adota as novas regras gramaticais, daí o porquê de se escrever feiura (sem acento) e não mais feiúra.

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quinta-feira, 9 de junho de 2011

SEGUNDO ROUSSEAU, QUANTO MAIS O ESTADO CRESCE, MAIS A LIBERDADE DIMINUI

Rousseau (1712 - 1778) é considerado, ao lado de Voltaire, um dos principais filósofos iluministas. O suíço, que é autor do clássico O contrato social, discutiu, na citada obra - além de outros temas -, a questão da relação entre o crescimento do Estado e a liberdade dos cidadãos que estão sujeitos a esse Estado.

Abordando o tema, Rousseau inicia o capítulo assim: "Advirto o leitor que este capítulo deve ser lido pausadamente e que desconheço a arte de ser claro para quem não quer prestar atenção".

E prossegue: "Toda ação livre tem duas causas que concorrem para produzi-la. Uma, moral, a saber, a vontade que determina o ato; outra, física, a saber, o poder que a executa".

Mais adiante, Rousseau dá prosseguimento ao seu raciocínio:

"Suponhamos que o Estado seja composto de dez mil cidadãos. O soberano não deve ser considerado senão coletivamente e em corpo. Cada partícula, mas cada cidadão privado, na qualidade de súdito, é considerado como indivíduo. Assim, o soberano está para o súdito na proporção de dez mil para um, isto é, cada membro do Estado possui a décima milésima parte da autoridade soberana, embora esteja todo inteiro a ele submetido."

Continua...

"Se o povo é constituído de cem mil homens, a situação dos súditos não muda e cada um suporta igualmente todo o império das leis, ao passo que seu sufrágio, reduzido a um centésimo-milésimo, tem dez vezes menos influência em sua redação. Então, como o súdito permanece sempre um, a relação do soberano aumenta em razão do número dos cidadãos. Disso decorre que quanto mais o Estado cresce, mais a liberdade diminui."

Em suma, quanto mais populoso um país, menor é a força proporcional em relação ao todo que cada indivíduo exerce.

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domingo, 5 de junho de 2011

UMA NAÇÃO SOMENTE SERÁ FORTE SE ELA ACREDITAR EM DEUS, DEFENDIA PLATÃO. MARX E NIETZSCHE DEFENDIAM O OPOSTO.

Para Marx, a religião é o ópio do povo. Ou seja, a religião torna o homem cego, estável (ou regressista), conformado com o mal, com a relação patrão-empregado. Para Marx, a crença em Deus é, portanto, um mal a ser evitado. Nietzsche, por sua vez, além de não crer em Deus, entendia que a esperança em um Deus já não se fazia necessária em seu tempo.

Não era assim que pensava o filósofo grego Platão, que, embora acreditasse na existência de vários deuses, difundiu a ideia da possibilidade da criação do mundo a partir de um Deus único.

Se Platão tivesse nascido hoje e mantivesse seus mesmos ideais, ele poderia ser rotulado de filósofo, historiador, teólogo, matemático, sociólogo e cientista social. E foi nas ciências humanas que ele encarnou sua fama. A República - um de seus clássicos - que o diga.

Na citada obra, o autor teorizou, de forma clássica, acerca do modelo sociopolítico que o Estado deveria adotar, com fins à felicidade plena (mais social do que individual).

Para Platão - que defendia a necessidade do Estado ser governado por filósofos -, uma nação somente seria forte se o seu povo tivesse uma religião. Acreditar na existência de um Deus vivo, que distribuía recompensas e castigos, era algo vital para a sociedade.

Tal crença deveria ir mais longe: o povo tinha que acreditar numa vida pós-morte, quando então cada um seria alvo de tais recompensas ou castigos.

Esse Deus não seria, necessariamente, semelhante aos humanos (como defendem o cristianismo, o judaísmo e o islamismo). Uma força cósmica já seria suficiente, desde que essa força (Deus), fosse ativa e gerasse esperança e temor em seus fiéis.

Segundo Platão, o ser humano que acredita numa vida pós-morte e em suas consequências (recompensas e punições) é uma pessoa mais preparada para modelar seus anseios antissociais, como a ganância (uma referência, talvez, ao incontido desejo de ascensão social, algo combatido por ele, o que poderia gerar descontroles na sociedade).

Outra vantagem para o indivíduo - membro de um corpo social -, apontava para a relação entre vida e morte de um parente. O filósofo entendia que a crença de que o indivíduo seria consolado depois da morte de um ente querido seria o melhor remédio para as dores daqueles que ficavam na Terra.

Em suma, na prática não importava se Deus existia ou não, e sim a prudente solidificação da crença na existência desse Deus. Platão não foi ateu. Pelo contrário, estava convicto de uma vida depois da morte. Nesse campo, suas crenças estavam mescladas, de sorte que, a julgar pelas religiões atuais, existem elementos encontrados na fé espírita, cristã, judaica, muçulmana, dentre outras.

A necessidade da crença em um Deus foi válida, provavelmente, até os idos de Maquiavel. Com o Iluminismo e o florescimento das ciências naturais do século XIX e da ciência tecnológica do século XX, a validade da crença em Deus passou a ser duramente questionada, embora existam pesquisas recentes que apontam consideráveis vantagens médicas, psicológicas e sociais em se manter o pensamento defendido por Platão, mesmo no século atual.

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