segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

PRISÃO DE ATEU FOI O ESTOPIM PARA A EXPULSÃO DA INQUISIÇÃO NA ESPANHA

A Inquisição nascera formalmente no início do século 13 e morrera, oficialmente, no século 19. Os seis séculos de vida ativa marcaram demasiadamente a história europeia, vítima de atrocidades indeléveis, cujos registros testificam contra seus algozes, um dos quais - considerado o mais cruel de todos -, atuou na Espanha.

Dos países assolados por aquela força insana, a Espanha foi o que mais sentiu de perto o peso e a fúria dos "donos da verdade", embora inicialmente, a Inquisição fora instituída pelo rei local, que ordenou fossem expurgados todos os mulçumanos, judeus, pagãos e hereges cristãos. A prestação de contas deveria acontecer diretamente ao monarca e não ao Papado - uma das singularidades da Inquisição na Espanha.

A partir das primeiras décadas do século 18, a Inquisição se revelou menos ativa na Espanha, e em 1808, o exército napoleônico, sob o comando do marechal Joachim Murat, invadiu e ocupou o citado país.

Com o rei espanhol deposto, ficou acordado que o catolicismo romano seria tolerado como qualquer outra religião. Na prática, a Igreja perdia a exclusividade e deixava de ser a "menina" dos olhos do Estado.

Embora tenha ficado insatisfeita, a Inquisição imaginou-se salva. A sobrevida trouxe consigo o desejo de continuar praticando o que sempre foi um hábito: perseguir e matar os não católicos.

Imprudentemente, alguns inquisidores prenderam o secretário de Murat (que comandou a invasão à Espanha). Além de estudioso dos clássicos, o braço direito de Murat era um revolucionário ateu, o que vem explicar sua prisão por parte da Igreja.

O comandante francês despachou tropas com a finalidade de resgatar, à força, o prisioneiro francês. O próprio Napoleão Bonaparte se dirigiu a Madri (dezembro de 1808) e, chegado à capital espanhola, não hesitou e ordenou, por decreto, fosse a Inquisição expulsa da Espanha, em cuja ocasião todos os bens da Igreja foram confiscados.

Em 1814, com a volta de um rei Bourbon, a Inquisição retornou à Espanha, pelo menos nominalmente, uma vez que a Europa já não era a mesma de duzentos anos atrás. Somente em julho de 1834, ela, a Inquisição, sofrera o golpe final, e formalmente, fora extinta das terras espanholas.

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sábado, 26 de fevereiro de 2011

TODO MUNDO EM PÂNICO

No dia 6 de fevereiro de 2011 falamos, neste mesmo blog, sobre alguns fenômenos ocorridos em uma cidade francesa no ano de 1951, quando muitos moradores locais apresentaram sucessivos comportamentos atípicos, recheados de pânico. Culparam o pão. Houve suspeitas de possessões demoníacas.

Em junho de 2010, no Ceará, dezenas de adolescentes, todos estudantes de uma mesma escola, entraram em transe durante as aulas, alegando que estavam vendo o espírito de um ex-aluno, morto há mais de sete anos.

A história da Humanidade parece estar cheia de fenômenos parecidos, não somente em relação ao que ocorreu no Ceará, como também em relação ao que aconteceu na França, em 1951.

Em 1374, na Alemanha, a população de uma cidade passou a acreditar que iria morrer e que em seguida iria para o inferno. Todos passaram a dançar de forma frenética e, segundo o testemunho de um monge, a dança se converteu em uma orgia gigantesca.

A França também foi palco de outros eventos parecidos. Em 1518, uma cidadã de Estrasburgo passou a dançar sozinha em público. Após um mês, ela foi acompanhada por centenas de pessoas, todas dançando em público sem nenhuma motivação aparente. O forte ritmo dançante e o prolongamento do ato provocaram muitas mortes por derrame e ataque cardíaco. Nas décadas seguintes outras cidades francesas viveram situações parecidas.

Em 1789, também na França, boatos que surgiram durante a Revolução Francesa davam conta de que bandidos contratados pela nobreza haviam sido mobilizados para atacar os camponeses de várias cidades. Temendo que de fato os boatos fossem concretizados, os agricultores invadiram as cidades envolvidas nos boatos e mataram, sem que fossem atacados, os transeuntes, que aparentemente não sabiam por que razão estavam sendo atacados pelos camponeses.

Em 1962, na Tanzânia, várias crianças de uma escola foram vítimas de um surto de riso, que acabou contaminando os familiares das mesmas. O fenômeno durou seis meses, e algumas delas apresentaram dificuldades para respirar por causa da intensidade dos risos. O surto cessou repentinamente, da mesma forma que teve início.

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

"POR QUE HAVÍAMOS DE VIVER TÃO LONGE UM DO OUTRO? COMO SERIA BOM SE ESTIVÉSSEMOS JUNTOS EM SEU QUARTINHO"

O texto acima sugere uma correspondência endereçada por uma pessoa apaixonada a uma outra que se achava distante, naquele momento. Não se sabe se era um caso de paixão, mas pelo menos de uma amizade colorida. O texto em questão é da lavra do culto imperador Pedro II a uma amiga, a condessa de Barral.

Mais de cinquentas depois da morte do imperador, o neto da condessa doou ao Museu Imperial de Petrópolis as cartas que ela recebera do amigo, cujo conteúdo não deixa dúvidas sobre a proximidade dos dois.

Embora muito tímido quando jovem, depois de adulto D. Pedro II viveu alguns romances extraconjugais. Sobre a condessa, o que se sabe ao certo é que os dois mantinham um forte relacionamento amigável.

Ela tinha muitas das características que ele apreciava: gostava dos livros, de história, de poemas, de artes, de literatura. Juntos escreveram uma História de Portugal. "Estudávamos juntos, e não havia mapas que não percorrêssemos juntos, não nos escapando nem mesmo um lugarejo da Herzegovina", escreveu D. Pedro II em recordações posteriores.

Os dois tinham o hábito de ler o mesmo livro e de participar das missas aos sábados. Ela trazia Paris para o Rio de Janeiro. Era uma mulher culta.

As suspeitas acerca de um relacionamento amoroso não faltaram. Uma das filhas de D. Pedro II teria flagrado algo diferente: "Mamãe, por que é que, durante as lições, papai pisa no pé da condessa?", teria indagado a filha à mãe.

"Às 9 horas apago a luz e mando todo mundo deitar, e sabe do que me lembrei quando subi a escada com a velinha na mão, sendo toda a casa no escuro? Ora se sabe!" Este texto parece revelar algo mais além de uma amizade.

Quando ela foi embora para Paris, D. Pedro se referia aos velhos tempos como "tempos felizes". "Quem me dera poder passar um instantinho ao menos do tempo em que estudávamos juntos. Escreva-me o mais que puder, preciso de suas cartas."

Combinaram que trocariam constantemente correspondências, que deveriam ser queimadas. Ele as queimava todas; ela, não.

Condessa de Barral também se preocupava com o amigo, e quando ele já estava velho, escreveu-lhe: "Não passe assim a metade de sua vida deitado ... não leia depois da comida, mas faça exercícios a pé".

Quando D. Pedro II foi deposto, em 1889, voltou a residir na Europa, tendo morado alguns meses na casa da velha amiga, em cuja oportunidade relembraram e reviveram algumas das práticas de outrora, uma das quais as caminhadas em conjunto.

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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

VOLTAIRE: ATEU, TEÍSTA, AGNÓSTICO, DEÍSTA OU PANTEÍSTA?



Voltaire (1694 - 1778) é considerado um dos maiores defensores da liberdade civil e religiosa de todos os tempos. Iluminista consagrado, foi referencial para grandes nomes que se envolveram com a Revolução Francesa e a independência dos Estados Unidos.

Em matéria de religião, o filósofo não deixou de revelar seu ponto de vista e, embora não tendo sido ateu, nem católico, pediu que lhe fosse dada a extrema unção. Pedido não aceito, acabou assinando uma última declaração, que será publicada no fim desta postagem. Em carta a Diderot, escreveu:

"Confesso que não sou, em absoluto, da mesma opinião que Saunderson, que nega um Deus porque nasceu cego. Talvez eu esteja errado, mas no lugar dele eu reconheceria uma grande Inteligência que me deu tantos substitutos da visão; e percebendo, ao meditar, as maravilhosas relações entre todas as coisas, eu deveria ter desconfiado que existe um artífice infinitamente capaz. Se é muito presunçoso adivinhar o que Ele é e por que Ele fez tudo o que existe, parece-me também muito presunçoso negar que Ele existe."

Voltaire não acreditva em milagres. Falando sobre um caso em que uma dona de um pardal havia rezado nove ave-marias em favor de seu referido passarinho (que acabou sobrevivendo), o filósofo retrucou: "Eu acredito numa Providência geral, cara irmã, que estabeleceu desde a eternidade a lei que governa todas as coisas, como a luz do sol, mas não creio que uma Providência particular altere a economia do mundo por causa do vosso pardal".

Voltaire era deísta, embora vez por outra dava indícios de crer no panteísmo de Spinoza. Não foi ateu; pelo contrário, o achava antilógico.

No final de sua vida achou que seria um bem para a Humanidade o homem acreditar piamente na existência de Deus. "Eu quero que meu advogado, meu alfaiate e minha mulher acreditem em Deus; assim, imagino, serei menos roubado, menos enganado", dizia Voltaire. E prosseguiu: "Quando essa crença evita até mesmo dez assassinatos, dez calúnias, afirmo que o mundo inteiro deve aderir a ela".

Pelo menos em um ponto Voltaire e Platão comungavam da mesma ideia: "Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo". O filósofo iluminista era prático: se o fato de se acreditar em Deus traz algum benefício, que o mundo todo creia em Deus. Voltaire falava da essência da mensagem cristã, embora soubesse que, na prática, a Igreja não se revelava como ensinava a primitiva doutrina apostólica.

Em 1755, Lisboa fora sacudida por um terremoto, exatamente quando a Igreja comemorava o Dia de Todos os Santos, o que fez com que milhares de mortes ocorressem dentro dos templos. O clero francês se pronunciou dizendo que tal fato ocorrera por causa do pecado do povo. Voltaire se revoltou e escreveu: "Ou Deus pode evitar o mal, mas não quer; ou quer evitá-lo, mas não consegue".

Próximo de sua morte, o filósofo desejou visitar pela última vez Paris. Em seu último leito, recebeu visitas ilustres, como Benjamin Franklin, que levou um de seus netos para que Voltaire o abençoasse. Depois que colocou as mãos sobre o menino, afirmou: "Dedique-se a Deus e à liberdade".

Ainda em seu último leito, um padre se dirigiu a ele a fim de lhe dar a extrema unção. Voltaire rejeitou e fez a seguinte indagação: "Quem vos mandou aqui, senhor padre?" Este respondeu: "O próprio Deus". Em seguida, Voltaire retrucou: "Pois onde estão as vossas credenciais?" Com este diálogo, o filósofo afirmou que não acreditava que os padres eram mensageiros de Deus aos homens.

Não se sabe se por arrependimento ou se pelo fato de Voltaire ter sido um homem de forte personalidade, ele pediu que outro padre se fizesse presente para que ouvisse sua última confissão.

O novo padre disse que só o faria se Voltaire assinasse uma profissão de plena fé na doutrina católica. Voltaire se rebelou e dispensou o padre. Em vez da confissão de fé na Igreja, terminou assinando uma declaração que diz: "Morro adorando a Deus, amando meus amigos, sem odiar meus inimigos e detestando a superstição. (Assinado) Voltaire, 20 de fevereiro de 1778". Mas parecia uma confissão sem nexo com a realidade, pois suas horas finais de vida depunham sua incredulidade. Morreu no dia 30 de maio do mesmo ano, tomado por um grande vazio existencial. Recusou-se a receber velhos amigos: "Retirai-vos! Fora! Que glória infame conseguistes para mim".

[O último parágrafo foi alterado em 21.03.2017]

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domingo, 20 de fevereiro de 2011

HOMENS TRAÍDOS SÃO CONVENCIDOS DE QUE SUAS ESPOSAS ESTÃO SE RELACIONANDO COM DEMÔNIOS E NÃO COM HOMENS DE CARNE E OSSO

"A mulher é um animal imperfeito, sempre engana; é mais rápida em vacilar, é mentirosa por natureza, é bonita de se olhar, contamina pelo contato, é mortal para se manter."

A frase acima bem que poderia vir de Aristóteles, de Schopenhauer, ou de tantos outros filósofos conhecidos, mas ela é de procedência de um livro publicado em 1487, por dois padres dominicanos, que não tardaram em chegar ao cargo de inquisidores.

O livro é Martelo das Bruxas, certamente a obra mais consultada pelos perseguidores da vida humana (embora a Igreja Católica viesse a reprová-la depois), cujo conteúdo ainda é considerado um dos mais licenciosos em termos sexuais. Foi usado inclusive por protestantes na condenação às bruxas.

O simples banho ao sol e a masturbação feminina eram vistos como de procedência demoníaca. Veja o que diz o livro:

"As próprias bruxas muitas vezes têm sido vistas deitadas de costas nos campos ou nas matas, nuas até o umbigo, e vê-se pela disposição dos membros que se relacionam ao venéreo e ao orgasmo, como também pela agitação das pernas e coxas, que, de maneira inteiramente invisível para quem está em volta, estão fazendo sexo com demônios."

Em outro texto os inquisidores oferecem uma racionalização que deve ter servido para aliviar a cabeça de muitos homens traídos. Dizem os autores:

"É certo também que aconteceu o seguinte: Maridos viram de fato demônios fazendo sexo com suas esposas, embora pudessem pensar que não eram demônios, mas homens. E quando pegaram uma arma e tentaram trespassá-lo, o demônio desapareceu de repente, tornando-se invisível."

Numa linguagem mais clara: quando o homem que copulava com a esposa alheia viu a reação do marido, fugiu, enquanto o traído se consolava por achar que tratava-se de fato de seres de outro mundo. Vigorou, por séculos, a crença de que era comum a prática sexual entre seres naturais com seres sobrenaturais (íncubus e súcubes).

O livro também afirmava que mulheres que mantinham relações com homens proibidos e em seguida eram abandonadas por estes, costumeiramente buscavam a ajuda e proteção dos demônios para que a confortassem sexualmente. Era, na verdade, uma forma implícita de afirmar que aquelas que eram flagradas com o capeta já haviam, antes, cometido pecado.

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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

IDADE MÉDIA E CIVILIZAÇÃO: DOIS CONCEITOS OU DOIS "PRECONCEITOS"?

Até hoje é grande o número de propagadores dando conta de que a Idade Média foi de fato a Idade das Trevas. Outros (ou os mesmos), por sua vez, costumam associar civilização a estágios de evolução das sociedades humanas.

Dizia-se (e ainda se diz) que a cultura humana nasceu na Idade Antiga, morreu na Idade Média e renasceu na Idade Moderna. Vejamos, resumidamente, alguns fatos históricos associados à origem de tais conceitos.

Foram os ingleses que cunharam a expressão "Idade das Trevas", uma referência à Idade Média, e, portanto, uma forma de afirmar que foi no citado período que houve um regresso geral da cultura humana.

A Revolução Francesa acabou sancionando tal conceito e o filósofo Alemão Hegel se tornou um dos muitos nomes a formular a ideia de que a história tem movimento evolutivo, cujo centro das atenções seria a Europa. As concepções darwinistas e a forte influência do Positivismo no século 19 contribuíram sobremaneira para que houvesse a nítida separação entre superioridade e inferioridade culturais.

Não por menos que ainda hoje os livros didáticos trazem a história da Europa como centro das atenções, enquanto outras culturas, como a muçulmana - muito mais rica durante a Idade Média -, ficaram de lado. Foi na Idade Moderna que as disciplinas escolares foram selecionadas na Europa, cuja influência atingiu a América, como o Brasil. Somente agora as universidades brasileiras estão inserindo em seu currículo um estudo mais denso sobre a África, uma tendência inclusive para o Ensino Médio.

O conquistador europeu passou a ideia para os povos conquistados (incluindo aí África e América) de que eles estavam fazendo um favor a nós, já que estariam civilizando o que até então eram vistos como selvagens. Vale a frase do médico indigenista Noel Nutels: "É um erro pensar que o índio prefere a civilização. Para morar numa favela? Ele está feliz tal como é, adaptado à região em que vive".

Hoje é pacífica nos círculos acadêmicos que lidam com ciências humanas (História, Antropologia, etc.) a assertiva de que não há cultura superior e inferior. Assim, no dizer do historiador Gianpaolo Dorigo, "não é possível comparar duas culturas diferentes para tentar estabelecer a superioridade de uma em relação à outra, pois nosso julgamento estaria limitado por nossos valores".

Os próprios renascentistas nutriam fortes preconceitos pelos medievais, pois enxergavam o período como uma vítima do pensamento cristão, daí o porquê da morte cultural, segundo os tais.

Não levaram em conta que foi na Idade Média que surgiram as univerdades, que a filosofia aristotélica foi retomada, que os contos de origem árabe e persa se espalharam, que os alquimistas descobriram muitas propriedades de sais e de ácidos, que o papel se difundiu, que surgiu a imprensa, que as técnicas de reprodução literária se desenvolveu, que os humanistas colocaram o homem no centro da atenção humana.

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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

DISCURSOS PARLAMENTARES BRASILEIROS PROFERIDOS POR OCASIÃO DAS TENTATIVAS INTERNACIONAIS EM PÔR FIM AO TRÁFICO NEGREIRO

Abaixo serão disponibilizados alguns discursos proferidos por deputados brasileiros durante o período em que se tentou acabar com o tráfico de escravos da África para o Brasil. Os textos revelam sua importância histórica, uma vez que demonstram o prestígio e a consequente hostilidade a que esteve sujeito o comerciante de escravos no Brasil.

Em 1827, um deputado se pronunciou em plenário nos seguintes termos: "Entendo que os negociantes de escravos, isto é, aqueles que vão comprar aos portos da África, não são participantes dos crimes cometidos por aqueles chefes que se fazem uma guerra pelo mesmo modo que se fazia na mais alta Antiguidade".

Como se vê, o parlamentar tentou inocentar o traficante. Nenhum dos ouvintes que estavam presentes pediu a palavra para contestar o colega. Valeu o ditado: "Quem cala consente!"

Em 1850, quando a Inglaterra pressionou o Brasil a colocar em prática a legislação de 1831 - que previa a punição para os traficantes de escravos - dois deputados foram protagonistas de um acirrado debate.

Aquele que ainda apoiava os traficantes, afirmou: "O nobre deputado sabe que esses homens são aderentes, adotam a política do governo atual". O deputado contrário rebateu: "Não são de política alguma; são piratas".

Disto isto, o deputado pró-traficantes retrucou: "Eu repilo inteiramente a expressão do nobre deputado. É uma expressão audaz e caluniosa. O nobre deputado não pode aventurá-la, não tem dados para isso, é uma precipitação sua". Seu oponente resistiu-lhe em seguida: "Os africanistas são piratas".

Era visível a atuação de parlamentares brasileiros que não só apoiavam a escravidão negra como tentavam justificá-la diante da nação. Não é estranho, portanto, que um dos maiores contrabandistas de escravos do Brasil tenha presenteado a comitiva portuguesa logo que ela chegou ao país em 1808. Em troca o governo lhe deu muitas honrarias.

Até meados do século em questão, o Judiciário brasileiro era facilmente corrompido pelos comerciantes, embora há relatos de juízes que foram coerentes com a lei, tendo chegado ao ponto, inclusive, de apontar grandes autoridades, dentre as quais membros da Guarda Nacional.

Somente com a Lei Eusébio de Queirós (1850) é que se pode falar em mudanças reais no tratamento dado aos contrabandistas, principalmente porque a competência para julgar esses casos passou para um tribunal especial, uma vez que o Governo imperial tinha fortes suspeitas quanto à seriedade das decisões dos juízes municipais.

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domingo, 13 de fevereiro de 2011

O ÚLTIMO SERMÃO DE MARTIN LUTHER KING

Martin Luther King (1929 -1968) foi pastor evangélico e ativista político, tendo se perpetuado como um dos grandes nomes que marcaram a luta dos negros norte-americanos contra os atos de preconceitos raciais que assolaram os Estado Unidos. Chegou a ganhar um Nobel da Paz.

Foi morto, a tiro, quando estava na varanda do hotel onde estava hospedado. No dia 3 de abril (um dia antes de ser assassinado), fora convidado a participar de um culto protestante, em cuja oportunidade proferiu seu último sermão. Leiamos suas palavras:

"Bem, eu não sei o que acontecerá agora. Temos dias difíceis pela frente. Mas, para mim, isso não importa agora, porque eu estive no topo da montanha. E não me importo. Como qualquer pessoa, gostaria de ter uma vida longa; a longevidade tem o seu lugar. Mas não estou preocupado com isso agora. Só quero fazer a vontade de Deus. E Ele permitiu que eu subisse a montanha."

Continua Luther King:

"Olhei ao redor e contemplei a terra prometida. Talvez não vos acompanhe até lá, mas quero que saibam esta noite que nós, como povo, chegaremos à terra prometida. E estou feliz esta noite; nada me preocupa. Não temo nenhum homem. Os meus olhos viram a glória da chegada do Senhor."

Embora oficialmente um homem tenha se pronunciado como o assassino, sobraram suspeitas de que pessoas mais influentes estivessem por trás do ato que terminou na morte do ativista político.

O próprio FBI já foi rotulado como um dos interessados no silêncio de Luther King, uma vez que suspeitas apontavam que o então chefe do Escritório Federal de Investigação dos Estados Unidos supunha que o ativista fosse comunista.

Em 1979, o Congresso americano concluiu as investigações sobre o caso, mas o acesso ao relatório somente será possível em 2029. Quem poderia mesmo falar a verdade seria James Ray, que, embora inicialmente tenha confessado o crime, chegou a afirmar posteriormente que era inocente e que havia sido manipulado. Ele morreu em abril de 1998. Resta-nos, enfim, aguardar o relatório final.

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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

OS PRIMEIROS PROFESSORES LAICOS NA EUROPA E NO BRASIL

Desde que a Companhia de Jesus fora criada, no século 16, a Igreja detinha o ensino, não somente na Europa como na América, com destaque para Portugal e Brasil, onde foi marcante a presença dos jesuítas nas salas de aula.

O domínio jesuítico somente foi removido quando o ministro de Estado, marquês de Pombal (que era antirreligioso), os expulsou de Portugal e de suas colônias, uma das quais o Brasil.

O período (1750 - 1777) em que Pombal ficou no Governo foi marcado pelo crescimento das ideias iluministas, que defendiam, dentre outras, a transferência da administração escolar da Igreja para o Estado. Assim foi feito.

Fechou todas as escolas administradas pelos jesuítas, além de proibir que seus métodos fossem adotados em sala de aula. Em 1759 foram registradas as primeiras aulas de gramática latina, grego e retórica administradas pelo Estado.

Alguns anos depois foi criado um imposto para sustentar o ensino público. Outras disciplinas passaram a compor o rol daquelas que eram ministradas pelo Estado.

Para se tornar professor, bastava o pretendente se candidatar para ser examinado por uma comissão previamente criada para esse fim. Os aprovados eram nomeados, cujo "contrato" durava de um a seis anos.

A partir de 1760 começaram a chegar ao Brasil os primeiros professores pagos pelo Estado português, os quais foram enviados à Bahia e Pernambuco. Posteriormente (1772), outras capitanias foram beneficiadas, mas somente as maiores.

No Brasil - pelo menos até 1790 -, as leis permitiam que somente os meninos assistissem às aulas e, embora a partir da referida data as leis permitissem a presença de mulheres, foi no início do século 19 que elas passaram, de fato, a entrar nas salas de aula, que funcionavam nas próprias casas dos professores. O conceito de colégio como o vemos hoje se revelou somente no século 20.

Os professores deveriam mostrar boa conduta, sob pena de perderem o emprego e de não receberem o salário, que, por sinal, chegava a se atrasar por vários anos. No estado de Minas Gerais, por exemplo, houve professores que permaneceram no cargo por mais de 25 anos, mesmo recebendo salários atrasados, um mal ainda presente em muitos locais no Brasil.

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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A ORIGEM DOS SÍMBOLOS DO CASAMENTO

Não se sabe ao certo onde, quando e como surgiu o casamento, objeto de desejo daqueles que pretendem viver para sempre ao lado da pessoa amada. Seus símbolos, porém, estão mais bem documentados historicamente. Abaixo, uma breve história da aliança, do arroz, da dama de honra, do buquê, da trilha sonora e da tradição da noiva ficar do lado esquerdo do noivo.

A aliança, com seu formato circular, significa que o casamento não deve ter fim, assim como Deus teria prometido uma aliança eterna com seus escolhidos. O dedo esquerdo anelar se deve graças à crença de que pelo referido dedo passa a veia do amor, que está diretamente ligada ao coração. O uso da aliança só ganhou força a partir do século 13.

O arroz, que é jogado sobre o casal logo após a cerimônia, tem por fim abençoar os dois, de modo que eles sejam férteis o suficiente para que possam gerar muitos filhos. Durante muito tempo o casamento foi visto como a oportunidade para gerar filhos e não necessariamente para unir um casal que se ama.

A dama de honra provavelmente tem origem na tradição da Antiguidade de destinar mulheres mais idosas com fim de ajudar as nubentes (que geralmente eram muito novas, ainda crianças), a se vestirem. No século 19, as damas de honra - geralmente da própria família -, viraram sinônimo de elegância.

O buquê tem origem na Idade Média, quando era costume a noiva seguir a pé, acompanhada de uma comitiva, até a igreja. Durante o percurso ela recebia erva, temperos e flores, e os juntava nas mãos. Foi no século 14 que surgiu o hábito da noiva jogar o buquê para as convidadas, uma forma de compensar a sorte desejada ao casal. Outra versão diz que o buquê surgiu na antiga Grécia, com o fim de tirar o mau-olhado.

A marcha nupcial foi composta em 1842, por um pianista, músico e compositor alemão. Ganhou fama e se perpetuou a partir de 1858, no casamento da princesa Vitória.

Outra tradição no casamento diz respeito ao lado em que o casal se posiciona no altar. A noiva fica do lado esquerdo do noivo. Surgiu a partir da necessidade do homem ficar com seu lado direito livre, para eventual necessidade de puxar a espada, caso algum engraçadinho tentasse raptar a noiva. Na Antiguidade o homem se casava armado, literalmente.

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domingo, 6 de fevereiro de 2011

A CULPA É DO DEMÔNIO OU DO PÃO?

O que o leitor terá a oportunidade de ler agora não costuma ser publicado nos livros de história, salvo em raríssimas fontes, dado o próposito de uma cidade inteira em esconder o que aconteceu em 1951, em uma pequena comuna francesa, quando boa parte de seus habitantes apresentou um comportamento atípico, recheado de pânico e outros sintomas correlatos. O fenômeno durou dias e desapareceu repentinamente.

De uma hora para outra, um cidadão tirou a roupa, ficou de quatro, saiu pela rua e começou a latir como se fosse um cão. Uma mulher passou a gritar desesperadamente, afirmando que seu corpo estava sendo incendiado.

Outro homem, um operário, dizia: "Não suporto mais as serpentes em meu estômago!" Um tabelião, que se achava em sua casa, pegou a espingarda e alertou que se os monstros que estavam do lado de fora de sua casa entrassem ele os mataria.

Um garoto de 11 anos interpretou que sua mãe era um bicho e tentou estrangulá-la. Já um senhor, achando que estaria diante de uma plateia, cantou sozinho, esperando ser ovacionado. Um jovem pulou do terceiro andar de um prédio porque achou que fosse um avião.

Uma criança afirmava que era continuamente perseguida por tigres, bem como narrou que via sangue escorrendo nas paredes da casa. Já uma dona de casa atestava, desesperada, que seus filhos haviam sido esquartejados para se transformarem em linguiça.

Duas semanas após o fim dos episódios, o prefeito local afirmou para um revista dos Estados Unidos que ele próprio testemunhara homens e mulheres saudáveis "subitamente ficarem aterrorizados, escondendo-se pelos cantos para fugir de alucinações".

Houve mortes, algumas por suicídio. Terminado o surto, outros ficaram com problemas psicológicos. De quem foi a culpa? Inicialmente as investigações concluíram que o pão havia sido contaminado, de modo que sobrou para o padeiro, que chegou a ser preso, mas solto depois por falta de prova.

Pessoas que testemunharam o episódio ainda hoje evitam tocar no assunto. Recentes pesquisas sugerem que a CIA, serviço de inteligência dos Estados Unidos, estava por trás de tudo: teria mandado colocar produtos alucinógenos no pão francês - logo no pão, tão apreciado pela população daquele país europeu. Até o momento não há provas da autoria, apenas especulações.

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sábado, 5 de fevereiro de 2011

A ORIGEM DA PALAVRA VAGA-LUME

Decerto o leitor já se deparou com um vaga-lume ou então já teve a oportunidade de ouvir falar nas livrarias que compram e vendem livros usados, cujo comerciante é conhecido por sebista. Afinal, qual a relação entre as duas proposições aqui discutidas? O que têm em comum o sebista e o vaga-lume?

De início vale ressaltar que o primeiro já fora conhecido por caga-sebo, enquanto o segundo, por caga-fogo e caga-lume. Tais nomenclaturas desapareceram, de modo que a geração atual não as tem como verdadeiras, algo diferente do que ocorrera há alguns séculos.

Em outra ocasião falamos que o Rio de Janeiro, no final do século 19, inventou a palavra mictório em lugar de mijadouro, uma vez que esta última tinha conotação direta com algo relacionado ao oŕgão genital.

Deve-se a um sacerdote, dicionarista e lexicólogo britânico (filho de francês), chamado Rafael Bluteau, nascido em 1638 e autor do conhecido Vocabulário Português e Latino, a invenção da palavra vaga-lume.

Inicialmente, o referido inseto era conhecido por pirilampo, cuja raiz etimológica está associada ao grego. Os portugueses e brasileiros relutaram em aceitar nomes derivados do latim e do grego, razão por que rejeitavam pirilampo, embora alguns nomes eminentes da língua portuguesa do século 17, como Joana Josefa de Meneses, preferissem este àquele.

Cagafogo e cagalume (melhor se fossem, do ponto de vista gramatical, caga-fogo e caga-lume) foram os nomes preferidos, não somente pelos lusitanos, como por nós brasileiros. O erudito Rafael Bluteau se opôs aos nomes, por julgá-los imundos demais, de modo que vivia se queixando de seus pares acerca do problema em questão, em cuja oportunidade alegava que somente a língua portuguesa, entre as neolativas, adotara "cagafogo".

O renomado escritor, doutor, professor da USP e autor do livro De onde vêm as palavras, Deonísio da Silva, afirma que "a palavra fez um longo percurso para chegar a vaga-lume", nome este aprovado por Machado de Assis (séc. 19). Bluteau deixou registrado que foram propostos alguns nomes à academia, como vagolume, fuzilete, noite-luz e bicholuzente, sendo os primeiros imediatamente reprovados.

Da mesma forma "sebista", nome atribuído aos comerciantes que trabalham comprando e vendendo livros usados, recebera, no passado, outra nomenclatura. Era conhecido por "caga-sebo", tanto que o escritor, músico e historiador Visconde de Taunnay (1843 - 1899) a registrou em seus escritos. As razões da mudança do nome de batismo estão associadas àquelas que justificam - ou tentam justificar - a substituição de outros nomes associados "a funções sexuais ou excretoras", no dizer de Deonísio da Silva.

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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

CABEÇA DE REI É LEILOADA EM PARIS

A decapitação e o envenenamento têm sua marca presente na história de reis e eminentes do mundo político. Que o digam os antigos romanos, os modernos franceses (Idade Moderna) e alguns contemporâneos brasileiros, como Lampião e seus asseclas.

Henrique IV (1553 - 1610), foi o primeiro rei francês da dinastia dos Bourbon. Protestante, depois se converteu ao catolicismo romano, provavelmente por conveniências políticas. Teve um mandato relativamente curto, quando comparado a outros reinados.

Depois que se converteu ao catolicismo, praticava as liturgias de praxe, dentre as quais as procissões. Foi exatamente em uma destas festas que fora assassinado à traição, depois de ser apunhalado (provavelmente no pescoço).

Seguindo a tradição da época, teve seu corpo embalsamado e depois enterrado na Catedral de Saint Denis, erguida no século VII. Após 1793, com a Revolução Francesa, teve a cabeça decapitada e roubada por vândalos, que tiveram o cuidado de desenterrar outros monarcas franceses.

A partir de então o destino do órgão decapitado do rei se tornou um mistério. Enquanto o restante de seu corpo repousava, a cabeça perambulava de mãos em mãos, alguns dos quais provavelmente colecionadores. Em 1900, ela fora adquirida em um leilão realizado em Paris e, finalmente em 1955, caiu nas mãos do último possuidor.

Recentemente, em 2010, uma equipe de especialistas franceses comprovou, depois de nove meses de pesquisa, que a cabeça encontrada (estava em quase perfeito estado) faz parte do corpo do rei Henrique IV.

Segundo a equipe, duas marcas, uma no nariz e outra na orelha (ele usava brincos) foram fundamentais para a identificação. Em 2011 será realizado um pomposo funeral, com direito à missa e tudo mais, e em seguida a cabeça do rei voltará ao lugar de onde fora decapitado.

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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A ORIGEM DOS CARTÓRIOS DE REGISTROS CIVIS

A prática do registro civil remonta à Antiguidade, embora somente as pessoas consideradas importantes é que se submetiam à referida estatística. Não havia o cartório como o concebemos hoje.

Com a queda do Império Romano e a ascensão da Igreja Católica, esta herdou a tarefa de proceder ao registro de nascimentos e mortes das pessoas, mas ainda assim somente de um grupo seleto, como nobres, reis, eclesiásticos e demais pessoas consideradas importantes. Na prática, a Igreja apenas deu continuidade a uma tradição.

A França detém o título de país pioneiro na prática do registro universal de nascimentos e sepulturas, cuja datação aponta para meados do século 16, uma iniciativa da Igreja Católica. Poucos anos depois, com o término do Concílio de Trento (1563), a Igreja oficializou e difundiu a prática do registro civil e do registro de mortos para ricos e pobres.

Somente no início do século 19, com o Código Napoleônico, é que a França retira da Igreja a obrigação dos registros em questão e os transfere para a responsabilidade do Estado. É o início da laicização do registro de pessoas vivas e mortas.

No Brasil, somente na segunda metade do século 19 é que a Igreja perde para os municípios o privilégio/dever de proceder a tais registros. Em 1863, por meio de um decreto, o governo imperial deu efeito civil aos registros de casamentos de pessoas não católicas e em 1874, também por meio de decreto, D. Pedro II regulamentou o registro de nascimento, casamento e de óbito no Brasil.

A partir de 1875, somente as grandes cidades brasileiras é que deram início a essa determinação, e a partir de 1888, a Igreja deixava, oficialmente, de cumprir com essa obrigação, cujas recentes mudanças foram outorgadas pelas constituições republicanas.

Positivistas e republicanos foram grandes responsáveis pelo empenho de laicizar essa prática. Até a última Constituição Federal brasileira, em 1988, era tradição os cartórios serem cedidos a famílias influentes em cada município brasileiro.

Até bem pouco tempo juízes e promotores de Justiça despachavam nas dependências dos cartórios. Não foi por menos que sobreviveu um velho adágio popular, que diz: "Parece que fulano tem culpa no cartório", uma tentativa de dizer que alguém está em desacordo com a lei.

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