quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O DIA EM QUE A ADVOCACIA, O JUDICIÁRIO E AS FORÇAS ARMADAS BRASILEIRAS CAÍRAM AOS PÉS DE UM ÚNICO POLÍTICO



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A recente desobediência do Senado Federal brasileiro frente a uma ordem judicial emanada do Supremo Tribunal Federal para retirar o senador Renan Calheiros da Presidência daquela Casa (Senado) repercutiu de forma bastante negativa nas redes sociais, e ainda nos fez lembrar um episódio ocorrido na República Velha, onde aparecem como personagens o famoso advogado Rui Barbosa, 13 oficiais generais da Marinha e do Exército, o Vice-Presidente Floriano Peixoto e o Supremo Tribunal Federal.
De acordo com o Art. 42 da Constituição de 1891, a vacância no cargo de Presidente da República antes de dois anos do período presidencial geraria a obrigatoriedade de nova eleição para a escolha de um novo Presidente. Como o governo do Marechal Deodoro da Fonseca durou apenas nove meses, o Vice Floriano Peixoto deveria convocar novas eleições para a referida finalidade. Deveria, mas não o fez.
Naquela ocasião, nenhum cidadão comum seria louco de relembrar ao Vice que ele deveria cumprir a Constituição. A tarefa coube aos 13 Oficiais-Generais das Forças Armadas, que estavam convencidos de que obteriam êxito no puxão de orelha programado para Floriano Peixoto, que naquela altura já ocupava a cadeira da Presidência da República.
Revoltado, o Chefe de Estado foi resoluto: mandou prender as treze maiores autoridades militares do país, pois não abria mão da cadeira presidencial, embora soubesse que era inconstitucional sua pretensão de não convocar novas eleições para Presidente da República.
Quando o advogado Rui Barbosa impetrou um Habeas Corpus no Supremo Tribunal Federal a fim de soltar os trezes militares, Floriano Peixoto foi mais resoluto ainda: “Se o Supremo Tribunal conceder o Habeas Corpus, quem concederia Habeas Corpus ao Supremo?”.
Foi com essa frase irônica que um único político brasileiro encerrou a referida querela, pois o Supremo não deferiu o pedido de Rui Barbosa, tampouco teve a coragem de determinar que Floriano Peixoto cumprisse a Constituição Federal.
 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

KARL MARX: A ESPIRITUALIDADE DO ATEU E O LADO CAPITALISTA DO MAIS FAMOSO COMUNISTA

 

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INTRODUÇÃO
Karl Marx (1818-1883) é conhecido por seu ateísmo de inclinação anticristã e por sua ideologia anticapitalista. O que não é tão familiarizado é o seu lado espiritual e seu afã por fortunas financeiras. O presente artigo mostrará, a partir de duas obras literárias (uma brasileira e outra norte-americana), os bastidores da vida desse homem que, graças às redes sociais, tem sido recentemente alvo de debates em todo o país.
O BERÇO RELIGIOSO DE KARL MARX
Nasceu num lar com tradição judia (de ambos os lados), havendo inclusive o registro de rabinos entre seus ancestrais. Seu pai se converteu ao protestantismo em 1816 ou 1817, por mera conveniência profissional: precisava continuar advogando depois da proibição de judeus em tribunais alemães. Segundo Josh McDowell, Marx cresceu num ambiente de reconhecida tolerância religiosa. Enviado para estudar numa escola religiosa, não firmou nenhum compromisso com a religião, pois seus pais, embora judeus e depois protestantes, aparentemente não nutriam o zelo pelo protestantismo, tampouco pelo judaísmo. Aos 19 anos de idade, Marx sofreu um colapso nervoso. Perdeu o pai no ano seguinte e uma década depois já era um comunista militante.
A POBREZA BATE ÀS PORTAS
Casou-se em 1843, resultando sete filhos desse matrimônio. O oitavo filho era bastardo, fruto de um relacionamento com a empregada doméstica, porém nunca o reconheceu oficialmente. A solução foi emprestar a paternidade a seu amigo Engels, que aceitou a encomenda do companheiro de luta.
Os dias de glória financeira ao lado dos pais se foram durante sua vida de casado, especialmente quando passou a residir em Londres com a família. O casal perdeu três filhos por agravamento das condições de moradia, má alimentação e atendimento médico inadequado.
Por diversas vezes Marx teve que se dirigir aos amigos a fim de pedir dinheiro emprestado para pagar as dívidas. Chegou a declarar: “Você sabe que sacrifiquei toda a minha fortuna à luta revolucionária. Eu não lamento isso. Bem ao contrário. Se tivesse que recomeçar minha vida novamente, eu faria o mesmo. Porém, não me casaria”.
O ardente desejo pela produção literária minou de Marx o empenho pelo trabalho braçal, o que fatalmente cooperou com sua extrema pobreza financeira. Em 1853, quando o alemão viveu o auge da miséria, era frequentemente visto com uma só roupa por muitos dias seguidos. Comumente perambulava pelas ruas, embebedando-se com facilidade.
O AMOR DE MARX PELO CAPITAL
Embora Marx lutasse com todo o seu vigor intelectual contra o imperialismo capitalista, ele não deixou de cobiçar uma boa dose de dinheiro fácil. Enquanto um tio de sua esposa agonizava, escreveu a Engels, seu parceiro de luta: “Se o cão morrer, estarei fora de complicações”. Referia-se ao ancião pela alcunha de “cão”, e o “fora de complicações” seria a possibilidade de ficar rico caso pudesse colocar as mãos na fortuna. Engels, o destinatário da referida carta, respondeu a Marx: “Congratulo-me pela doença do estorvador de uma herança, e espero que a catástrofe aconteça logo”. Foi nesses termos que os dois mais famosos comunistas se reportaram à oportunidade de o mais famoso deles ficar rico. Na quinta-feira, 8 de março de 1855, enfim Marx desabafa: “Um acontecimento muito feliz. Ontem soubemos da morte do tio de minha esposa, de 90 anos de idade. Minha esposa receberá cerca de 100 libras; até mais, se o velho cão não deixou parte do dinheiro à mulher que administrava sua casa”.
O mais surpreendente, no entanto, foi o modo como Marx se reportou à herança que receberia de sua própria mãe, em 1863: “Duas horas atrás chegou um telegrama dizendo que minha mãe está morta. O destino precisava levar um membro da família. Eu já estava com o pé no túmulo. Neste caso, sou mais necessário do que a velha senhora. Tenho que ir a Trier por causa da herança”.
Foi assim a relação que Marx fez entre a morte da própria mãe (e a de um tio da esposa) com a possibilidade de se deleitar com as heranças decorrentes das respectivas mortes. Marx se achava com as relações cortadas com a sua mãe, quando esta morreu. Mesmo assim, nenhum aparente sentimento brotou de seu coração, senão o desejo de herdar as posses da mãe. O desejo pelo capital falou mais alto.
O LADO ESPIRITUAL DO ATEU KARL MARX
“Sou ateu, graças a Deus”. Obviamente essa não é uma frase de Marx, porém ela pode ser empregada para explicar a relação entre o comunista citado e sua crença no espiritual. Vamos aos detalhes.
Marx se reportou a Deus não como crente, mas com um forte desejo de vingança. “Desejo me vingar daquele que governa lá em cima”, é o que escreveu num poema de sua autoria, chamado Invocação de alguém em desespero. Foi mais além. Sobre o Deus cristão, escreveu de forma mais contundente ainda: “Assim um deus tirou de mim tudo. Na maldição e suplício do destino. Todos os seus mundos foram-se, sem retorno! Nada me restou a não ser a vingança! Meu desejo é me construir um trono. Seu topo será frio e gigantesco. Sua fortaleza seria o medo sobre-humano. E a negra dor seria seu general”.
Em Marx & Satã, obra literária de Richard Wurmbrand (1909-2001), o pesquisador minucioso da biografia do pai do comunismo declara que havia uma estreita relação entre Marx e o satanismo. Numa peça teatral de autoria deste (ou seja, de Marx), chamado Oulanem, o famoso comunista se utilizou propositadamente de um anagrama para o nome bíblico Emanuel, que significa “Deus conosco”. De acordo com o dicionário prático satanista, esses anagramas são bastante utilizados em rituais de magia negra. No poema O Violinista, também de Marx, este escreveu: “Vapores infernais elevam-se e enchem o cérebro, até que eu enlouqueça e meu coração seja totalmente mudado. Vê esta espada? O príncipe das trevas vendeu-a para mim”.
Comentando o trecho do último poema citado, Richard Wurmbrand afirma: “Estas linhas ganham significado quando se sabe que nos rituais de iniciação superior dos cultos satânicos é vendida ao candidato uma espada encantada que assegura o sucesso. Ele paga por ela, assinando, com sangue tirado dos pulsos, um pacto segundo o qual sua alma pertencerá a Satanás após a morte”.
POUCO ANTES DE MORRER, KARL MARX É FLAGRADO ORANDO COM VELAS ACESAS
Marx foi um forte candidato a ter depressão, o que efetivamente ocorreu depois da morte de sua esposa, em 1881. Perdeu três filhos por desnutrição e por falta de higiene. Duas outras filhas suicidaram-se, cujo destino também fora seguido por um genro. O suicídio de sua filha Laura e de seu genro, o socialista Laforgue, se deu depois que o casal perdeu três de seus filhos (netos de Marx). Tudo concorria para a crença de que a vida de Marx estava emaranhada num poço de maldição.
Pouco antes de morrer, já em profunda depressão, foi flagrado em seu quarto, orando “diante de uma fileira de velas acesas, atando a fronte com uma espécie de fita métrica”, segundo Wurmbrand, que postulava pela crença de que Marx estava praticando algum ritual ligado ao satanismo. Independentemente da confirmação dessa afirmação, o certo é que o ateu Karl Marx dava sinais claros que contradizem o comportamento de um ateu convicto. Indiscutivelmente ele experimentou o mesmo vazio do filósofo Voltaire, que, no leito de sua morte, não somente recorreu à presença de padres católicos, como também expressou em palavras e gestos a dor de morrer com o vazio existencial (espiritual) a que tanto se reportam aqueles que já declararam passar por essa experiência.
Até hoje, a literatura mundial parece negligenciar os últimos dolorosos minutos de vida de Voltaire, Marx e Aristóteles. Há quem afirme que Darwin, que não era ateu, tenha passado por experiência semelhante. Mas essa é outra história.
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TEXTO: Robério Fernandes, autor do blog.
FONTES DE CONSULTA: A Cristofobia no Século XXI, de Daniel Chagas Torres, e Evidências da Fé Cristã, de Josh McDowell.
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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A MEMÓRIA DOS MÁRTIRES E AS VISITAS AOS TÚMULOS NOS PRIMEIROS SÉCULOS DO CRISTIANISMO

 
 
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O hábito de fazer oferendas e petições junto aos túmulos dos mortos (e para os mortos) não tem origem cristã, tampouco há registros apostólicos sustentando tal prática. Partiremos dessa perspectiva, porém não nos deteremos em demonstrar a origem histórica não cristã, e muito menos faremos uma análise teológica de textos bíblicos utilizados pró e contra esse antigo costume.
O QUE DIZ A APOLOGIA CATÓLICA?
Segundo a apologia católica, desde o século II existem registros de que os vivos se dirigem aos sepulcros com a finalidade de render orações pelos mortos. Personagens como Tertuliano e Cipriano (no século III), Cirilo de Jerusalém (no século IV) e Crisóstomo (no século V) são citados como defensores desse costume, que é apontado como sendo de tradição apostólica.
BISPO CATÓLICO SE POSICIONA CONTRÁRIO À OFERENDA AOS MORTOS
De acordo com Agostinho (354-430), o Bispo Ambrósio (um dos principais doutores da igreja dos primeiros séculos) proibiu o costume de se fazer oferenda aos mortos por duas razões principais: uma, porque os fiéis tinham o hábito da embriaguez durante os atos litúrgicos; a segunda, porque tal costume se assemelhava a uma festa pagã, chamada de parentales (ou parentais). Vejamos as palavras de Agostinho, em Confissões, em cuja oportunidade ele falava de Mônica, sua mãe:
“Assim, um dia, como costumava na África, levou papas, pão e vinho puro à sepultura dos mártires, mas o porteiro não quis permitir suas ofertas. Quando soube que essa proibição vinha do bispo, resignou-se tão piedosa e obedientemente, que eu mesmo me admirei de quão facilmente passasse a condenar o hábito, e não a criticar a proibição de Ambrósio”.
Um pouco adiante, Agostinho prossegue:
“Tão logo, porém, soube que o ilustre pregador e mestre da verdade [Ambrósio] proibira tal costume – mesmo para os que o praticavam sobriamente [ou seja, sem se embriagarem], para não dar aos ébrios azo de se embriagarem, e porque essa espécie de parentales era muito semelhante à superstição dos pagãos – ela se absteve de muito boa vontade”.
Notamos, facilmente, que a mãe de Agostinho (canonizada como Santa Mônica) se absteve de praticar oferendas aos mortos depois de ser advertida pelo bispo católico acerca da semelhança que havia entre essa tradição e o costume pagão.
No entanto, segundo o próprio Agostinho, sua mãe não deixou de fazer visitas aos túmulos dos mártires, mesmo após os conselhos do bispo católico. Assim prossegue o autor de Confissões:
“No lugar da cesta cheia de frutos da terra, ela aprendeu a levar ao túmulo dos mártires um coração cheio de puros desejos, dando o que podia aos pobres. Celebrava assim a comunhão com o corpo do Senhor, cuja paixão serviu de modelo aos mártires em seu sacrifício e coroação”.
Conforme se vê, Mônica não deixou de visitar os túmulos dos mártires, mas apenas deixou de lhes fazer oferendas. Nota-se, mais ainda, que aparentemente ela não tinha o hábito de peticionar junto ao sepulcro, mas apenas o de fazer oferendas, cuja prática foi substituída pelas orações depois da advertência do bispo, que, segundo se sabe de sua biografia, não rompeu com a tradição de render orações pelos mortos.
A MEMÓRIA DOS MÁRTIRES PASSOU A SER VISTA COMO ESTÍMULO À PERSISTÊNCIA NA FÉ
Provavelmente na transição do primeiro para o segundo século, quando a igreja já havia experimentado duras perseguições, os cristãos que, naquela ocasião, mantinham firme o pensamento apostólico, passaram a dar maior significância à memória de cristãos cuja vida piedosa servia de exemplo a ser seguido, especialmente pelo fato deles não negarem a fé diante da espada romana. Os mártires cristãos eram vistos como modelos a serem seguidos.
Veja-se, por exemplo, o próprio Justino Mártir (100-165), que se converteu ao cristianismo depois que tomou conhecimento de como os mártires cristãos não abdicavam de sua fé, ainda que pagassem com a própria vida pelo fato de permanecerem crentes em Jesus Cristo. Ou seja, ser assassinado pela simples razão de não negar essa crença era visto como um ato encorajador, nascendo daí o costume de perpetuar a memória desses mártires, inclusive com visitas aos túmulos, como foi o caso de Mônica.
A MEMÓRIA DOS MÁRTIRES E A PERMISSÃO PARA A LEITURA DOS LIVROS APÓCRIFOS DURANTE OS CULTOS
Não entraremos no mérito sobre os motivos pelos quais são rejeitados os livros apócrifos, mas pontuar que, embora alguns dos pais da igreja tivessem objeções em relação à canonização de alguns desses livros, por sua vez assentiam que alguns deles poderiam ser lidos na igreja, “para edificação” (veja-se a posição de Jerônimo a esse respeito), como foi o caso da carta de I Clemente e de uma carta enviada pelo bispo de Roma ao bispo de Corinto, por volta do ano 170 d.C., cujas obras eram constantemente lidas, para edificação, na igreja da referida cidade grega.
No Cânon 47 do terceiro Concílio de Cartago, em 397 d.C., chegou-se ao consenso de “... que seja, contudo, permitido que as paixões dos mártires sejam lidas na celebração das datas dos mártires”, demonstrando um prenúncio para a oficialização das datas comemorativas dos então futuros santos católicos, todos considerados mártires para a referida denominação eclesiástica.
O que se quer dizer, portanto, é que, no século IV (o mesmo em que viveram Agostinho, Mônica e o bispo Ambrósio), a igreja concebia uma significativa importância à memória daqueles que haviam morrido em nome da fé cristã.
MÔNICA VISITA OS TÚMULOS DOS MÁRTIRES E NÃO DOS MORTOS “COMUNS”
Cabe inicialmente esclarecer a diferença entre um mártir e um não mártir. O primeiro é uma pessoa que sofreu duras perseguições por causa da fé que professa. Não se trata, aqui, de uma pessoa que opera milagres depois da morte. O não mártir é aquele que não sofreu duras perseguições pela fé que abraçou.
De posse desse ligeiro esclarecimento, voltemos agora para o caso de Mônica. Note-se que, em todo o momento, Agostinho não faz alusão aos túmulos dos parentes, mas apenas aos túmulos dos mártires, ou seja, de cristãos que, em vida, eram considerados exemplos a serem seguidos. Na verdade, Agostinho não sinalizava de forma positiva no que concerne à prática de orar pelos mártires ou pelos mortos “comuns” (para saírem do purgatório), mas para fazer súplicas aos mártires – uma demonstração de que naquele século já estava bastante solidificada a crença de que os “santos” operavam milagres.
QUANDO E COMO SURGIU A CRENÇA DE QUE OS MÁRTIRES PODEM OUVIR AS ORAÇÕES DOS VIVOS?
Antes de entrarmos no mérito da pergunta, convém esclarecer que o fato dos cristãos que viveram nos primeiros séculos seguintes à morte dos apóstolos terem adotado o hábito de fazer visitas aos túmulos com a intenção de render súplicas aos mártires não é prova cabal que autoriza essa crença, a saber, a de que os mortos ouvem a oração dos vivos (e aqui fazemos um juízo de valor frente às Escrituras).
O que aconteceu é bem simples de explicar: com a difusão de doutrinas ditas apócrifas (gnósticas, pagãs, etc.), a igreja foi perdendo gradativamente a identidade original, notadamente quando pensamentos e práticas pagãs passaram a se confundir com pensamentos e práticas cristãs. A própria conversão de Constantino e os efeitos dessa conversão contribuíram maciçamente para essa mistura de doutrinas e de atos litúrgicos, embora no primeiro século já havia falsos mestres entre os cristãos. Nascem e difundem daí as crenças e as práticas de oferendas e intercessões pelos mortos, bem como a de que eles podem ouvir as súplicas dos vivos.
CONCLUSÃO
Não está claro, do ponto de vista documental, que, no primeiro século, os primeiros cristãos tivessem o hábito de se dirigirem aos túmulos com a missão de fazer oferendas ou de renderem súplicas aos mártires, ou ainda de orarem pelos mortos. Pelo menos é certo que em suas epístolas, os escritores neotestamentários não se reportaram, tampouco abonaram essa prática. Tal costume nasceu, indubitavelmente, da perda da identidade original dos cristãos, cujo marco cronológico se deu muito provavelmente a partir do último meado do segundo século ou mesmo do início do terceiro século.
Uma coisa é perpetuar a memória dos parentes mortos - inclusive dos mártires. Outra coisa é valer-se dessa tradição milenar como um imperativo dogmático, capaz de romper com o ensinamento apostólico. Ou seja, a igreja apóstata não somente recepcionou como também difundiu a ideia de que os mártires podem ouvir e atender às súplicas dos vivos, contrariando a Bíblia sagrada.
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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A GUERRA CRISTERA E A CONSTITUIÇÃO MEXICANA DE 1917: QUANDO O ESTADO LAICO SE TRANSFORMA EM ESTADO ATEÍSTA

 
 

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A FRASE QUE DEFINE O ESPÍRITO ANTICLERICAL DA ÉPOCA
“É preciso penetrar nas famílias, quebrar as estátuas e as imagens dos santos, pulverizar os rosários, despregar os crucifixos, confiscar as novenas e outras coisas, trancar as portas contra o padre, suprimir a liberdade de associação para que ninguém vá às igrejas conviver com os padres, suprimir a liberdade de imprensa para impedir a publicidade clerical, destruir a liberdade religiosa e afinal, nessa orgia de intolerância satisfeita, proclamar um artigo único: na República, só haverá garantia para aqueles que pensam como nós” (1).
A frase acima foi proferida na década de 1920. É de autoria de um deputado pró-governo Calles, que ficou conhecido por seu vigor anticlerical. Revela, ainda, o espírito determinista do Estado mexicano, com amparo na Constituição de 1917, para minar do solo daquele país o catolicismo romano.
PUBLICISTAS DO MUNDO INTEIRO ELOGIAM A CONSTITUIÇÃO MEXICANA DE 1917
Até hoje, a referida Constituição é festejada por publicistas do Direito do mundo inteiro quando o tema é Direitos Sociais. Não por menos, afinal ela de fato foi um marco nessa seara. O que não divulgam é o vigor com que essa Carta Magda tratou os direitos individuais, notadamente aqueles relacionados à liberdade religiosa. Aliás, registre-se oportunamente, que esse tratamento dado à religião na época fazia parte da crença bastante solidificada de que o Estado Social somente seria alcançado se fossem varridas do solo mexicano as crenças metafísicas, daí por que a referida Constituição trouxe consigo um matiz flagrantemente socialista. 
O CONTEÚDO ANTICLERICAL DA REFERIDA CONSTITUIÇÃO
A situação desesperadora dos católicos mexicanos chegou ao ápice quando assumiu o poder o anticlerical Plutarco Calles (1924-1928), responsável direto por levar a cabo as prescrições da Constituição de 1917.
Havia pelo menos cinco artigos na referida Constituição que faziam clara afronta ao catolicismo romano: proibição das escolas monásticas, proibição de missas fora dos templos, restrição de propriedade por parte da igreja, extinção de direitos civis dos clérigos, dentre outros. Note-se que essas normas estavam textualmente assentadas na Constituição, fazendo com que, na prática, nenhuma legislação infraconstitucional pudesse suprimir ou contrariar as prescrições em voga.
A situação piorou quando o presidente Calles baixou uma lei restringindo ainda mais direitos e liberdades dos católicos, dentre os quais o de não andar nas ruas com vestes sacerdotais, prevendo, inclusive, punição de até cinco anos para sacerdotes que contestassem a Constituição e a Lei Calles. 
AS MORTES CAUSADAS PELA GUERRA CRISTERA
A consequência não demorou a chegar: a população, insuflada por clérigos locais, se rebelou contra o governo autoritário, nascendo daí um confronto armado que ceifou em torno de 90 mil vidas humanas. O fim da guerra se deu quando Calles concluiu seu mandato, embora no final de seu governo tenha abrandado suas forças graças à intervenção americana. 
CONSTITUIÇÃO LAICA OU ATEÍSTA?
A Guerra Cristera mostra um retrato daquele período, quando as ideias marxistas eram constantemente insufladas no meio dito intelectual, sendo uma dessas ideias a crença e a afirmação de que a religião era indubitavelmente um obstáculo para o Estado feliz e próspero. A mesma guerra mostrou, ainda, um lado nada agradável, que foi o uso da Constituição como mecanismo repressor de liberdades individuais, de sorte que a tão afamada Constituição Mexicana de 1917 não pode ser inserida no rol daquelas ditas Laicas, pelo próprio conteúdo em si. Antes, ela era indiscutivelmente uma Constituição anticlerical, própria do Estado ateísta, ainda que se propusesse a alcançar o tão sonhado Estado Social. O erro, como sempre ocorre nos modelos comunistas, não está no desejo final propriamente dito, mas nos meios para alcançá-lo.
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(1) Frase citada em História do Medo no Ocidente, de Jean Delumeau.


terça-feira, 26 de julho de 2016

CONTRADIÇÃO: POR QUE A SUÉCIA TEM ALTO ÍNDICE DE QUALIDADE DE VIDA, DESPONTA COMO UM DOS PAÍSES MAIS FELIZES DO MUNDO, MAS APRESENTA UM CRESCENTE NÚMERO DE DEPRESSÃO EM SUA POPULAÇÃO?



INTRODUÇÃO
Você já deve ter assistindo ou lido alguma reportagem sobre a Suécia. No mínimo tomou conhecimento que juiz de direito por lá vai ao trabalho em transporte coletivo, que o Estado proporciona à sociedade uma excelente qualidade de vida por meio dos bens de consumo coletivo, que o nível de corrupção é baixíssimo ou quase inexistente, etc. Você não foi enganado, mas o país que ocupa um dos primeiros lugares no ranking dos países mais felizes do mundo tem um lado sombrio, desconhecido do grande público. Esse lado, no entanto, não parece causar inveja a ninguém. É sobre isso que vamos tratar agora. 

AUMENTO DE CASOS DE DEPRESSÃO E ALTO ÍNDICE DE SUICÍDIO
Nas últimas três décadas, a Suécia (assim como a Noruega) teve um aumento de 1.000% no uso de antidepressivos. Isso mesmo: mil por cento. Esse dado alarmante parece contrastar com a informação de que ela está entre os países mais felizes do mundo. E de fato é um contraste.
 Além desse crescimento assustador, outro dado concorre ainda mais para ofuscar o brilhantismo propagado: a Suécia tem índice proporcional de suicídio três vezes maior do que o Brasil, ocupando o 23º lugar no mundo (o Brasil está em 40º). Não é piada. E o mais curioso ainda é saber que a Suíça, que desponta como um país mais feliz do que a Suécia, tem um índice proporcional de suicídio em torno de 50% ainda maior do que este. Algo está errado. 

COMO É MEDIDO O ÍNDICE DE FELICIDADE?
A pesquisa não é feita de porta em porta; muito menos pela internet. Os dados não são colhidos a partir de critérios subjetivos, mas objetivos. Como assim? São adotados os seguintes critérios:
1 – PIB;
2 – Expectativa de vida;
3 – Liberdade;
4 – Generosidade;
5 – Ausência de corrupção
6 – Violência;
7 – Número de mortes. 

ONDE ESTÁ O ERRO NA ESTATÍSTICA?
O erro está exatamente nos critérios adotados. Tendo em vista que os elementos são objetivos, deduz-se que, numa casa onde há riqueza, também há muita felicidade. Deduz-se que, pelo fato da sociedade estar bem avançada em termos de moralidade pública, o povo é muito feliz. E assim sucessivamente.
Conforme se vê, são critérios esdrúxulos e estão aquém de corresponderem à verdade dos fatos. É a velha crença cientificista de que a qualidade de vida, por meio da ciência, traria a redenção definitiva para a sociedade.
O erro na medição do índice de felicidade foi explicado, mas em relação ao aumento de casos de depressão no referido país, como explicar? 

QUAIS AS JUSTIFICATIVAS QUE OS ESTUDIOSOS ATRIBUEM AO ELEVADO ÍNDICE DE DEPRESSÃO NA SUÉCIA?
As justificativas são basicamente duas: (1) num país muito feliz a tendência é que aqueles que não são felizes entrem num quadro depressivo, pois, segundo os tais, a comparação que fazem uns com os outros leva à autotristeza pelo fato de não acompanharem o mesmo nível de felicidade dos grupos de pessoas comparadas, e (2) a Suécia recebe pouca insolação, cuja condição natural estaria contribuindo para o quadro de depressão de seu povo.
Você, assim como eu, já deve ter se dado conta de que essas justificativas não convencem. Uma, porque a primeira delas ignora fatores ligados aos próprios critérios adotados; a segunda, porque a pouca insolação na Suécia nos dias de hoje é a mesma há três ou cinco décadas.

O QUE REALMENTE ESTÁ POR TRÁS DA CORTINA?
Muita coisa mudou na Suécia nos últimos anos, inclusive a forma como a família é avaliada pelo Estado e pela própria sociedade. A esposa é vista com maus olhos pela sociedade e pelo Estado se optar por ficar em casa e cuidar de sua prole. É taxada de retrógrada, graças a uma maciça campanha por meio da qual se defendia que homens e mulheres não deveriam ter papéis distintos, tal qual prega o ativismo feminista. Lugar de mulher não é em casa, defendem os formadores de opinião. Consequência? Desde cedo o bebê, ainda não apartado do leito materno, é enviado para creches públicas, e lá vai crescendo sem o convívio mais de perto de seus pais – algo imprescindível para o bem-estar tanto dos pais quanto dos filhos –, recebendo, em troca, a doutrinação estatal.
Se isso não bastasse, o governo vem adotando de forma contundente a ideologia de gênero nas escolas infantis, rompendo paradigmas até então existentes. Só para se ter uma ideia, algumas escolas aboliram os pronomes “ele” e “ela”, os quais foram substituídos por um pronome neutro. O objetivo é fazer com que a criança não se veja a partir de sua biologia sexual, mas a partir de sua construção social, sem falar que são doutrinadas a aceitar tudo o que lhes geram felicidade própria, inclusive no campo da sexualidade (a bissexualidade é um tema recorrente nas salas infantis).
A Suécia tem constatado o aumento do número de aborto, pois, além de ser legalizado, é incentivado como sendo uma alternativa boa. Esse elevado índice de aborto tem contribuído para o aumento dos casos de depressão nas mulheres, que, por sinal, apresentam o dobro de suicídios do que os homens no referido país.
Ainda há outros agravantes: é elevado o número de atestados médicos, aumento de estresse por parte dos trabalhadores e falta de sintonia entre pais e filhos. A redução do rendimento escolar por parte dos alunos já é uma realidade.
A Inglaterra também vem apresentando um grande aumento no índice de depressão em crianças.
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FONTES:
https://vidaeestilo.terra.com.br/turismo/internacional/cnn-lista-os-10-lugares-mais-felizes-do-mundo-confira,6f14018cc55e4410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html
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quarta-feira, 1 de junho de 2016

O MASSACRE DOS INOCENTES: VERDADE OU MENTIRA? HERODES MANDOU MESMO MATAR AS CRIANÇAS DE ATÉ DOIS ANOS DE IDADE?

 
 
 
1. O RELATO BÍBLICO
 
De acordo com o Evangelho de Mateus (MT 2:16), o rei Herodes, que governava a Judeia na época em que Jesus nasceu, mandou matar todas as crianças do sexo masculino que tivessem dois anos para baixo e fossem de Belém e região circunvizinha. Estamos diante de um fato com respaldo histórico ou apenas se trata de uma narrativa fictícia?
 
 
2. A HISTORICIDADE DE HERODES
 
Não iremos tratar, nesse momento, sobre a historicidade de Herodes (o Grande), visto que hoje já não se tem nenhuma dúvida quanto à sua realidade histórica.
 
 
3. QUEM MAIS, NOS DOIS PRIMEIROS SÉCULOS, CITAM O CASO?
 
Dos textos bíblicos, apenas Mateus alude ao fato. No segundo século, o fato é mencionado num livro apócrifo (Protoevangelho de Tiago, por volta de 150 d.C.).
 
 
4. O QUE DIZEM OS HISTORIADORES?
 
Uma consagrada coletânea mundial intitulada A História da Vida Privada, composta por cinco volumes, aborda, em seu primeiro volume, sobre a situação das crianças recém-nascidas no Império Romano. Reforçamos que a referida obra desfruta de grande privilégio no meio acadêmico, sendo o referido volume dirigido pelos prestigiados historiadores franceses Philippe Ariès e Georges Duby e organizado pelo também historiador e arqueólogo francês Paul Veyne.
 
4.1 Afirmam os autores:
 
"Certo dia correu pela plebe um boato: informado pelos adivinhos de que um rei nascera naquele ano, o Senado queria obrigar o povo a abandonar todas as crianças nascidas no mesmo ano. Como não pensar no massacre dos inocentes (que, diga-se de passagem, provavelmente é um fato autêntico e não uma lenda)?".
 
Por clareza gramatical, cabe observar que a expressão entre parênteses não é de nossa autoria, mas dos autores do texto. Ou seja, para os referidos historiadores, o massacre dos inocentes a que alude a Bíblia é, muito provavelmente, um fato autêntico.
 
4.2 Qual então a fonte histórica dos mencionados historiadores?
 
Infelizmente a fonte não é mencionada. Entretanto, a leitura dos cinco volumes nos permite assegurar com total garantia que os autores da prestigiada obra não mencionam fontes acerca dos intermináveis eventos históricos mencionados na aludida obra, de sorte que, se colocarmos em dúvida essa afirmação autoral, devemos fazê-lo, por honestidade intelectual, em tantas outras afirmações feitas nos referidos volumes.
 
O que se depreende facilmente da transcrição feita há pouco é que os supracitados autores tinham conhecimento histórico de que o Senado romano pretendeu obrigar o povo a abandonar todas as crianças nascidas no mesmo ano em que se deu a pretensão senatorial. A menção "informado pelos adivinhos" não significa dizer que os autores colheram essa informação diretamente da Bíblia, por duas razões óbvias: uma, porque ela não é semelhante ao texto de Mateus em todos os seus pontos; segundo, porque os romanos eram dados à crença em adivinhos, como bem atestam os escritores Tácito e Suetônio, ambos nascidos no primeiro século.
 
4.3 A narrativa da Bíblia, nesse caso, apresenta discrepâncias históricas?
 
 Não, não apresenta. O fato narrado pelos historiadores provavelmente não é o mesmo citado na Bíblia. O que os historiadores estão dizendo é que a narrativa bíblica é perfeitamente compatível com outro fato ocorrido durante o império romano, sobre os quais os prestigiados escritores tinham conhecimento por fontes históricas.
 
 
5. POR QUE OS HISTORIADORES DA ÉPOCA SILENCIARAM SOBRE ESSA MATANÇA?
 
O texto bíblico diz que a ordem foi dada por Herodes para matar as crianças que residiam em Belém e em seus arredores. Muito provavelmente na época houvesse poucas crianças nessa faixa etária. Talvez no máximo poucas dezenas. Isso já sinalizaria, com grande probabilidade de acerto, o desinteresse por parte dos historiadores da época, até porque a morte de crianças por abandono dos pais era uma constante em todo o Império, pois não somente tinha o aval da sociedade da época como também do próprio Estado.
 
Afora o numerário "pequeno" e o costume já mencionado, outro ponto que merece destaque diz respeito ao fato dos escritores da época não dedicarem nenhuma - ou pouca atenção - à região de Belém e circunvizinhança, como bem o atestam os citados Cornélio Tácito e Caio Suetônio, os quais, juntos, escreveram em detalhes a vida pública do Império Romano no primeiro século de nossa era, fazendo quase absoluto silêncio histórico não somente em relação às cidades como aos personagens ligados à Judeia, com exceção de Flávio Josefo que, sendo judeu, não lhe encantaram os tratados cristãos da época.
 
 
5.1 Ademais, veja-se o que escreveu o historiador Tácito no ano 115 d.C.:
 
"Não levo o intento de relatar todas as propostas feitas ao Senado, mas apenas as que se tornaram notáveis por decorosos ou vis, e isto penso ser o principal dever de quem escreve a história, para que não sejam esquecidas as virtudes e se desperte o medo da infâmia, do desprezo dos pósteros para os maus ditos e feitos" (ANAIS, pág. 157).
 
Ou seja, somente os fatos considerados virtuosos e somente aqueles considerados risíveis o foram peças de destaque em sua obra.
 
A Bíblia não entra em detalhes, mas é quase certo que a ordem para matar as crianças de Belém teve o crivo do imperador Otávio Augusto, depois de ouvir o Senado (como era de costume), cuja proposta inicial indiscutivelmente partiu de Herodes, a cuja governabilidade cabia o território de Belém. Isso implica dizer que, se o próprio Tácito, sendo um dos mais festejados escritores da época, omitiu muitas mensagens endereçadas ao Senado, quiçá outros.
 
Ademais, a medida protagonizada por Herodes era compatível com seu modus operandi governamental, afeito a ordens para matar. Otávio Augusto, por sua vez, também nutria sérias objeções em relação aos judeus, como bem narrou Tácito, de sorte que não lhe custava nada enviar tal mensagem ao Senado que, por sua vez, era afeito às mensagens imperiais.
 
 
6. CONCLUSÃO
 
 A falta de documentos históricos comprovando o massacre dos inocentes, tal qual narrado em Mateus, em nada depõe contra a credibilidade bíblica, até porque a ausência de prova acerca de um fato não é prova de que esse fato não existiu. Antes, a soma de elementos em consideração só coopera no sentido de se acreditar que estamos diante de um evento verdadeiro, como bem consignaram os prestigiados escritores franceses.

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sexta-feira, 29 de abril de 2016

"AO DEUS DESCONHECIDO": INSCRIÇÃO CITADA NO NOVO TESTAMENTO PODE ESTAR PELA METADE

 
 
 
O Novo Testamento, mais precisamente em Atos dos Apóstolos, capítulo 17 e versículo 23, registra um diálogo entre o apóstolo Paulo e alguns dos filósofos gregos, nos seguintes termos:

"Pois passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, esse que vós honrais sem conhecer é o que eu vos anuncio".

O famoso humanista holandês, Erasmo de Rotterdam (1466 - 1536), assegurava que a inscrição completa que havia nos santuários gregos era a seguinte:

"Aos Deuses da Ásia, da Europa e da África, e aos Deuses desconhecidos e estrangeiros".

Segundo o mesmo humanista, que viveu no tempo da Reforma Protestante, "Paulo forçou seu significado em proveito da fé cristã e, deixando de lado as outras palavras, que teriam prejudicado o seu objetivo, tirou do contexto apenas as últimas três (...)".
 
Não se trata de usurpação da verdade por parte do escritor bíblico, vez que o termo reducionista usado na Bíblia tinha, na verdade, um fundo pedagógico, pois o emprego completo da inscrição em nada mudaria o sentido usado pelo apóstolo.

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sábado, 16 de abril de 2016

IMPÉRIO ROMANO REGISTROU EM DOCUMENTOS OFICIAIS A CRUCIFICAÇÃO E ALGUNS DOS MILAGRES ATRIBUÍDOS A JESUS CRISTO



INTRODUÇÃO

Atualmente é reduzidíssimo o número de pesquisadores que ainda duvida da existência histórica de Jesus Cristo. Sua divindade, no entanto, não é matéria de pesquisa histórica, muito embora existam vários pesquisadores e historiadores que são protestantes e, portanto, estão convencidos da  missão espiritual de Cristo aqui na Terra. Mas não é bem sobre este último ponto que a matéria vai tratar. Antes, iremos discorrer em brevíssimo tomo sobre uma obra bibliográfica produzida por volta do ano 155 d.C., que tem sido apontada pelos pesquisadores como uma daquelas que sinalizam a historicidade de Cristo. Estamos falando da obra Apologia, de Justino Mártir (o autor deste blog tem a íntegra da referida obra em suas mãos, que por sinal pode ser encontrada na internet).
 

QUEM FOI JUSTINO MÁRTIR?

Justino Mártir (100 - 165 d.C.) foi um grande estudioso das filosofias gregas, às quais seguiu durante muito tempo de sua vida, convertendo-se ao cristianismo por volta do ano 130-137 d.C. depois de se decepcionar com a cosmovisão dessas filosofias e, principalmente, depois que conheceu um ancião, quando se preparava para uma vida eremita. Justino, que era atualizado com as ocorrências de seu tempo, se impressionou como os cristãos do primeiro século suportaram, sem perder a fé em Cristo, as duras perseguições infligidas pelo Império Romano, notadamente a protagonizada pelo imperador Nero, cujo feito também é narrado pelo escritor Cornélio Tácito, por volta do ano 115 d.C.


AS CITAÇÕES DE JUSTINO SOBRE AS ATAS OFICIAIS DO IMPÉRIO ROMANO
 
Em Apologia 1:35, Justino registrou o seguinte:
 
"'Transpassaram as minhas e os meus pés' significava os cravos que na cruz transpassaram seus pés e mãos. E depois de crucificá-lo, aqueles que o crucificaram lançaram sorte sobre as suas roupas e as repartiram entre si. Que tudo isso aconteceu assim, podeis comprová-lo pelas Atas redigidas no tempo de Pôncio Pilatos" (Destacamos).
 
Mas Justino foi mais além. Em Apologia 1:48 registrou ainda:
 
"Que nosso Cristo curaria todas as enfermidade e ressuscitaria dos mortos, escutai as palavras com que isso foi profetizado. São estas: Diante dele, o coxo saltará como cervo e a língua dos mudos se soltará, os cegos recobrarão a vista, os leprosos ficarão limpos e os mortos ressuscitarão e começarão a andar. Que tudo isso foi feito por Cristo, vós podeis comprovar pelas Atas redigidas no tempo de Pôncio Pilatos" (Destacamos).
 
 
PILATOS REALMENTE EXISTIU?
 
Sim. Numa expedição italiana, o arqueólogo Antônio Frova (1914 - 2007) descobriu uma inscrição que diz: "Pôncio Pilatos, Prefeito da Judéia". Essa recente descoberta arqueológica veio confirmar o que já há muito era conhecido por outras fontes, como os livros neotestamentários e a volumosa obra de Flávio Josefo, historiador do primeiro século (o autor deste blog dispõe da obra completa desse historiador).
 
 
 
Inscrição comprovando a historicidade de Pilatos
 
 
PILATOS REGISTROU MESMO SUAS ATAS ? 
 
Não resta nenhuma dúvida quanto a isso. Havia, desde Júlio César, a determinação imperial para que todos os gestores provinciais registrassem em atas públicas não somente seus feitos governamentais, como também os principais acontecimentos que diziam respeito à gestão local. O mais famoso dos diários oficiais do Império Romano foi o Acta Diurna Populi Romani, bastante citado por historiadores dos dois primeiros séculos, como Tácito e Suetônio (num artigo publicado pelo site Monergismo tratamos mais apuradamente sobre essa questão, cujo link está no final deste texto). Essa prática de se registrar em atas públicas os feitos governamentais e os principais acontecimentos locais ainda está bem documentada em registro do segundo século, como bem atestou, na época, Plínio, o Jovem.
 
Assim, do ponto de vista historiográfico, não há nenhuma dúvida de que os gestores provinciais romanos faziam esses registros oficiais.
 
 
PILATOS TERIA MESMO REGISTRADO EM DOCUMENTOS PÚBLICOS A CRUCIFICAÇÃO E OS MILAGRES ATRIBUÍDOS A JESUS? 
 
As Atas em questão não existem mais, assim como praticamente todos os registros oficiais da época. Isso não é, por si só, nenhum embaraço para não se confiar nas palavras de Justino.
 
Apologia não foi, originalmente, uma obra bibliográfica. Foi uma carta (uma longa carta, por sinal) que Justino endereçou ao então imperador Antonino Pio, em cuja missiva fez uma vigorosa apologia da fé cristã, defendendo-se das acusações que foram imputadas a ele (a Justino) por um filósofo de nome Crescêncio. Na época, seguindo já uma longa tradição romana, pessoas do povo escreviam para os imperadores, que também tinham o hábito de ler o que recebia.
 
Uma pergunta crucial a ser feita é a seguinte: o que levaria Justino Mártir a desafiar o imperador a conferir nas Atas públicas de Pilatos esse registro acerca de Jesus Cristo? A resposta é simples: Justino não seria louco de fazer tal desafio se ele não tivesse a convicção de que esse registro de fato constava tal qual mencionado por ele! É uma questão de honestidade intelectual deduzir desse modo.
 
Uma eventual objeção sobre a existência dessas Atas em meados do segundo século seria o fato de Tácito ter registrado, no início do século II, que, a mando do Senado, foram queimados muitos documentos do imperador Tibério, que governou Roma no tempo em que Jesus foi crucificado. Esse embaraço é facilmente desfeito quando sabemos, pelo próprio Tácito, que os documentos destruídos foram aqueles de valor pessoal e não de valor público. Isso sugere, indubitavelmente, que essas Atas não estavam no rol daquelas destruídas. Ademais, ainda cabe observar que os documentos públicos na velha Roma eram de fácil acesso, visto que esse era, na verdade, o sentimento público que levou o Império Romano a criar os diários oficiais, não somente em sua sede como também em suas províncias.


POR QUE ESSES REGISTROS DE PILATOS NÃO FORAM INVOCADOS INICIALMENTE PELA IGREJA COMO PROVA HISTÓRICA DE JESUS CRISTO?

Nos primeiros séculos não havia discussão relevante sobre a historicidade de Jesus Cristo. As discussões eram sobretudo teológicas, razão dos vários Concílios. A bem da verdade, quando ousaram debater a historicidade de Jesus nos quatro primeiros séculos, Atos de Pilatos foram invocados no terceiro e quarto séculos por cristãos e pelo Império Romano. A referência a esse registro de Pilatos chegou, em dado momento, à importância tal que no quarto século houve a compilação de uma obra forjada sobre o referido registro. 
 
 
CONCLUSÃO 
 
A conclusão é que o historiador, usando de sua imparcialidade acadêmica, é fatalmente levado a tributar a esse registro de Justino como de relevante valor histórico-documental como forte evidência não somente da historicidade de Jesus, mas, inclusive, de que na época lhe atribuíam feitos considerados extraordinários, comumente chamados de "milagres".


OUTRAS FONTES HISTÓRICAS ACERCA DA HISTORICIDADE DE JESUS CRISTO
 
Há muitas outras fontes históricas que atestam a existência histórica de Jesus Cristo: Tácito, Suetônio, Flávio Josefo, Plínio (o Jovem), Júlio Africano, Mara Bar-Serapião, Luciano de Samosata, o Sanhedrin 42a e os escritos gnósticos.

 
MATÉRIA DE NOSSA AUTORIA PUBLICADA PELO SITE MONERGISMO EM 2008, POR MEIO DA QUAL TRATAMOS, EM MAIS DE 20 PÁGINAS, SOBRE ESSA CARTA DE JUSTINO MÁRTIR (Se o estudo não estiver disponível, digite "Robério Fernandes" em PESQUISA e em seguida clique na seta onde tem TÍTULO, rolando seguida o cursor até a palavra AUTOR. Depois clique em OK):
 
 
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terça-feira, 5 de abril de 2016

HISTÓRIAS POUCO CONTADAS SOBRE CALVINO




 
Até hoje, corre a má fama de Calvino pelo fato dele ter tido participação direta na condenação do médico Miguel Servet (1511-1553), que não escondia sua descrença em relação à Trindade e à predestinação (conceito teológico no qual se afirma convictamente que Deus escolhe, sem critérios objetivos, as pessoas que irão se salvar e as que serão condenadas no fogo eterno).

Calvino, assim como santo Agostinho, não tinha a menor dúvida de que a predestinação era algo divino, e não estava disposto a aceitar opiniões divergentes, de sorte que o reformador e o médico trocaram várias correspondências de cunho teológico, até que Calvino desistiu de debater com seu oponente: estava certo de que Servet se encontrava totalmente sob forte heretismo.

Miguel de Servet passou a ser alvo de católicos e protestantes. Fugindo da Inquisição da Igreja Católica na França, foi parar em Genebra (Suíça), onde Calvino presidia o Conselho de Genebra – que tinha por função, dentre outras, a de julgar casos de heresia. Os protestantes não foram menos tolerantes que os rivais católicos: Servet foi julgado à fogueira, embora conste que Calvino opinou no sentido de que o condenado fosse morto por decapitação. Vale destacar ainda que Calvino consultou outros reformadores, inclusive Lutero, e todos concordaram com a condenação de Servet à morte.

A atitude de Calvino parece ir de encontro aos ensinamentos bíblicos, pois, ao invés de defender a condenação por decapitação, Calvino poderia ter dito: “Não podemos julgar esse homem só pelo fato dele pensar diferente de nós”. O certo é que ele agiu exatamente como agiram aqueles a quem tanto o protestantismo tem condenado: o catolicismo histórico, a Inquisição.

A intolerância religiosa de Calvino parecia ir ao extremo: expulsou de Genebra um franciscano que mendigava nas ruas, pedindo comida em nome de Deus e da Virgem Maria. O reformador autorizava invasões aos lares, com o fim de investigar os costumes dos moradores. Foi imposta uma verdadeira ditadura moral: vários foram os casos de mulheres punidas por “má conduta”. Livros foram proibidos e a moda duramente vigiada. Pode-se dizer, seguramente, que as atitudes acima mencionadas em nada devem à histórica intolerância católica, a quem o protestantismo imprime pesadas críticas, uma das quais de agirem sob possessão demoníaca.

Muitos apologistas têm sustentado que Calvino agiu de acordo com o senso e o costume da época, ainda assim persiste a pergunta: é possível conciliar sua atitude com os ensinamentos do Novo Testamento?

Para finalizarmos sobre Calvino, leiamos este texto, de autoria do próprio reformador:

“Quem sustenta que é errado punir hereges e blasfemadores, pois nos tornamos cúmplices de seus crimes (…). Não se trata aqui da autoridade do homem, é Deus que fala (…). Portanto se Ele exigir de nós algo de tão extrema gravidade, para que mostremos que lhe pagamos a honra devida, estabelecendo o seu serviço acima de toda consideração humana, que não poupamos parentes, nem de qualquer sangue, e esquecemos toda a humanidade, quando o assunto é o combate pela Sua glória”.

Não restam dúvidas de que, mesmo agindo em desacordo com a razão e com os preceitos bíblicos para o caso em questão, Calvino crê piamente que está dentro da vontade de Deus, de modo que a condenação de quaisquer eventuais hereges é, segundo sua consciência, um dever, uma obrigação, uma tarefa sacra, quase um sacramento. Por acaso não foi a mesma justificativa dada pela Inquisição durante séculos de história? Como separar o trigo do joio?
 
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Nota: O autor deste blog, embora reprove os fatos supracitados, declara peremptoriamente que tributa à Reforma Protestante um mover de Deus para a humanidade.  Se atentarmos cuidadosamente para o Novo Testamento, vemos que até mesmo os apóstolos, em momentos pontuais, protagonizaram alguns feitos dignos de censura, embora estivessem em plena atividade evangelística. É o caso, por exemplo, do apóstolo Pedro, duramente advertido pessoalmente pelo apóstolo Paulo, quando aquele procedia com dissimulação perante os gentios em Antioquia. Assim, acredita o autor deste blog que esses acontecimentos atribuídos ao reformador não têm o aval neotestamentário, mas acredita que ele tenha sido usado por Deus, em muitos outros momentos, para ser um dos nomes responsáveis por despertar na sociedade de seu tempo os valores espirituais das Escrituras sagradas, há muito esquecidos na época pelo catolicismo dominante.
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HISTÓRIAS POUCO CONTADAS SOBRE MARTINHO LUTERO





Não faltam motivos para se acusar Martinho Lutero - ex-católico e considerado um dos principais reformadores da chamada Reforma Protestante -,  de ter agido, em momentos pontuais, de forma flagrantemente contrária a alguns dos ensinamentos bíblicos, conforme veremos. Preliminarmente, vamos analisar uma frase do próprio Lutero:

"É preciso despedaçá-los, degolá-los e apunhalá-los, em segredo e em público, quem puder fazê-lo, como se tem de matar um cachorro louco. Por isso, prezados senhores, quem aí o possa, salve, apunhale, bata, enforque e, se morrer por isso, morte mais feliz jamais há de poder alcançar."

As palavras acima transcritas, de autoria de Lutero, são uma referência à chamada Guerras Camponesas, uma disputa armada entre nobres e camponeses, que ocorreu na Alemanha, exatamente no tempo da Reforma. Lutero, no caso, ficou do lado dos nobres, cujas palavras acima são dirigidas aos mesmos.

A acusação de que, em dado momento da reforma, ele foi um homem de seu tempo, parece estar materializada quando lemos o que ele escreveu nas 95 Teses: "Seja excomungado e amaldiçoado quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas", embora posteriormente ele tenha mudado de opinião.
 
Outro motivo para críticas em relação a Lutero está no fato dele ter defendido, em dado momento, que a Bíblia era errante. Isso mesmo! Para começar, Lutero acreditava que o cânon do Novo Testamento não havia sido concluído, algo duramente combatido pelos protestantes.

Se isto não bastasse, Lutero chegou a defender ainda que o livro de Tiago, no Novo Testamento, não deveria estar na Bíblia, pois, segundo ele, a dita epístola continha uma teologia consideravelmente inferior a de outros escritores bíblicos, principalmente a de Paulo.

Para Lutero, os ensinamentos de Tiago e Paulo (ambos autores bíblicos) são irreconciliáveis em alguns pontos, principalmente quando se referem à fé e às obras.

Lutero ainda sugeriu que Pedro foi de fato um papa, que este poderia continuar sendo o líder máximo da Igreja, que o purgatório existe, bem como se referia a Maria como "a mãe de Deus", de sorte que todas estas crenças são inegavelmente combatidas pelos protestantes. É bem verdade que essa opinião do reformador se deu num momento de seu próprio amadurecimento enquanto reformador.

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Nota: O autor deste blog, embora reprove os fatos supracitados, declara peremptoriamente que tributa à Reforma Protestante um mover de Deus para a humanidade.  Se atentarmos cuidadosamente para o Novo Testamento, vemos que até mesmo os apóstolos, em momentos pontuais, protagonizaram alguns feitos dignos de censura, embora estivessem em plena atividade evangelística. É o caso, por exemplo, do apóstolo Pedro, duramente advertido pessoalmente pelo apóstolo Paulo, quando aquele procedia com dissimulação perante os gentios em Antioquia. Assim, acredita o autor deste blog que esses acontecimentos atribuídos ao reformador não têm o aval neotestamentário, mas acredita que ele tenha sido usado por Deus, em muitos outros momentos, para ser um dos nomes responsáveis por despertar na sociedade de seu tempo os valores espirituais das Escrituras sagradas, há muito esquecidos na época pelo catolicismo dominante.
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domingo, 27 de março de 2016

“SOCIEDADE ALTERNATIVA”, UM TRIBUTO A ALEISTER CROWLEY. SATANISMO NA MÚSICA DE RAUL SEIXAS. O PROTESTO NA MÚSICA CONTRA A DITADURA MILITAR COMO PANO DE FUNDO PARA IMPLANTAR VALORES OCULTISTAS NO BRASIL. RAUL DEFENDIA MESMO A LIBERDADE DE EXPRESSÃO? NÃO!

 
    Show onde Raul Seixas recita a Lei de Thelema (a partir do 4:20)
 
A canção Sociedade Alternativa, de Raul Seixas, é um tributo que o artista fez a seu guru espiritual, o satanista inglês Aleister Crowley*, que faleceu na década de 1940. Mais do que isso: Raul pretendia colocar em prática, aqui no Brasil, os ideais de seu guru. Uma prova de que o famoso roqueiro se envolveu com práticas satanistas está numa confissão de Paulo Coelho, que recebia instruções de um guru seguidor de Crowley e as repassava para o Raul (veja o vídeo no final desta matéria). No mesmo documentário, temos a imagem da Ordem Ocultista (que passava as instruções ao Raul) cortando o pescoço de um cabrito vivo, com o uso de velas vermelhas, num ritual de magia negra. Estamos falando de uma prova material, não de fofocas.
Até hoje, intelectuais pretendem vincular a canção supracitada unicamente como uma forma de protesto do artista contra a Ditadura Militar. Já repararam na letra da música? Mais do que isso: já ouviram Raul Seixas recitando a Lei de Thelema enquanto cantava Sociedade Alternativa? Pois é, segundo Raul Seixas, fazer o que cada um quer, sem imposições dogmáticas, é tudo da lei (ou seja, a liberdade absoluta é o bem supremo), e concluiu o artista que cada um tem o direito de matar quem pensa diferente da sociedade alternativa. Esse pensamento original não é dele, mas de Crowley, a quem Raul seguia copiosamente.
Consciente ou inconscientemente, enquanto condenava as barbaridades cometidas pelo regime militar, Raul dava seu aval em prol do assassinato de quaisquer opositores à sociedade alternativa como alternativa para manter essa sociedade intacta e feliz, tal qual praticado nos regimes comunistas do século XX (que mataram milhões de pessoas), onde vigorou o ateísmo materialista. Segundo se depreende da referida canção, somente o anarquismo e a completa libertação de valores ligados a Deus poderiam possibilitar a implantação de uma sociedade livre e evoluída. E a Ditadura? A Ditadura mandou o artista para os Estados Unidos, pois foi considerado subversivo. Essa medida ainda dribla, até hoje, os intelectuais que não veem na música citada a filosofia relativista do ativismo ocultista da época, mas apenas a prova de que a canção mencionada nada mais era do que uma contestação ao regime ditatorial.
O protesto contra a Ditadura Militar em Sociedade Alternativa foi apenas o pano de fundo que Raul usou para divulgar e materializar a ideologia de Crowley no Brasil, ainda que, em dado momento, ele próprio deu a entender que entrou nessa “onda” como forma de protesto, embora estivesse convencido de que os ideais de seu guru representassem na prática a evolução da espécie humana. Foi com esse convencimento que Raul recitou, durante um show, o total desprezo pelas leis e pela democracia (pois a democracia pressupõe a convivência com a opinião contrária à da sociedade alternativa, algo que ele não concebia). O que têm os juristas a dizer sobre isso?
Nela, na tão desejada sociedade alternativa, pensar diferente deles (da sociedade alternativa) seria motivo para imediata censura. Que contrassenso! Como alguém que defendia a liberdade de expressão poderia, no mesmo fôlego, condenar à pena de morte a expressão contrária à sua? Liberdade relativa e liberdade absoluta eram diferentes institutos em Raul (a primeira válida para seus opositores e a segunda para os membros da nova sociedade), portanto, a prova materializada de sua estupidez musical, visto que ambos os institutos simbolizavam a efetivação do velho adágio totalitarista que diz: “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a força da lei”. O que têm os defensores dos direitos humanos a dizer sobre isso?
A música Sociedade Alternativa não era, portanto, somente um protesto contra o caos no Brasil da época. Era, antes de tudo, uma clara pretensão de criar uma nova sociedade sem leis, sem regras, sem pudor, onde cada um estivesse livre para banir do meio social qualquer pensamento contrário a ela, podendo até matar, se preciso fosse, nos termos pregados pelo satanismo. Alguém já parou para refletir sobre isso? Por que, enfim, não se pode vincular a referida canção ao satanismo se ela foi escrita exatamente para transmitir a Lei de Thelema? Mas Raul continua sendo exaltado em sua célebre canção – talvez porque muitos ainda não meditaram sobre ela em seu contexto histórico e filosófico. Histórico, porque no ano em que o disco Gitá foi lançado, o país vinha numa onda crescente de divulgação de ideias ligadas à necessidade de se libertar de valores tradicionais (cristãos, para falar a verdade); filosófico, porque entraram em cena teorias que pretendiam justificar a necessidade dessa reviravolta moral. Era o lugar e o tempo perfeito para as bandeiras ocultistas da New Age de Crowley e, portanto, para a música Sociedade Alternativa. Para divagadores, letra e melodia, em tom convidativo, nos remetem à máxima de que a música nada mais é do que a expressão humana despida de interesses do além, o que contribui decisivamente para desvinculá-la do ativismo em prol da New Age, cometendo, assim, o erro de interpretação acerca dos reais propósitos da música Sociedade Alternativa, que eram, na verdade, cultuar o satanismo no Brasil.
Para um ateu, por exemplo, essa historieta que acabamos de dissertar certamente não passa de uma mente fundamentalista (como a nossa?), mas convém lembrar que, enquanto o ateu não crê nessas historietas de satanismo, de ocultismo, há quem acredite e esteja disposto a pagar um preço alto para colocar em prática seus ideais, como foi o caso de Raul Seixas e de tantos outros que acreditam no satanismo e no ocultismo, e ainda pretendem implantar no Brasil uma filosofia relativista, apoiada, entre outras premissas, naquela que ensina que devemos desconfiar de um discurso cristão como o primeiro passo para se buscar e alcançar a verdadeira redenção social, visto que o cristianismo prega a existência de valores imutáveis, como, por exemplo, o de que existe um Deus que deixou não somente regras morais e espirituais claras, mas também a de que devemos rejeitar ideias e valores morais e espirituais que batem de frente com os Dele – sobretudo reconhecer o senhorio de Cristo. Efetivamente, essa é uma ideia que já não faz o menor sentido para muitos modernistas e intelectuais, porém uma realidade para outros.
Enquanto isso, cabras e cabritos (e até bebês recém-nascidos) são mortos em rituais para se colocar em prática essa ideologia anticristã (cuja música pode ser um veículo), no mesmo instante em que o descrente, zombando do cristianismo, opta, como forma de protesto contra o próprio cristianismo, abrir sua boca e berrar: “Viva a sociedade alternativa”, pensando que está fazendo muita coisa pelo Brasil.
Mais do que nunca, crédulos e incrédulos no modelo da New Age parecem seguir harmoniosamente na esperança de sedimentar no Brasil uma sociedade de fato alternativa, mais ou menos parecida com a proclamada por Crowley e Raul Seixas. Mas não é somente satanistas que pretendem um Brasil assim: há quem acredite que seja possível um Brasil exatamente assim, porém sem sangue e sem dor, sem cabras e sem cabritos imolados, bastando para isso derrubar os valores cristãos, seja pela modificação das leis, seja pelo convencimento intelectual de que a sociedade tem que buscar e defender a liberdade absoluta. Nada, como antes, parece estar em sintonia com o hedonismo e o utilitarismo de Stuart Mill como bens supremos a serem tutelados pelo Estado e pela sociedade moderna. Pelo visto, satanistas e intelectuais utilitaristas (não satanistas) estão vestindo a mesma farda futebolística, embora ambos os grupos estejam pisando em gramados completamente diferentes.
Raul acreditava que, para colocar em prática os valores da sociedade alternativa, se fazia necessário banir Deus dessa sociedade, tal qual Marx e Nietzsche criam. Ou seja, Deus e os valores cristãos eram (e ainda são), para a sociedade alternativa, um calo no pé que deve ser banido a todo custo, custe o que custar. O que isso nos lembra nos dias de hoje?
Por que, enfim, a canção Sociedade Alternativa é considerada satanista? A resposta é simples: porque ela foi um tributo ao satanismo, que, embora muitos não creem que exista, outros se dizem seus representantes, os quais têm na referida música suas bandeiras teosóficas. Afora, é claro, a própria mensagem em si. Se a sociedade pacífica reprova o satanismo e a magia negra, por que não reprovamos a canção Sociedade Alternativa e sobretudo a sociedade alternativa proclamada por Crowley e Raul Seixas? Reprovamos, pois, não somente a referida canção como também a sociedade protagonizada em sua letra.
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* Parte do rock pesado dos anos 60 e 70 foi inspirado nos ensinos de Aleister Crowley. É o caso, por exemplo, dos Beatles, de Iron Maiden, dos Rolling Stones, de Raul Seixas e de tantos outros.
 
 
Documentário sobre a relação entre Raul Seixas e o satanismo.
 
 
Imagem de um Disco de Raul Seixas
No detalhe, velas usadas na magia negra



domingo, 6 de março de 2016

FRAUDES LITERÁRIAS NA ANTIGUIDADE: GALENO, ATOS DE PILATOS, AS GRANDES QUESTÕES DE MARIA, PLATÃO, ETC.

Imagem da internet

Embora a circulação de livros na Antiguidade fosse bem menor do que atualmente, as fraudes literárias se faziam presentes. Segundo o professor Dr. Bart D. Ehrman, havia pelo menos 10 razões que motivavam essas fraudes: para gerar lucros; para se opor a um inimigo; para contestar determinado ponto de vista; para defender a ideia de que sua própria tradição tinha inspiração divina; por humildade; por amor a um personagem com autoridade; para ver se era possível enganar; para complementar a tradição; para contestar outras fraudes e para dar autoridade aos pontos de vista de alguém.
 
Essas fraudes são conhecidas graças às referências deixadas nos escritos de Heródoto, Cícero, Quintiliano, Marcial, Suetônio, Plutarco, Galeno, Filastrato, Diógenes Laércio. Entre os escritores cristãos da Antiguidade, temos citações em Irineu, Tertuliano, Orígenes, Eusébio, Jerônimo, Rufino e Agostinho. 
 
Galeno (129 - 217), famoso médico romano, narrou que, certa vez, enquanto andava pelas ruas de Roma, chegou a uma banca de um vendedor de livros e lá estavam dois homens dialogando sobre o título de um livro de nome Galeno, divergindo os contendentes sobre a autoria do livro. Um alegava que a obra era da pena do próprio Galeno, ao passo que o outro discordava incisivamente. A partir daí, Galeno produziu um pequeno livro intitulado Como reconhecer os livros de Galeno.
 
As Bibliotecas de Alexandria e de Pérgamo, as maiores do mundo antigo, tinham o costume de adquirir obras de vendedores e colecionadores, o que motivava alguns empreendedores a copiarem obras literárias, de preferência os clássicos na época. Tal condição, ao que parece, contribuiu para a adulteração de alguns livros.
 
Diógenes Laécio, talvez o principal doxógrafo da filosofia grega, cita que um tal Diotemo distribuiu 50 cartas supostamente atribuídas a Epicuro, contribuindo de forma significativa para uma má reputação do filósofo grego.
 
Epifânio, bispo da cidade de Salamina no século IV, confessou que havia lido um livro supostamente usado pelos fibionitas (não confundir com ebionitas), grupo cristão herege marcado pela imoralidade sexual. O livro, cujo título era As grandes questões de Maria, continha relatos bizarros sobre a relação entre Jesus e Maria Madalena, apontando que certa vez Jesus a levou até um alto monte e, na presença dela, tirou uma mulher de dentro de si (ou seja, dentro do próprio Jesus), no entorno das costelas, passando em seguida a manter relações com ela, ou seja, com a mulher que saíra de dentro dele. Após atingir o orgasmo, Jesus teria comido o próprio esperma, proferindo em seguida as seguintes palavras: "Isto temos de fazer para viver". Ao presenciar a dolorosa cena, Maria Madalena teria desmaiado. Segundo alguns historiadores, Epifânio tinha o hábito de inventar informações, de modo que esse relato é contado unicamente por ele, sem outra referência na história.
 
Não se sabe se Platão, afamado filósofo grego, foi fiel ao relato histórico que ele traz no diálogo Fédon, quando narra em detalhes e em longas páginas as últimas horas de Sócrates antes de morrer. Platão não se achava junto a Sócrates porque estava doente, colhendo da boca de Fédon os mínimos detalhes do relato. Quem já leu Fédon, sabe que é de pouca probabilidade que aquele relato, tal qual se mostra em sua sequência cronológica, tenha sido fiel a todo o diálogo travado naquela infausta ocasião.
 
Tertuliano, apologista cristão nascido no segundo século e falecido no século seguinte, afirma que as conhecidas histórias do apóstolo Paulo e sua (suposta) discípula Tecla foram forjadas por um líder de uma igreja da Ásia Menor, que teria sido pego em flagrante. Em represália, foi destituído de seu cargo, embora tenha justificado que todo o esforço intelectual se devia a seu amor ao apóstolo.
 
Um senador romano, do primeiro século, teria escrito uma carta onde narra a fisionomia de Jesus, declarando que Ele era alto e tinha o cabelo da cor de vinho. De forma parecida, uma epístola do segundo século descrevia o apóstolo Paulo como um homem baixo e de pernas ligeiramente tortas (tratamos das duas descrições em detalhes em outra postagem neste blog, de 03.04.2011). Obviamente não são aceitas nem por cristãos nem por acadêmicos.
 
Uma das mais conhecidas fraudes no meio cristão de que se tem notícia, aponta para o início e final do século IV. Poucos anos do Edito de Milão (313 d.C.), um imperador romano, tentando desprestigiar o movimento ascendente do cristianismo, forjou uma obra, intitulando-a de Atos de Pilatos, na qual tentava mostrar as origens do cristianismo. O conteúdo revelava grosseiros erros históricos, conforme demonstrado poucos anos depois. No final do século, desta vez pelas mãos de cristãos, vem à tona novo Atos de Pilatos, porém destituído de credibilidade tal qual o primeiro.

A importância desse título se devia em especial pelo fato do estudioso da filosofia grega e cristão, Justino Mártir, ter feito menção, por volta do ano 155 d.C., à existência de registros oficiais do Império Romano constando alguns feitos de Jesus Cristo, cujo assento se achava nos Atos de Pilatos, onde eram registrados os atos públicos de Pilatos. Na ocasião, Justino desafiou o então imperador Antonino Pio a consultar os referidos Atos, conforme se acha em sua obra Apologia,  a fim de que o imperador verificasse o próprio assentamento como prova histórica (e até divina, segundo Justino) da existência de Jesus. Sobre o primeiro Atos de Pilatos, que se tratava de um registro público do Império, nada se sabe nos dias hoje visto que não ficou preservado para a posteridade. Está documentalmente provado que os gestores provinciais romanos tinham expressa determinação do imperador para registrar seus feitos, conhecidos tradicionalmente como "Atos" seguido do nome do gestor. As fraudes, portanto, foram aquelas do quarto século e não a do início do primeiro século, a que Justino fez menção.