sexta-feira, 7 de julho de 2017

DECRETO DO CONCÍLIO DE TRENTO SOBRE AS INDULGÊNCIAS



"Havendo Jesus Cristo concedido à sua Igreja o poder de conceder indulgência, e tendo a Igreja usado desta faculdade que Deus lhe concedeu, desde os tempos mais remotos; ensina e ordena o sacrossanto Concílio que o uso das indulgências, sumamente proveitosa ao povo cristão, e aprovado pela autoridade dos sagrados concílios, deve conservar-se pela Igreja, e fulmina o anátema contra os que, ou afirmam serem elas inúteis, ou neguem que a Igreja tenha poderes para concedê-las.
Não obstante, deseja que se proceda à moderação na sua concessão, segundo o antigo e aprovado costume da Igreja; a fim de que, pela facilidade de concedê-la não decaia a disciplina eclesiástica. E ansiando para que se emendem e corrijam os abusos que se introduziram nelas, motivo que leva os hereges a blasfemarem contra elas; estabelece em geral, pelo presente decreto, que se exterminem de forma absoluta todos os lucros ilícitos que se cobram dos fiéis para que as consigam; pois disto se originaram muitos abusos do povo cristão.
E não podendo proibir-se fácil e individualmente os demais abusos que se originaram da superstição, ignorância, irreverência, ou de outra causa qualquer, pelas muitas corruptelas dos lugares e províncias em que se cometem; manda a todos os bispos que cada um anote estes abusos em sua igreja, e os faça presentes no primeiro concílio provincial, para que, conhecidos e qualificados pelos outros bispos, sejam imediatamente delatados ao sumo pontífice romano, por cuja autoridade e prudência se estabelecerá o que for conveniente para a Igreja Universal; e deste modo se possa repartir a todos os fiéis, piedosa, santa e integralmente o tesouro das indulgências.
(Sessão XXV do Concílio de Trento, 4 de dezembro de 1563)."
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Fonte: História moderna através de textos, págs. 121-122.

terça-feira, 21 de março de 2017

A INVENÇÃO DO PAPADO DE SÃO PEDRO

 
 

 
CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A Igreja Católica tem sustentado que Pedro foi o primeiro Papa da igreja. Também nega que Joana tenha sido Papisa. Duas tentativas frustradas da Igreja! Já vimos, em outra matéria, como a referida Papisa chegou ao trono e, agora, vamos falar sobre relatos que inviabilizam a pretensão de se afirmar que os quatro primeiros papas foram respectivamente Pedro, Lino, Anacleto e Clemente. Vamos ver o que diz a Bíblia e, em seguida, o relato de um dos principais nomes do século IV sobre a historiografia da igreja primitiva. 

 
O QUE DIZ A BÍBLIA? 

A Bíblia não traz a nomenclatura “papa”, tampouco afirma que Pedro exerceu alguma liderança em Roma. Por volta do ano 58 d.C., o apóstolo Paulo escreveu uma carta aos irmãos que se congregavam em Roma, porém em nenhum momento cita o apóstolo Pedro, demonstrando que, até à ocasião da remessa daquela carta, Pedro sequer tinha alguma ligação próxima com a cidade de Roma. Todavia, o fato da Bíblia silenciar nesse sentido não significa necessariamente que Pedro não tenha estado em Roma depois desta data, o que também é pouco provável, pois, quando o apóstolo Paulo escreveu várias cartas enquanto estava preso em Roma, sequer menciona o nome de Pedro. Nessa época, que gira em torno de 61 d.C. a 64 d.C., também Pedro não é citado por Paulo. Segundo a tradição, os dois apóstolos morreram em Roma: o primeiro em torno de 64 d.C. e o segundo três anos depois.
O que a Bíblia deixa textualmente expresso é que, por algumas vezes, Pedro fez o papel de um líder por ocasião da escolha do apóstolo Matias (em substituição a Judas), mas não de (ou em) Roma, bem como tomou a palavra inicial no caso envolvendo Ananias e Safira e, juntamente com João e Tiago, eram considerados a coluna da igreja, mas sem nenhuma ligação com Roma.
Convém destacar que, na igreja primitiva, as igrejas funcionavam nos lares, à margem do Império Romano. Não havia uma organização institucional, havendo, no máximo, algumas lideranças locais, o que confronta significativamente com a proposta católica em questão.

TU ÉS PEDRO, E SOBRE ESTA PEDRA EDIFICAREI A MINHA IGREJA (MT 16:13-23)

No referido texto, Jesus não está delegando a Pedro as chaves da igreja, mas declarando que a igreja será assentada sobre a verdade que saiu da boca de Pedro acerca de Jesus. No grego, Jesus se refere a Pedro como pedra pequena, enquanto se refere à verdade proclamada por Pedro como uma grande rocha maciça. Jesus também não conferiu a Pedro nenhuma infalibilidade enquanto atuasse no ministério, tanto é que, poucos versículos adiante, Jesus repreendeu duramente a Pedro por ele ter sido um canal de mensagem diabólica. Anos depois, o apóstolo Paulo também repreendeu duramente a Pedro enquanto este atuava no ministério de levar a palavra para os judeus. 
Passemos, agora, a tratar dos escritos de Eusébio de Cesaréia (269 – 339 d.C.). 
O RELATO DE EUSÉBIO DE CESARÉIA (SÉCULO IV) 

Em História Eclesiástica, Eusébio de Cesaréia (269 – 339 d.C.) escreveu que "Depois do martírio de Paulo e de Pedro, o primeiro a ser eleito para o episcopado da Igreja de Roma foi Lino" (Livro III, 2:1). Essa é uma fonte utilizada pelo catolicismo para declarar que Lino foi o papa sucessor de Pedro. Vamos aos fatos.
 
Notemos, preliminarmente, que Eusébio não faz menção ao papado, mas ao episcopado, que é uma forma administrativa onde o líder maior é um bispo. Sumariamente falando, podemos afirmar que, no início, Roma não era governada por um papa, mas por um bispo, que exercia uma liderança local ou regional, fenômeno observado não somente em relação a Roma, mas também em relação a outros centros urbanos, como Alexandria, Constantinopla e Antioquia, cujas cidades (incluindo Roma), se tornaram, em termos episcopais, as mais famosas e as mais respeitadas nos primeiros séculos.

Voltemos à leitura de Eusébio. No mesmo Livro (4:8), o historiador registrou que "já foi demonstrado anteriormente que [Lino] foi designado para o episcopado da igreja de Roma, o primeiro depois de Pedro". Convenhamos que essa afirmação de Eusébio sugere que Pedro exerceu de fato alguma liderança em Roma. No entanto, afora a análise dos registros bíblicos, os quais deixam pouquíssima margem para se acreditar que Pedro tenha sequer estado em Roma, essa descrição de Eusébio, por si só, em nada ajuda a apologia dos católicos, para os quais o fato do autor se expressar nesses termos – ou seja, enfatizando a Igreja de Roma –, tem força probante para demonstrar que a referida cidade era a sede do papado desde os apóstolos. O que é verdade, de fato, é que, no século IV, quando a obra do autor foi produzida, a Igreja de Roma já exercia considerável respeitabilidade em relação às demais, embora não houvesse relação hierárquica com as outras, porém, não há uma única demonstração historiográfica que dê margem para se acreditar que Roma fosse a sede do cristianismo no século dos apóstolos, tampouco que a igreja de Roma exercia alguma superioridade em relação às demais, derrubando, de pronto, a tese romana em debate.
 
Conforme dissemos, não havia hierarquia entre as igrejas cristãs no primeiro século, o que é suficiente para desvincular uma governança universal de Roma em relação aos demais centros eclesiásticos. Só para se ter uma ideia, não há registro de que nos dois primeiros séculos havia uma igreja institucionalizada, com templos próprios e tudo mais. As reuniões ocorriam no lar dos crentes. E o mais curioso é que no primeiro século não se cogitava minimamente a possibilidade de uma hierarquia eclesiástica entre cidades, enterrando de vez a pretensão de se afirmar que Pedro, ainda que tenha exercido alguma liderança na igreja de Roma, tenha sido o primeiro líder da Igreja universal.
 
O RELATO DE EUSÉBIO DEPÕE CONTRA A PRIMAZIA DO PAPADO DE PEDRO
 
Ademais, notemos que Eusébio diz que é depois do martírio de Paulo e de Pedro que Lino foi eleito bispo para a Igreja de Roma. Sabe o que isso pode muito bem significar? Que Eusébio estaria consignando que Paulo e Pedro teriam exercido alguma liderança em Roma: primeiro Paulo, depois Pedro, daí a razão de Eusébio assinalar que o episcopado de Lino começou depois de Pedro, por sua vez citado depois de Paulo. Que razão teria o autor ao enfatizar que a liderança de Lino somente começou depois da morte de Paulo e de Pedro, e não somente depois da morte de Pedro? Ora, se é lícito usar Eusébio como fonte histórica de que Lino foi líder da Igreja em Roma depois de Pedro, igualmente é concebível afirmar que Pedro o foi depois de Paulo, derrubando a argumentação de que Pedro foi o primeiro líder. Se o relato de Eusébio é fiel, então teremos que admitir que a liderança local não foi inicialmente de Pedro, mas de Paulo. Logo, o primeiro Papa seria Paulo, e não Pedro. Do mesmo modo, quando se afirma que Anacleto assumiu a Igreja de Roma depois da morte de Lino, isso não significa dizer que Lino foi o primeiro, mas seu antecessor. De igual modo - enfatizamos -, necessariamente Pedro não foi o primeiro líder local daquela comunidade, mas o primeiro antes de Lino (na hipótese dele ter sido), visto que, pelas palavras de Eusébio, Paulo antecedeu a Pedro.
 
A NOMENCLATURA “EPISCOPADO
 
A nomenclatura "episcopado" é uma referência ao bispo. Eusébio diz que Lino foi designado bispo depois de Pedro que, por sua vez, era apóstolo. Havia, portanto, hierarquia entre ambos os personagens, mas não entre comunidades eclesiásticas. De igual modo, Pedro, como apóstolo, não detinha superioridade em relação aos demais apóstolos. Todo historiador dotado de honestidade intelectual sabe que, nos primórdios da Igreja do primeiro século, não havia hierarquia entre os pequenos núcleos cristãos, os quais, diga-se em bom tempo, viviam correndo das garras do Império. A pretensão de colocar Pedro como primeiro líder da Igreja implicaria inevitavelmente reconhecer que Roma, no primeiro século, exerceu a liderança universal dessa Igreja, o que sabemos que não é verdade, pois não há um único documento histórico nesse sentido, bem assim teríamos que reconhecer, pelas palavras de Eusébio, que Paulo foi líder anterior a Pedro, o que não é admitido entre os católicos. 
Devemos perceber, mais ainda, que Eusébio é enfático ao afirmar que Clemente foi escolhido o terceiro bispo de Roma, o que demonstra que, ainda no início do quarto século, a nomenclatura usada para um líder local era Bispo. Em nenhum momento Eusébio (ou qualquer outro escritor) vai afirmar que esse bispado tinha natureza universal, mas, pelo contrário, deixa evidente que se tratava de uma liderança local, o que demonstra, mais uma vez, a falibilidade da pretensão católica de achar que Pedro foi um líder geral.
 
POR QUE ROMA SE TORNOU O CENTRO DA SEDE EPISCOPAL?
 
Resta sabermos as razões por que Roma se transformou no centro administrativo da Igreja. A resposta é esta: por causa do Império Romano, haja vista que Roma era a sua capital. Ou seja, como a capital do Império era em Roma, o prestígio da presença do imperador naquela cidade elevou, gradativamente, a importância da igreja que ficava em Roma em relação às demais igrejas. Com o passar dos séculos, estando a Igreja Católica entregue à apostasia, consolidou-se em definitivo a sede da igreja naquela cidade, bem assim a ideia de que Pedro foi o primeiro papa.
 
O próprio Eusébio atesta, no início do século IV, a evolução histórica da primazia do episcopado romano, tanto que, comentando sobre a autenticidade da autoria de Paulo em relação à epístola aos Hebreus, assim registrou: "Contudo, não é justo ignorar que alguns rechaçaram a carta aos Hebreus, dizendo que a Igreja de Roma não a admite por crer que não é de Paulo". Por que Eusébio se refere à "Igreja de Roma", e não somente à "Igreja"? A resposta é óbvia: porque, no início do século IV (quando Eusébio escreveu o livro), a Igreja de Roma já exercia relevante prestígio em relação às demais, diferentemente da época dos apóstolos. Em outras palavras, no início do quarto século, antes mesmo dos Concílios de Nicéia (325), de Constantinopla (381) e de Hipona (393), já se tinha a firme convicção de que a Igreja de Roma já exercia um alto grau de respeitabilidade entre as demais igrejas, daí o porquê do autor enfatizar que foi a Igreja de Roma (e não toda a comunidade cristã) que não quis aceitar a referida epístola aos Hebreus, embora não esteja demonstrado que ela (Roma) exercia uma liderança hierarquicamente universal, mesmo naquele século, quanto mais no primeiro. Uma coisa era a Igreja de Roma do quarto século, e outra bem diferente era a do primeiro século.
 
Assim, para compor a lista dos papas, a Igreja do quarto século em diante (quando de fato nasceu a Igreja Católica) tinha que escolher uma sede papal e o fez olhando para Roma, que tradicional e lentamente, se impôs como sede episcopal (não papal), daí o porquê dos bispos romanos aparecerem como sendo papas, ao passo que os bispos de outros centros administrativos foram silenciados nesse sentido.

Se Lino, Anacleto e Clemente foram papas, indiscutivelmente havia papas simultaneamente em Éfeso, Antioquia, Alexandria, Galácia, Tessalônica, Corinto, etc., pela simples razão de que nesses centros urbanos também havia lideranças episcopais, porém sem distinção hierárquica em relação às outras, nem mesmo em relação a Roma, como já vimos. E cá para nós: nenhum líder católico vai advogar que na igreja era comum a existência de vários papas simultaneamente. Em suma: ser líder cristão na Igreja de Roma no primeiro século não significava nada em relação às igrejas que ficavam nos outros centros urbanos.

AFINAL DE CONTAS, EUSÉBIO É FIEL À HISTÓRIA?
As descrições da Bíblia e de Eusébio não são mutuamente excludentes, por quatro razões principais: uma, porque Eusébio não trata de papado, mas de episcopado e, como bem se sabe, a Bíblia fala do cargo de bispo; duas, porque Eusébio deixa claro que a (suposta) liderança foi apenas local e, conforme sabemos, havia lideranças locais na igreja primitiva; três, porque a cronologia bíblica dá uma ligeira margem para se acreditar que Pedro tenha estado em Roma, embora não haja provas disso; quatro, porque não é de todo improvável que, ao estar em Roma (ainda que para ser crucificado), Pedro tenha sido visto pela igreja como um líder para aquele rebanho sem que, concretamente, tivesse de fato exercido essa liderança local (esta hipótese também remete à possibilidade de Paulo ter sido recepcionado pela igreja de Roma como um líder, daí o porquê de Eusébio considerá-lo anterior a Pedro). Entretanto, é importante destacar que tanto a Bíblia como Eusébio não confirmam a existência de uma liderança universal na igreja apostólica, o que fatalmente põe em descrédito a militância católica que pensa o inverso.
PAULO E PEDRO NÃO FORAM LÍDERES LOCAIS EM ROMA
Certamente os dois apóstolos não foram, efetivamente, líderes locais de Roma. O que muito provavelmente aconteceu foi o seguinte: a igreja daquela cidade enxergou os dois como seus líderes pelo simples fato deles serem apóstolos e por terem sido mortos em Roma, conforme narra a tradição ou, mais provavelmente ainda, as gerações futuras depois daquela que conviveu com os apóstolos se apegaram à tradição de que ambos foram líderes da igreja daquela localidade. No caso de Paulo, diferentemente de Pedro, chegou a residir em Roma, em prisão domiciliar, no final de sua vida, inclusive com liberdade para receber visitas e interagir com os irmãos (Atos 28:30-31), o que pode ter motivado Eusébio interpretar que ele chegou a liderar a igreja de Roma.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O DIA EM QUE A ADVOCACIA, O JUDICIÁRIO E AS FORÇAS ARMADAS BRASILEIRAS CAÍRAM AOS PÉS DE UM ÚNICO POLÍTICO



Imagem da internet


A recente desobediência do Senado Federal brasileiro frente a uma ordem judicial emanada do Supremo Tribunal Federal para retirar o senador Renan Calheiros da Presidência daquela Casa (Senado) repercutiu de forma bastante negativa nas redes sociais, e ainda nos fez lembrar um episódio ocorrido na República Velha, onde aparecem como personagens o famoso advogado Rui Barbosa, 13 oficiais generais da Marinha e do Exército, o Vice-Presidente Floriano Peixoto e o Supremo Tribunal Federal.
De acordo com o Art. 42 da Constituição de 1891, a vacância no cargo de Presidente da República antes de dois anos do período presidencial geraria a obrigatoriedade de nova eleição para a escolha de um novo Presidente. Como o governo do Marechal Deodoro da Fonseca durou apenas nove meses, o Vice Floriano Peixoto deveria convocar novas eleições para a referida finalidade. Deveria, mas não o fez.
Naquela ocasião, nenhum cidadão comum seria louco de relembrar ao Vice que ele deveria cumprir a Constituição. A tarefa coube aos 13 Oficiais-Generais das Forças Armadas, que estavam convencidos de que obteriam êxito no puxão de orelha programado para Floriano Peixoto, que naquela altura já ocupava a cadeira da Presidência da República.
Revoltado, o Chefe de Estado foi resoluto: mandou prender as treze maiores autoridades militares do país, pois não abria mão da cadeira presidencial, embora soubesse que era inconstitucional sua pretensão de não convocar novas eleições para Presidente da República.
Quando o advogado Rui Barbosa impetrou um Habeas Corpus no Supremo Tribunal Federal a fim de soltar os trezes militares, Floriano Peixoto foi mais resoluto ainda: “Se o Supremo Tribunal conceder o Habeas Corpus, quem concederia Habeas Corpus ao Supremo?”.
Foi com essa frase irônica que um único político brasileiro encerrou a referida querela, pois o Supremo não deferiu o pedido de Rui Barbosa, tampouco teve a coragem de determinar que Floriano Peixoto cumprisse a Constituição Federal.
 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

KARL MARX: A ESPIRITUALIDADE DO ATEU E O LADO CAPITALISTA DO MAIS FAMOSO COMUNISTA

 

Imagem da internet

INTRODUÇÃO
Karl Marx (1818-1883) é conhecido por seu ateísmo de inclinação anticristã e por sua ideologia anticapitalista. O que não é tão familiarizado é o seu lado espiritual e seu afã por fortunas financeiras. O presente artigo mostrará, a partir de duas obras literárias (uma brasileira e outra norte-americana), os bastidores da vida desse homem que, graças às redes sociais, tem sido recentemente alvo de debates em todo o país.
O BERÇO RELIGIOSO DE KARL MARX
Nasceu num lar com tradição judia (de ambos os lados), havendo inclusive o registro de rabinos entre seus ancestrais. Seu pai se converteu ao protestantismo em 1816 ou 1817, por mera conveniência profissional: precisava continuar advogando depois da proibição de judeus em tribunais alemães. Segundo Josh McDowell, Marx cresceu num ambiente de reconhecida tolerância religiosa. Enviado para estudar numa escola religiosa, não firmou nenhum compromisso com a religião, pois seus pais, embora judeus e depois protestantes, aparentemente não nutriam o zelo pelo protestantismo, tampouco pelo judaísmo. Aos 19 anos de idade, Marx sofreu um colapso nervoso. Perdeu o pai no ano seguinte e uma década depois já era um comunista militante.
A POBREZA BATE ÀS PORTAS
Casou-se em 1843, resultando sete filhos desse matrimônio. O oitavo filho era bastardo, fruto de um relacionamento com a empregada doméstica, porém nunca o reconheceu oficialmente. A solução foi emprestar a paternidade a seu amigo Engels, que aceitou a encomenda do companheiro de luta.
Os dias de glória financeira ao lado dos pais se foram durante sua vida de casado, especialmente quando passou a residir em Londres com a família. O casal perdeu três filhos por agravamento das condições de moradia, má alimentação e atendimento médico inadequado.
Por diversas vezes Marx teve que se dirigir aos amigos a fim de pedir dinheiro emprestado para pagar as dívidas. Chegou a declarar: “Você sabe que sacrifiquei toda a minha fortuna à luta revolucionária. Eu não lamento isso. Bem ao contrário. Se tivesse que recomeçar minha vida novamente, eu faria o mesmo. Porém, não me casaria”.
O ardente desejo pela produção literária minou de Marx o empenho pelo trabalho braçal, o que fatalmente cooperou com sua extrema pobreza financeira. Em 1853, quando o alemão viveu o auge da miséria, era frequentemente visto com uma só roupa por muitos dias seguidos. Comumente perambulava pelas ruas, embebedando-se com facilidade.
O AMOR DE MARX PELO CAPITAL
Embora Marx lutasse com todo o seu vigor intelectual contra o imperialismo capitalista, ele não deixou de cobiçar uma boa dose de dinheiro fácil. Enquanto um tio de sua esposa agonizava, escreveu a Engels, seu parceiro de luta: “Se o cão morrer, estarei fora de complicações”. Referia-se ao ancião pela alcunha de “cão”, e o “fora de complicações” seria a possibilidade de ficar rico caso pudesse colocar as mãos na fortuna. Engels, o destinatário da referida carta, respondeu a Marx: “Congratulo-me pela doença do estorvador de uma herança, e espero que a catástrofe aconteça logo”. Foi nesses termos que os dois mais famosos comunistas se reportaram à oportunidade de o mais famoso deles ficar rico. Na quinta-feira, 8 de março de 1855, enfim Marx desabafa: “Um acontecimento muito feliz. Ontem soubemos da morte do tio de minha esposa, de 90 anos de idade. Minha esposa receberá cerca de 100 libras; até mais, se o velho cão não deixou parte do dinheiro à mulher que administrava sua casa”.
O mais surpreendente, no entanto, foi o modo como Marx se reportou à herança que receberia de sua própria mãe, em 1863: “Duas horas atrás chegou um telegrama dizendo que minha mãe está morta. O destino precisava levar um membro da família. Eu já estava com o pé no túmulo. Neste caso, sou mais necessário do que a velha senhora. Tenho que ir a Trier por causa da herança”.
Foi assim a relação que Marx fez entre a morte da própria mãe (e a de um tio da esposa) com a possibilidade de se deleitar com as heranças decorrentes das respectivas mortes. Marx se achava com as relações cortadas com a sua mãe, quando esta morreu. Mesmo assim, nenhum aparente sentimento brotou de seu coração, senão o desejo de herdar as posses da mãe. O desejo pelo capital falou mais alto.
O LADO ESPIRITUAL DO ATEU KARL MARX
“Sou ateu, graças a Deus”. Obviamente essa não é uma frase de Marx, porém ela pode ser empregada para explicar a relação entre o comunista citado e sua crença no espiritual. Vamos aos detalhes.
Marx se reportou a Deus não como crente, mas com um forte desejo de vingança. “Desejo me vingar daquele que governa lá em cima”, é o que escreveu num poema de sua autoria, chamado Invocação de alguém em desespero. Foi mais além. Sobre o Deus cristão, escreveu de forma mais contundente ainda: “Assim um deus tirou de mim tudo. Na maldição e suplício do destino. Todos os seus mundos foram-se, sem retorno! Nada me restou a não ser a vingança! Meu desejo é me construir um trono. Seu topo será frio e gigantesco. Sua fortaleza seria o medo sobre-humano. E a negra dor seria seu general”.
Em Marx & Satã, obra literária de Richard Wurmbrand (1909-2001), o pesquisador minucioso da biografia do pai do comunismo declara que havia uma estreita relação entre Marx e o satanismo. Numa peça teatral de autoria deste (ou seja, de Marx), chamado Oulanem, o famoso comunista se utilizou propositadamente de um anagrama para o nome bíblico Emanuel, que significa “Deus conosco”. De acordo com o dicionário prático satanista, esses anagramas são bastante utilizados em rituais de magia negra. No poema O Violinista, também de Marx, este escreveu: “Vapores infernais elevam-se e enchem o cérebro, até que eu enlouqueça e meu coração seja totalmente mudado. Vê esta espada? O príncipe das trevas vendeu-a para mim”.
Comentando o trecho do último poema citado, Richard Wurmbrand afirma: “Estas linhas ganham significado quando se sabe que nos rituais de iniciação superior dos cultos satânicos é vendida ao candidato uma espada encantada que assegura o sucesso. Ele paga por ela, assinando, com sangue tirado dos pulsos, um pacto segundo o qual sua alma pertencerá a Satanás após a morte”.
POUCO ANTES DE MORRER, KARL MARX É FLAGRADO ORANDO COM VELAS ACESAS
Marx foi um forte candidato a ter depressão, o que efetivamente ocorreu depois da morte de sua esposa, em 1881. Perdeu três filhos por desnutrição e por falta de higiene. Duas outras filhas suicidaram-se, cujo destino também fora seguido por um genro. O suicídio de sua filha Laura e de seu genro, o socialista Laforgue, se deu depois que o casal perdeu três de seus filhos (netos de Marx). Tudo concorria para a crença de que a vida de Marx estava emaranhada num poço de maldição.
Pouco antes de morrer, já em profunda depressão, foi flagrado em seu quarto, orando “diante de uma fileira de velas acesas, atando a fronte com uma espécie de fita métrica”, segundo Wurmbrand, que postulava pela crença de que Marx estava praticando algum ritual ligado ao satanismo. Independentemente da confirmação dessa afirmação, o certo é que o ateu Karl Marx dava sinais claros que contradizem o comportamento de um ateu convicto. Indiscutivelmente ele experimentou o mesmo vazio do filósofo Voltaire, que, no leito de sua morte, não somente recorreu à presença de padres católicos, como também expressou em palavras e gestos a dor de morrer com o vazio existencial (espiritual) a que tanto se reportam aqueles que já declararam passar por essa experiência.
Até hoje, a literatura mundial parece negligenciar os últimos dolorosos minutos de vida de Voltaire, Marx e Aristóteles. Há quem afirme que Darwin, que não era ateu, tenha passado por experiência semelhante. Mas essa é outra história.
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TEXTO: Robério Fernandes, autor do blog.
FONTES DE CONSULTA: A Cristofobia no Século XXI, de Daniel Chagas Torres, e Evidências da Fé Cristã, de Josh McDowell.
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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A MEMÓRIA DOS MÁRTIRES E AS VISITAS AOS TÚMULOS NOS PRIMEIROS SÉCULOS DO CRISTIANISMO

 
 
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O hábito de fazer oferendas e petições junto aos túmulos dos mortos (e para os mortos) não tem origem cristã, tampouco há registros apostólicos sustentando tal prática. Partiremos dessa perspectiva, porém não nos deteremos em demonstrar a origem histórica não cristã, e muito menos faremos uma análise teológica de textos bíblicos utilizados pró e contra esse antigo costume.
O QUE DIZ A APOLOGIA CATÓLICA?
Segundo a apologia católica, desde o século II existem registros de que os vivos se dirigem aos sepulcros com a finalidade de render orações pelos mortos. Personagens como Tertuliano e Cipriano (no século III), Cirilo de Jerusalém (no século IV) e Crisóstomo (no século V) são citados como defensores desse costume, que é apontado como sendo de tradição apostólica.
BISPO CATÓLICO SE POSICIONA CONTRÁRIO À OFERENDA AOS MORTOS
De acordo com Agostinho (354-430), o Bispo Ambrósio (um dos principais doutores da igreja dos primeiros séculos) proibiu o costume de se fazer oferenda aos mortos por duas razões principais: uma, porque os fiéis tinham o hábito da embriaguez durante os atos litúrgicos; a segunda, porque tal costume se assemelhava a uma festa pagã, chamada de parentales (ou parentais). Vejamos as palavras de Agostinho, em Confissões, em cuja oportunidade ele falava de Mônica, sua mãe:
“Assim, um dia, como costumava na África, levou papas, pão e vinho puro à sepultura dos mártires, mas o porteiro não quis permitir suas ofertas. Quando soube que essa proibição vinha do bispo, resignou-se tão piedosa e obedientemente, que eu mesmo me admirei de quão facilmente passasse a condenar o hábito, e não a criticar a proibição de Ambrósio”.
Um pouco adiante, Agostinho prossegue:
“Tão logo, porém, soube que o ilustre pregador e mestre da verdade [Ambrósio] proibira tal costume – mesmo para os que o praticavam sobriamente [ou seja, sem se embriagarem], para não dar aos ébrios azo de se embriagarem, e porque essa espécie de parentales era muito semelhante à superstição dos pagãos – ela se absteve de muito boa vontade”.
Notamos, facilmente, que a mãe de Agostinho (canonizada como Santa Mônica) se absteve de praticar oferendas aos mortos depois de ser advertida pelo bispo católico acerca da semelhança que havia entre essa tradição e o costume pagão.
No entanto, segundo o próprio Agostinho, sua mãe não deixou de fazer visitas aos túmulos dos mártires, mesmo após os conselhos do bispo católico. Assim prossegue o autor de Confissões:
“No lugar da cesta cheia de frutos da terra, ela aprendeu a levar ao túmulo dos mártires um coração cheio de puros desejos, dando o que podia aos pobres. Celebrava assim a comunhão com o corpo do Senhor, cuja paixão serviu de modelo aos mártires em seu sacrifício e coroação”.
Conforme se vê, Mônica não deixou de visitar os túmulos dos mártires, mas apenas deixou de lhes fazer oferendas. Nota-se, mais ainda, que aparentemente ela não tinha o hábito de peticionar junto ao sepulcro, mas apenas o de fazer oferendas, cuja prática foi substituída pelas orações depois da advertência do bispo, que, segundo se sabe de sua biografia, não rompeu com a tradição de render orações pelos mortos.
A MEMÓRIA DOS MÁRTIRES PASSOU A SER VISTA COMO ESTÍMULO À PERSISTÊNCIA NA FÉ
Provavelmente na transição do primeiro para o segundo século, quando a igreja já havia experimentado duras perseguições, os cristãos que, naquela ocasião, mantinham firme o pensamento apostólico, passaram a dar maior significância à memória de cristãos cuja vida piedosa servia de exemplo a ser seguido, especialmente pelo fato deles não negarem a fé diante da espada romana. Os mártires cristãos eram vistos como modelos a serem seguidos.
Veja-se, por exemplo, o próprio Justino Mártir (100-165), que se converteu ao cristianismo depois que tomou conhecimento de como os mártires cristãos não abdicavam de sua fé, ainda que pagassem com a própria vida pelo fato de permanecerem crentes em Jesus Cristo. Ou seja, ser assassinado pela simples razão de não negar essa crença era visto como um ato encorajador, nascendo daí o costume de perpetuar a memória desses mártires, inclusive com visitas aos túmulos, como foi o caso de Mônica.
A MEMÓRIA DOS MÁRTIRES E A PERMISSÃO PARA A LEITURA DOS LIVROS APÓCRIFOS DURANTE OS CULTOS
Não entraremos no mérito sobre os motivos pelos quais são rejeitados os livros apócrifos, mas pontuar que, embora alguns dos pais da igreja tivessem objeções em relação à canonização de alguns desses livros, por sua vez assentiam que alguns deles poderiam ser lidos na igreja, “para edificação” (veja-se a posição de Jerônimo a esse respeito), como foi o caso da carta de I Clemente e de uma carta enviada pelo bispo de Roma ao bispo de Corinto, por volta do ano 170 d.C., cujas obras eram constantemente lidas, para edificação, na igreja da referida cidade grega.
No Cânon 47 do terceiro Concílio de Cartago, em 397 d.C., chegou-se ao consenso de “... que seja, contudo, permitido que as paixões dos mártires sejam lidas na celebração das datas dos mártires”, demonstrando um prenúncio para a oficialização das datas comemorativas dos então futuros santos católicos, todos considerados mártires para a referida denominação eclesiástica.
O que se quer dizer, portanto, é que, no século IV (o mesmo em que viveram Agostinho, Mônica e o bispo Ambrósio), a igreja concebia uma significativa importância à memória daqueles que haviam morrido em nome da fé cristã.
MÔNICA VISITA OS TÚMULOS DOS MÁRTIRES E NÃO DOS MORTOS “COMUNS”
Cabe inicialmente esclarecer a diferença entre um mártir e um não mártir. O primeiro é uma pessoa que sofreu duras perseguições por causa da fé que professa. Não se trata, aqui, de uma pessoa que opera milagres depois da morte. O não mártir é aquele que não sofreu duras perseguições pela fé que abraçou.
De posse desse ligeiro esclarecimento, voltemos agora para o caso de Mônica. Note-se que, em todo o momento, Agostinho não faz alusão aos túmulos dos parentes, mas apenas aos túmulos dos mártires, ou seja, de cristãos que, em vida, eram considerados exemplos a serem seguidos. Na verdade, Agostinho não sinalizava de forma positiva no que concerne à prática de orar pelos mártires ou pelos mortos “comuns” (para saírem do purgatório), mas para fazer súplicas aos mártires – uma demonstração de que naquele século já estava bastante solidificada a crença de que os “santos” operavam milagres.
QUANDO E COMO SURGIU A CRENÇA DE QUE OS MÁRTIRES PODEM OUVIR AS ORAÇÕES DOS VIVOS?
Antes de entrarmos no mérito da pergunta, convém esclarecer que o fato dos cristãos que viveram nos primeiros séculos seguintes à morte dos apóstolos terem adotado o hábito de fazer visitas aos túmulos com a intenção de render súplicas aos mártires não é prova cabal que autoriza essa crença, a saber, a de que os mortos ouvem a oração dos vivos (e aqui fazemos um juízo de valor frente às Escrituras).
O que aconteceu é bem simples de explicar: com a difusão de doutrinas ditas apócrifas (gnósticas, pagãs, etc.), a igreja foi perdendo gradativamente a identidade original, notadamente quando pensamentos e práticas pagãs passaram a se confundir com pensamentos e práticas cristãs. A própria conversão de Constantino e os efeitos dessa conversão contribuíram maciçamente para essa mistura de doutrinas e de atos litúrgicos, embora no primeiro século já havia falsos mestres entre os cristãos. Nascem e difundem daí as crenças e as práticas de oferendas e intercessões pelos mortos, bem como a de que eles podem ouvir as súplicas dos vivos.
CONCLUSÃO
Não está claro, do ponto de vista documental, que, no primeiro século, os primeiros cristãos tivessem o hábito de se dirigirem aos túmulos com a missão de fazer oferendas ou de renderem súplicas aos mártires, ou ainda de orarem pelos mortos. Pelo menos é certo que em suas epístolas, os escritores neotestamentários não se reportaram, tampouco abonaram essa prática. Tal costume nasceu, indubitavelmente, da perda da identidade original dos cristãos, cujo marco cronológico se deu muito provavelmente a partir do último meado do segundo século ou mesmo do início do terceiro século.
Uma coisa é perpetuar a memória dos parentes mortos - inclusive dos mártires. Outra coisa é valer-se dessa tradição milenar como um imperativo dogmático, capaz de romper com o ensinamento apostólico. Ou seja, a igreja apóstata não somente recepcionou como também difundiu a ideia de que os mártires podem ouvir e atender às súplicas dos vivos, contrariando a Bíblia sagrada.
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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A GUERRA CRISTERA E A CONSTITUIÇÃO MEXICANA DE 1917: QUANDO O ESTADO LAICO SE TRANSFORMA EM ESTADO ATEÍSTA

 
 

Imagem da internet

A FRASE QUE DEFINE O ESPÍRITO ANTICLERICAL DA ÉPOCA
“É preciso penetrar nas famílias, quebrar as estátuas e as imagens dos santos, pulverizar os rosários, despregar os crucifixos, confiscar as novenas e outras coisas, trancar as portas contra o padre, suprimir a liberdade de associação para que ninguém vá às igrejas conviver com os padres, suprimir a liberdade de imprensa para impedir a publicidade clerical, destruir a liberdade religiosa e afinal, nessa orgia de intolerância satisfeita, proclamar um artigo único: na República, só haverá garantia para aqueles que pensam como nós” (1).
A frase acima foi proferida na década de 1920. É de autoria de um deputado pró-governo Calles, que ficou conhecido por seu vigor anticlerical. Revela, ainda, o espírito determinista do Estado mexicano, com amparo na Constituição de 1917, para minar do solo daquele país o catolicismo romano.
PUBLICISTAS DO MUNDO INTEIRO ELOGIAM A CONSTITUIÇÃO MEXICANA DE 1917
Até hoje, a referida Constituição é festejada por publicistas do Direito do mundo inteiro quando o tema é Direitos Sociais. Não por menos, afinal ela de fato foi um marco nessa seara. O que não divulgam é o vigor com que essa Carta Magda tratou os direitos individuais, notadamente aqueles relacionados à liberdade religiosa. Aliás, registre-se oportunamente, que esse tratamento dado à religião na época fazia parte da crença bastante solidificada de que o Estado Social somente seria alcançado se fossem varridas do solo mexicano as crenças metafísicas, daí por que a referida Constituição trouxe consigo um matiz flagrantemente socialista. 
O CONTEÚDO ANTICLERICAL DA REFERIDA CONSTITUIÇÃO
A situação desesperadora dos católicos mexicanos chegou ao ápice quando assumiu o poder o anticlerical Plutarco Calles (1924-1928), responsável direto por levar a cabo as prescrições da Constituição de 1917.
Havia pelo menos cinco artigos na referida Constituição que faziam clara afronta ao catolicismo romano: proibição das escolas monásticas, proibição de missas fora dos templos, restrição de propriedade por parte da igreja, extinção de direitos civis dos clérigos, dentre outros. Note-se que essas normas estavam textualmente assentadas na Constituição, fazendo com que, na prática, nenhuma legislação infraconstitucional pudesse suprimir ou contrariar as prescrições em voga.
A situação piorou quando o presidente Calles baixou uma lei restringindo ainda mais direitos e liberdades dos católicos, dentre os quais o de não andar nas ruas com vestes sacerdotais, prevendo, inclusive, punição de até cinco anos para sacerdotes que contestassem a Constituição e a Lei Calles. 
AS MORTES CAUSADAS PELA GUERRA CRISTERA
A consequência não demorou a chegar: a população, insuflada por clérigos locais, se rebelou contra o governo autoritário, nascendo daí um confronto armado que ceifou em torno de 90 mil vidas humanas. O fim da guerra se deu quando Calles concluiu seu mandato, embora no final de seu governo tenha abrandado suas forças graças à intervenção americana. 
CONSTITUIÇÃO LAICA OU ATEÍSTA?
A Guerra Cristera mostra um retrato daquele período, quando as ideias marxistas eram constantemente insufladas no meio dito intelectual, sendo uma dessas ideias a crença e a afirmação de que a religião era indubitavelmente um obstáculo para o Estado feliz e próspero. A mesma guerra mostrou, ainda, um lado nada agradável, que foi o uso da Constituição como mecanismo repressor de liberdades individuais, de sorte que a tão afamada Constituição Mexicana de 1917 não pode ser inserida no rol daquelas ditas Laicas, pelo próprio conteúdo em si. Antes, ela era indiscutivelmente uma Constituição anticlerical, própria do Estado ateísta, ainda que se propusesse a alcançar o tão sonhado Estado Social. O erro, como sempre ocorre nos modelos comunistas, não está no desejo final propriamente dito, mas nos meios para alcançá-lo.
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(1) Frase citada em História do Medo no Ocidente, de Jean Delumeau.