domingo, 18 de setembro de 2011

LÍNGUA PORTUGUESA: MANUEL BANDEIRA JURA QUE NUNCA ESCREVEU "MOBILADA" E RUI BARBOSA ESCAPA, PELO BOM USO GRAMATICAL, DA CASSAÇÃO DE SEUS DIREITOS POLÍTICOS

Em outras ocasiões, este blog fez menção ao jurista Rui Barbosa e ao poeta Manuel Bandeira, quando os relacionou a temas ligados à língua portuguesa. 

Agora, voltamos a associá-los mais uma vez ao nosso idioma, desta vez para destacar o modo pelo qual o advogado baiano se livrou de ter seus direitos políticos cassados, bem como o esforço do poeta pernambucano em convencer os leitores de que ele, de uma vez por toda, tinha preferência pela forma "mobiliar" e não "mobilar".

A Constituição Federal de 1891, em seu art. 72, § 29, dizia "... e os que aceitarem condecoração ou títulos nobiliárquicos estrangeiros perderão todos os direitos políticos".

Acontece que o nosso jurista, famoso por sua eloquência, por seu conhecimento jurídico, pelo domínio da língua portuguesa e por prestigiada atuação internacional, terminou por receber uma condecoração estrangeira, de modo que seus adversários políticos passaram a exigir o enquadramento de Rui Barbosa no dispositivo constitucional acima.

Vendo-se acuado pela pressão, Rui Barbosa valeu-se de seu conhecimento gramatical para demonstrar que ele não se enquadraria em tal dispositivo. 

Leiamos suas palavras:

"Em face da gramática, quando temos dois adjetivos pospostos a dois substantivos, embora separados pela disjunção 'ou', ambos os adjetivos hão de se referir aos substantivos. Ora, eu aceitei uma condecoração estrangeira, mas não nobiliárquica, porque ela não imprimiu nobreza. Portanto, não incorri na sanção constitucional, não tendo perdido os meus direitos políticos".

Conforme vemos, os substantivos a que Rui Barbosa faz menção são "condecoração" e "título", enquanto os adjetivos são "nobiliárquicos" e "estrangeiros".

A lógica do jurista foi a seguinte: "nobiliárquico" (de nobre) e "estrangeiro" se referem aos substantivos "condecoração" e "título". Assim, somente violaria a Constituição se a condecoração fosse estrangeira e nobiliárquica. Visto que Rui Barbosa recebera uma condecoração estrangeira, mas não de título de nobreza, ficava demonstrado que ele não se enquadraria no dispositivo em questão.

Rui Barbosa acabou abrindo um precedente: a partir de seu arrazoado gramatical, outros políticos se valeram das mesmas justificaticas para escaparem de punições, uma vez que recebiam condecorações estrangeiras, mas não nobiliárquicas.

Manuel Bandeira (que chegou a interceder junto ao poeta Mário de Andrade sobre o correto uso do pronome) parecia ser um brasileiro que zelava pelo bom nome que tinha, notoriamente em relação ao seu conhecimento de língua portuguesa.

Certa vez, discorrendo sobre o uso do verbo "mobiliar", chegou a acusar um revisor de ter feito um enxerto em um de seus textos (de Manuel Bandeira). Vejamos um texto extraído de uma de suas obras (o trecho entre parênteses faz parte do original; são palavras dele), quando ele retrata a voz de um personagem feminino:

"Eu vivia encantonada na sala da frente, que ia de oitão a outro, com várias sacadas para o largo, mobiliada (atenção revisor: não ponha 'mobilada', que é palavra que eu detesto) com uma cama de vento, uma cadeira e um lavatório de ferro".

Conforme se vê, Manuel Bandeira, decididamente, não admitia a forma "mobilada", que, segundo ele, é uma influência de Portugal: "Esse lusitanismo está sendo introduzido por certos revisores à revelia dos autores; já me enxertaram a antipática palavra numa tradução minha, mas eu juro que não as escrevi, nem jamais a escreverei: escreverei sempre 'mobiliada'".

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domingo, 11 de setembro de 2011

APARIÇÕES MARIANAS: UM CALO NO PÉ DA IGREJA

No mês de julho passado falamos sobre os bastidores do Terceiro Segredo de Fátima, em cuja oportunidade apontamos as fragilidades em torno da "aparição" de Maria em Portugal. Agora, tentaremos expor, de forma breve, os bastidores de algumas aparições de Nossa Senhora antes de 1917, bem assim discutir o mérito de suas mensagens, quando faremos comparações entre as próprias visões, algumas das quais ocorridas há poucas décadas.

O leitor dar-se-á conta de que, segundo Maria, Satanás foi solto do Inferno - com a autorização de Deus - para atormentar os humanos. Deparar-se-á, ainda, com a informação de que Nossa Senhora contesta algumas de suas próprias visões. E muito mais!

Estatisticamente falando, a maioria das aparições marianas se deram no século XX, embora um século antes já existam registros de que Nossa Senhora se comunicara com os seres humanos, geralmente munida de mensagens nada agradáveis.

Uma delas se deu em 1830, precisamente no dia 18 de julho. Uma freira francesa fora despertada do sono por uma criança de seus cinco anos de idade, que trajava vestes brancas. A criança a teria levado a uma capela, de onde receberia a mensagem de Maria, que, na ocasião, não passou de conselhos pessoais: tinha por finalidade ajudar a freira em seu noviciado.

Alguns meses depois, porém, a Virgem teria se comunicado novamente com a mesma freira. Desta vez com mensagens assustadoras: o mundo estava prestes a passar por dias maus, e falava da constante batalha entre o bem e o mal. Fez questão ainda de mostrar as mãos de Cristo e as dela própria, ambas perfuradas por uma espada.

Dezesseis anos depois, a Virgem voltaria à França, desta vez em busca de dois adolescentes (uma de 14 e outro e de 11 anos), destinatários de mensagens mais terríveis ainda. Como se estivesse falando a adultos alfabetizados, Maria trouxe-lhes informações de cunho político, cuja mensagem dificilmente seria assimilada por pessoas daquela idade e de pouca instrução.

Na ocasião, a Virgem estava chorando e aos prantos (isto mesmo, Maria teria dado a mensagem sob fortes lágrimas) disse-lhes que tinha algo muito importante para transmitir. Afirmou que Jesus estava na iminência de abandonar em definitivo a humanidade, a menos que houvesse um arrependimento geral. E continuou:

"Todos os governos civis terão um mesmo plano, que será abolir e acabar com todo princípio religioso, para dar lugar ao materialismo, ateísmo, ocultismo e vícios de todas as espécies".

Não eram estranhas, para a época, as preocupações nesse sentido: o Iluminismo havia seduzido a muitos, de modo que o deísmo e o ateísmo haviam conquistado respeitável espaço entre várias mentes, sem falar que as ideias (que emanaram principalmente da França) acerca da substituição do monopólio da Igreja em relação ao controle de informações ligadas à vida e à morte das pessoas foram suficientes para o surgimento dos cartórios e, principalmente, para a efetivação do casamento civil, duas novidades que trouxeram sérios dissabores para a Igreja da época.

Maria continuou:

"Os chefes, os líderes do povo de Deus, negligenciaram a prece e a penitência, e o diabo ofuscou a inteligência deles (...) Deus abandonará a humanidade a si mesma e mandará castigos que se seguirão um após o outro por mais de trinta e cinco anos (...) A humanidade deve esperar ser governada com um bastão de ferro e beber do cálice da ira de Deus. (...) No ano de 1864, Lúcifer, junto com grande número de demônios, será solto do Inferno. Eles porão fim à fé pouco a pouco (...) Livros maus serão abundantes na terra".
Vale relembrar que toda esta mensagem fora dirigida a duas crianças. Como assimilaram? Continuemos.

Pela mensagem, de 1846 a 1881 os seres humanos iriam ser vítimas da ira de Deus. Tal narrativa nos lembra a própria Bíblia, na qual há incontáveis passagens afirmando que Deus castigará a humanidade, sem levar em conta que há uma grande corrente de protestantes que, no fundo, creem que Satanás é, na prática, um agente de Deus para cumprir seu projeto na Terra.

E muitas coisas de fato aconteceram nesse intervalo: Darwin lançou a Origem das Espécies e Ernest Renan publicaria A Vida de Jesus, dois livros que literalmente infernizaram a Igreja. Os dois escritores exerceram fortíssima influência entre membros de diversas classes sociais e intelectuais. Ironicamente, foi nesse intervalo que foi oficializada a infalibilidade papal e o dogma da Imaculada Conceição, duas inovações que não devem ficar à margem da história da Igreja e, portanto, da humanidade.

Em 1858, novamente a Virgem retorna à França, mas desta vez sob o título de 'Imaculada Conceição", afinal, a ascensão honorífica ocorrera havia quatro anos. Na ocasião, nada de mensagens terríveis, pois se limitou a engrandecer a penitência, a pureza e principalmente o uso do rosário, remédio infalível contra as importunações satânicas (uma típica volta às crenças medievais).

Outra aparição ocorreu em 1963 (portanto depois da Visão em Fátima), cujo feito se deu dentro de uma igreja católica. A mensagem era a seguinte:

"O desastre está sobre nós como nos tempos de Noé. Não pela água, mas pelo fogo virá a destruição. Uma intensa inundação de fogo destruirá nações por pecarem perante Deus. Desde o começo do mundo, jamais houve queda tal como há hoje. Este é o reino de Satanás. Roma está em perigo de ser destruída, e o Papa de ser assassinado".

A Visão solidificou a crença de que o mundo iria se acabar com fogo, algo bastante ensinado em vários círculos familiares, de cuja crendice o Nordeste brasileiro foi um dos fiéis representantes por muito tempo. A narrativa da aparição parecia ser propícia: em 1959 a União Soviética havia testado sua primeira bomba nuclear, o estopim para se acreditar que a Guerra Fria iria às últimas consequências. 

Diferentemente do Terceiro Segredo de Fátima, que falava da morte do Papa, na aparição de 1963 o Papa apenas corria risco de morte. Difícil conciliar as duas mensagens. As possíveis contradições não se encerram aí: um ano antes (1962), uma mulher espanhola recebra a visita da Virgem, que a deixou ciente de que depois de Paulo VI, somente haveria mais dois pontífices, o que faria de João Paulo II o último Papa.

Há exatos trinta anos (na Croácia), em junho de 1981, a Virgem teria mais uma vez uma mensagem para a humanidade: "Venho chamar o mundo à conversão pela última vez. Após este período, não mais aparecerei nesta terra".  E foi além:  "Muitos fingem ver Jesus e a Mãe de Deus, e entender suas palavras, mas estão, na verdade, mentindo." Ironicamente, só na década de 1990 houve mais de 260 aparições da Virgem. Sem dúvida um calo pé da Igreja, que tem a espinhosa missão de separar o trigo do joio.

PARA LER SOBRE O TERCEIRO SEGREDO DE FÁTIMA, ACESSE:
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