terça-feira, 21 de março de 2017

A INVENÇÃO DO PAPADO DE SÃO PEDRO

 
 

 
CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A Igreja Católica tem sustentado que Pedro foi o primeiro Papa da igreja. Também nega que Joana tenha sido Papisa. Duas tentativas frustradas da Igreja! Já vimos, em outra matéria, como a referida Papisa chegou ao trono e, agora, vamos falar sobre relatos que inviabilizam a pretensão de se afirmar que os quatro primeiros papas foram respectivamente Pedro, Lino, Anacleto e Clemente. Vamos ver o que diz a Bíblia e, em seguida, o relato de um dos principais nomes do século IV sobre a historiografia da igreja primitiva. 

 
O QUE DIZ A BÍBLIA? 

A Bíblia não traz a nomenclatura “papa”, tampouco afirma que Pedro exerceu alguma liderança em Roma. Por volta do ano 58 d.C., o apóstolo Paulo escreveu uma carta aos irmãos que se congregavam em Roma, porém em nenhum momento cita o apóstolo Pedro, demonstrando que, até à ocasião da remessa daquela carta, Pedro sequer tinha alguma ligação próxima com a cidade de Roma. Todavia, o fato da Bíblia silenciar nesse sentido não significa necessariamente que Pedro não tenha estado em Roma depois desta data, o que também é pouco provável, pois, quando o apóstolo Paulo escreveu várias cartas enquanto estava preso em Roma, sequer menciona o nome de Pedro. Nessa época, que gira em torno de 61 d.C. a 64 d.C., também Pedro não é citado por Paulo. Segundo a tradição, os dois apóstolos morreram em Roma: o primeiro em torno de 64 d.C. e o segundo três anos depois.
O que a Bíblia deixa textualmente expresso é que, por algumas vezes, Pedro fez o papel de um líder por ocasião da escolha do apóstolo Matias (em substituição a Judas), mas não de (ou em) Roma, bem como tomou a palavra inicial no caso envolvendo Ananias e Safira e, juntamente com João e Tiago, eram considerados a coluna da igreja, mas sem nenhuma ligação com Roma.
Convém destacar que, na igreja primitiva, as igrejas funcionavam nos lares, à margem do Império Romano. Não havia uma organização institucional, havendo, no máximo, algumas lideranças locais, o que confronta significativamente com a proposta católica em questão.

TU ÉS PEDRO, E SOBRE ESTA PEDRA EDIFICAREI A MINHA IGREJA (MT 16:13-23)

No referido texto, Jesus não está delegando a Pedro as chaves da igreja, mas declarando que a igreja será assentada sobre a verdade que saiu da boca de Pedro acerca de Jesus. No grego, Jesus se refere a Pedro como pedra pequena, enquanto se refere à verdade proclamada por Pedro como uma grande rocha maciça. Jesus também não conferiu a Pedro nenhuma infalibilidade enquanto atuasse no ministério, tanto é que, poucos versículos adiante, Jesus repreendeu duramente a Pedro por ele ter sido um canal de mensagem diabólica. Anos depois, o apóstolo Paulo também repreendeu duramente a Pedro enquanto este atuava no ministério de levar a palavra para os judeus. 
Passemos, agora, a tratar dos escritos de Eusébio de Cesaréia (269 – 339 d.C.). 
O RELATO DE EUSÉBIO DE CESARÉIA (SÉCULO IV) 

Em História Eclesiástica, Eusébio de Cesaréia (269 – 339 d.C.) escreveu que "Depois do martírio de Paulo e de Pedro, o primeiro a ser eleito para o episcopado da Igreja de Roma foi Lino" (Livro III, 2:1). Essa é uma fonte utilizada pelo catolicismo para declarar que Lino foi o papa sucessor de Pedro. Vamos aos fatos.
 
Notemos, preliminarmente, que Eusébio não faz menção ao papado, mas ao episcopado, que é uma forma administrativa onde o líder maior é um bispo. Sumariamente falando, podemos afirmar que, no início, Roma não era governada por um papa, mas por um bispo, que exercia uma liderança local ou regional, fenômeno observado não somente em relação a Roma, mas também em relação a outros centros urbanos, como Alexandria, Constantinopla e Antioquia, cujas cidades (incluindo Roma), se tornaram, em termos episcopais, as mais famosas e as mais respeitadas nos primeiros séculos.

Voltemos à leitura de Eusébio. No mesmo Livro (4:8), o historiador registrou que "já foi demonstrado anteriormente que [Lino] foi designado para o episcopado da igreja de Roma, o primeiro depois de Pedro". Convenhamos que essa afirmação de Eusébio sugere que Pedro exerceu de fato alguma liderança em Roma. No entanto, afora a análise dos registros bíblicos, os quais deixam pouquíssima margem para se acreditar que Pedro tenha sequer estado em Roma, essa descrição de Eusébio, por si só, em nada ajuda a apologia dos católicos, para os quais o fato do autor se expressar nesses termos – ou seja, enfatizando a Igreja de Roma –, tem força probante para demonstrar que a referida cidade era a sede do papado desde os apóstolos. O que é verdade, de fato, é que, no século IV, quando a obra do autor foi produzida, a Igreja de Roma já exercia considerável respeitabilidade em relação às demais, embora não houvesse relação hierárquica com as outras, porém, não há uma única demonstração historiográfica que dê margem para se acreditar que Roma fosse a sede do cristianismo no século dos apóstolos, tampouco que a igreja de Roma exercia alguma superioridade em relação às demais, derrubando, de pronto, a tese romana em debate.
 
Conforme dissemos, não havia hierarquia entre as igrejas cristãs no primeiro século, o que é suficiente para desvincular uma governança universal de Roma em relação aos demais centros eclesiásticos. Só para se ter uma ideia, não há registro de que nos dois primeiros séculos havia uma igreja institucionalizada, com templos próprios e tudo mais. As reuniões ocorriam no lar dos crentes. E o mais curioso é que no primeiro século não se cogitava minimamente a possibilidade de uma hierarquia eclesiástica entre cidades, enterrando de vez a pretensão de se afirmar que Pedro, ainda que tenha exercido alguma liderança na igreja de Roma, tenha sido o primeiro líder da Igreja universal.
 
O RELATO DE EUSÉBIO DEPÕE CONTRA A PRIMAZIA DO PAPADO DE PEDRO
 
Ademais, notemos que Eusébio diz que é depois do martírio de Paulo e de Pedro que Lino foi eleito bispo para a Igreja de Roma. Sabe o que isso pode muito bem significar? Que Eusébio estaria consignando que Paulo e Pedro teriam exercido alguma liderança em Roma: primeiro Paulo, depois Pedro, daí a razão de Eusébio assinalar que o episcopado de Lino começou depois de Pedro, por sua vez citado depois de Paulo. Que razão teria o autor ao enfatizar que a liderança de Lino somente começou depois da morte de Paulo e de Pedro, e não somente depois da morte de Pedro? Ora, se é lícito usar Eusébio como fonte histórica de que Lino foi líder da Igreja em Roma depois de Pedro, igualmente é concebível afirmar que Pedro o foi depois de Paulo, derrubando a argumentação de que Pedro foi o primeiro líder. Se o relato de Eusébio é fiel, então teremos que admitir que a liderança local não foi inicialmente de Pedro, mas de Paulo. Logo, o primeiro Papa seria Paulo, e não Pedro. Do mesmo modo, quando se afirma que Anacleto assumiu a Igreja de Roma depois da morte de Lino, isso não significa dizer que Lino foi o primeiro, mas seu antecessor. De igual modo - enfatizamos -, necessariamente Pedro não foi o primeiro líder local daquela comunidade, mas o primeiro antes de Lino (na hipótese dele ter sido), visto que, pelas palavras de Eusébio, Paulo antecedeu a Pedro.
 
A NOMENCLATURA “EPISCOPADO
 
A nomenclatura "episcopado" é uma referência ao bispo. Eusébio diz que Lino foi designado bispo depois de Pedro que, por sua vez, era apóstolo. Havia, portanto, hierarquia entre ambos os personagens, mas não entre comunidades eclesiásticas. De igual modo, Pedro, como apóstolo, não detinha superioridade em relação aos demais apóstolos. Todo historiador dotado de honestidade intelectual sabe que, nos primórdios da Igreja do primeiro século, não havia hierarquia entre os pequenos núcleos cristãos, os quais, diga-se em bom tempo, viviam correndo das garras do Império. A pretensão de colocar Pedro como primeiro líder da Igreja implicaria inevitavelmente reconhecer que Roma, no primeiro século, exerceu a liderança universal dessa Igreja, o que sabemos que não é verdade, pois não há um único documento histórico nesse sentido, bem assim teríamos que reconhecer, pelas palavras de Eusébio, que Paulo foi líder anterior a Pedro, o que não é admitido entre os católicos. 
Devemos perceber, mais ainda, que Eusébio é enfático ao afirmar que Clemente foi escolhido o terceiro bispo de Roma, o que demonstra que, ainda no início do quarto século, a nomenclatura usada para um líder local era Bispo. Em nenhum momento Eusébio (ou qualquer outro escritor) vai afirmar que esse bispado tinha natureza universal, mas, pelo contrário, deixa evidente que se tratava de uma liderança local, o que demonstra, mais uma vez, a falibilidade da pretensão católica de achar que Pedro foi um líder geral.
 
POR QUE ROMA SE TORNOU O CENTRO DA SEDE EPISCOPAL?
 
Resta sabermos as razões por que Roma se transformou no centro administrativo da Igreja. A resposta é esta: por causa do Império Romano, haja vista que Roma era a sua capital. Ou seja, como a capital do Império era em Roma, o prestígio da presença do imperador naquela cidade elevou, gradativamente, a importância da igreja que ficava em Roma em relação às demais igrejas. Com o passar dos séculos, estando a Igreja Católica entregue à apostasia, consolidou-se em definitivo a sede da igreja naquela cidade, bem assim a ideia de que Pedro foi o primeiro papa.
 
O próprio Eusébio atesta, no início do século IV, a evolução histórica da primazia do episcopado romano, tanto que, comentando sobre a autenticidade da autoria de Paulo em relação à epístola aos Hebreus, assim registrou: "Contudo, não é justo ignorar que alguns rechaçaram a carta aos Hebreus, dizendo que a Igreja de Roma não a admite por crer que não é de Paulo". Por que Eusébio se refere à "Igreja de Roma", e não somente à "Igreja"? A resposta é óbvia: porque, no início do século IV (quando Eusébio escreveu o livro), a Igreja de Roma já exercia relevante prestígio em relação às demais, diferentemente da época dos apóstolos. Em outras palavras, no início do quarto século, antes mesmo dos Concílios de Nicéia (325), de Constantinopla (381) e de Hipona (393), já se tinha a firme convicção de que a Igreja de Roma já exercia um alto grau de respeitabilidade entre as demais igrejas, daí o porquê do autor enfatizar que foi a Igreja de Roma (e não toda a comunidade cristã) que não quis aceitar a referida epístola aos Hebreus, embora não esteja demonstrado que ela (Roma) exercia uma liderança hierarquicamente universal, mesmo naquele século, quanto mais no primeiro. Uma coisa era a Igreja de Roma do quarto século, e outra bem diferente era a do primeiro século.
 
Assim, para compor a lista dos papas, a Igreja do quarto século em diante (quando de fato nasceu a Igreja Católica) tinha que escolher uma sede papal e o fez olhando para Roma, que tradicional e lentamente, se impôs como sede episcopal (não papal), daí o porquê dos bispos romanos aparecerem como sendo papas, ao passo que os bispos de outros centros administrativos foram silenciados nesse sentido.

Se Lino, Anacleto e Clemente foram papas, indiscutivelmente havia papas simultaneamente em Éfeso, Antioquia, Alexandria, Galácia, Tessalônica, Corinto, etc., pela simples razão de que nesses centros urbanos também havia lideranças episcopais, porém sem distinção hierárquica em relação às outras, nem mesmo em relação a Roma, como já vimos. E cá para nós: nenhum líder católico vai advogar que na igreja era comum a existência de vários papas simultaneamente. Em suma: ser líder cristão na Igreja de Roma no primeiro século não significava nada em relação às igrejas que ficavam nos outros centros urbanos.

AFINAL DE CONTAS, EUSÉBIO É FIEL À HISTÓRIA?
As descrições da Bíblia e de Eusébio não são mutuamente excludentes, por quatro razões principais: uma, porque Eusébio não trata de papado, mas de episcopado e, como bem se sabe, a Bíblia fala do cargo de bispo; duas, porque Eusébio deixa claro que a (suposta) liderança foi apenas local e, conforme sabemos, havia lideranças locais na igreja primitiva; três, porque a cronologia bíblica dá uma ligeira margem para se acreditar que Pedro tenha estado em Roma, embora não haja provas disso; quatro, porque não é de todo improvável que, ao estar em Roma (ainda que para ser crucificado), Pedro tenha sido visto pela igreja como um líder para aquele rebanho sem que, concretamente, tivesse de fato exercido essa liderança local (esta hipótese também remete à possibilidade de Paulo ter sido recepcionado pela igreja de Roma como um líder, daí o porquê de Eusébio considerá-lo anterior a Pedro). Entretanto, é importante destacar que tanto a Bíblia como Eusébio não confirmam a existência de uma liderança universal na igreja apostólica, o que fatalmente põe em descrédito a militância católica que pensa o inverso.
PAULO E PEDRO NÃO FORAM LÍDERES LOCAIS EM ROMA
Certamente os dois apóstolos não foram, efetivamente, líderes locais de Roma. O que muito provavelmente aconteceu foi o seguinte: a igreja daquela cidade enxergou os dois como seus líderes pelo simples fato deles serem apóstolos e por terem sido mortos em Roma, conforme narra a tradição ou, mais provavelmente ainda, as gerações futuras depois daquela que conviveu com os apóstolos se apegaram à tradição de que ambos foram líderes da igreja daquela localidade. No caso de Paulo, diferentemente de Pedro, chegou a residir em Roma, em prisão domiciliar, no final de sua vida, inclusive com liberdade para receber visitas e interagir com os irmãos (Atos 28:30-31), o que pode ter motivado Eusébio interpretar que ele chegou a liderar a igreja de Roma.