domingo, 11 de dezembro de 2011

BRASIL: POR QUE JÁ FOMOS CHAMADOS DE CÉU, DEPOIS DE PURGATÓRIO E POR FIM DE INFERNO? UM POUCO DA IDEOLOGIA QUE SERVIU PARA “CIVILIZAR” NOSSO PAÍS


Aquela história de que fomos descobertos por portugueses, e em seguida civilizados pelos ditos europeus, é assunto já bastante retratado nas salas de aula dos ensinos fundamental e médio no Brasil, de sorte que se dispensa qualquer comentário na tentativa de apontar os fatos em sua linha cronológica. O que é digno de nota, no entanto, é a discussão em torno de algumas ideologias que fomentaram tais acontecimentos, passagem obrigatória pelos pensamentos eclesiásticos e sociológicos da Europa de então.

Desde a Antiguidade havia rumores de que do outro lado do Atlântico havia uma terra habitada por homens valentes, bárbaros, destemidos. Existia todo um imaginário em volta dessa crença, de modo que a Europa medieval não se desvencilhou de tal pensamento em sua trajetória histórica. Pelo contrário, o passar dos séculos só aumentou a curiosidade em torno da antiga crença.

Quando os europeus invadiram de vez as Américas, foram muitos os relatos acerca desses povos, em cujas narrativas o índio era colocado como canibais, desprovidos de quaisquer elementos civilizatórios, totalmente afastados do Deus cristão.

A colonização portuguesa carecia de uma ideologia, de uma racionalização para os fins desejados. Na visão da Igreja, tínhamos que ser urgentemente evangelizados, uma forma de barrar a contínua remessa de almas para o Inferno.

O pensamento religioso português de então parecia fértil: Deus havia se cansado de tentar edificar seu Reino na Terra, e acabou permitindo que Portugal descobrisse o Brasil, uma forma de trazer para o celeiro cristão os endemoniados brasileiros. Nosso país passou a ser visto como o local onde Deus habitaria, o terreno perfeito para arrebatar das mãos do inimigo espiritual almas incultas, desprovidas de leitura, de qualquer senso crítico. Fomos chamados de Céu, de Paraíso. Deus havia se mudado de mala e cuia para o Brasil.

De acordo ainda com a visão da Igreja, Deus permitiu, na sua infinita misericórdia, que os negros africanos fossem escravizados no Brasil porque, segundo se acreditava, era aqui onde eles (os negros) alcancariam a libertação espiritual.

A Igreja dizia que a África era o Inferno, onde o negro se achava na condição de escravo de corpo e alma. O Brasil seria o Purgatório, visto que proporcionaria aos mesmos, através do batismo cristão e do castigo físico, a liberdade da alma, embora o corpo continuasse escravo de seus senhores (com direito a chicotadas e tudo mais!). Somente com a morte é que haveria a completa libertação da alma, com endereço certo para o Céu.

Assim, o sofrimento corporal no Brasil (agora Purgatório), seguido da conversão ao catolicismo, seria o único meio para se chegar de vez ao Paraíso celestial prometido na Bíblia. A Igreja repetia, em tais gestos, as primitivas crenças gnósticas dos primeiros séculos, bem como aquelas adotadas pelos cátaros, um claro esquecimento de que ela própria se utilizou dos meios mais cruéis para banir tais crenças do meio cristão.

O homem religioso da Europa medieval estava convicto de que servir a Deus era o que havia de mais nobre no ser humano. No dizer do historiador Florival Cáceres, “a cultura senhorial portuguesa baseava-se nos ritos da cavalaria medieval. Valoriza apenas os feitos heroicos e a honra, ideias ligadas à nobreza. O ato honroso era um atributo da alma e deveria ser ganho nos campos de batalha, em que se lutava a serviço do rei e de Deus. Deus, na visão da Igreja portuguesa, era o suserano maior da nobreza. Servir a Deus passou a ser o critério mais importante para a honra do nobre, e era entendido como obedecer aos preceitos da Igreja e combater os infiéis”. Em outras palavras: deveríamos ser evangelizados, quer pela palavra, quer pela espada. A segunda opção foi um marco no Brasil, pois fomos obrigados, em muitas situações, a aceitar o modo cristão de agir e pensar. Para tanto, basta relembrarmos os muitos aldeamentos indígenas existentes no período colonial, quando ocorria uma verdadeira tentativa de aculturação dos índios.

Se não bastasse a ideologia religiosa, havia ainda a de cunho sociológico. Em suma (pois abordaremos este tema em outro momento), para o europeu, que se achava superior aos demais povos, somente eles eram devidamente civilizados, o que justificaria a necessidade de educar os demais povos, impondo sua cultura e sua forma de enxergar a vida. A aculturação, nos seus vários ângulos, era um favor que eles estavam nos fazendo, segundo entendiam seus idealizadores.

O Brasil, que outrora fora chamado de Céu e Purgatório, agora decrescia e acabou se tornando o Inferno, quase nos moldes descritos na visão bíblica. Aos poucos os religiosos – que haviam acreditado que o Brasil seria o local onde Deus implantaria Seu Reino – se desiludiram com o país, dadas as condições de vida e à resistência indígena oferecida aos europeus. Os mosquitos, as enormes cobras, o calor intenso, as pulgas e o canibalismo de algumas tribos fizeram com que os europeus afirmassem que, na verdade, aqui era a terra onde Satanás havia instituído seu Reino.

De acordo com Frei Vicente do Salvador (1564 – 1635), o demônio havia perdido o controle da Europa e passou a habitar no Brasil, tanto que, segundo o mesmo religioso, o vocábulo Brasil lembrava brasas infernais. Acabaríamos, finalmente, rebaixados e reprovados, tanto que, séculos depois, o Papado teria afirmado que Cristo jamais deixaria a Europa para se dirigir ao Nordeste brasileiro, uma referência ao suposto milagre ocorrido em 1889, quando a hóstia ministrada por Padre Cícero teria se transformado em sangue (de Cristo) na boca da beate Maria de Araújo.

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